Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_88.htm


DISCO

Luminosa e modesta

No primeiro álbum por uma grande gravadora, Teresa Cristina mostra boas composições em parceria com feras da MPB. Apesar dos quase 10 anos de sucesso, ela recusa o rótulo de estrela

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Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio



Teresa Cristina tem uma convicção. Para a cantora e compositora carioca, elogio deveria ser feito só para quem tem mais de 60 anos. Por isso mesmo, quando a chamam de “estrela da Lapa”, ela claramente fica sem jeito. “Gosto de saber que o meu trabalho está sendo bem avaliado, mas elogio é uma coisa momentânea e ao recebê-lo não me sinto confortável.”

Modesta, mesmo tendo dado importante contribuição para o processo de revitalização do bairro boêmio, localizado no centro do Rio de Janeiro, a sambista deixa claro que, embora cante em bares e centros culturais da região há quase 10 anos, não foi ela a primeira a fazer isso. “Não visto a camisa de que fui eu que comecei tudo. Os pioneiros são o Dobrando a Esquina, grupo de samba-choro que tocava nos antiquários da Rua do Lavradio, e o Eduardo Galote, cantor bastante conhecido nos bares de Santa Teresa, que inaugurou o palco do Empório 100, onde hoje funciona a Rio Scenarium”, lembra.

O nome da cantora está intimamente ligado ao Semente, um minúsculo bar da Lapa – claro! –, onde estreou no dia 14 de agosto de 1998. “Na primeira noite, 20 pessoas foram assistir ao show, até porque a cantora era uma ilustre desconhecida”, brinca. “Aos poucos, o público foi aumentando e chegou um momento em que muita gente ficava escutando do lado de fora. Eram, em sua maioria, jovens que depois do fechamento do Circo Voador pelo então prefeito Luís Paulo Conde, migraram para o Semente e outros bares do bairro. A propaganda boca-a-boca foi fundamental”, conta.

Para acompanhá-la, Teresa convocou jovens músicos que costumavam se reunir na casa dela, no Leblon, para ouvir sambas de Candeia e da Velha Guarda da Portela, além dos criados pela compositora. Eles formaram o Grupo Semente. “São meus parceiros de palco e discos desde então. Da formação original, permaneceram Pedro Miranda, João Callado e Bernardo Dantas. O Trambique entrou depois.”

Aliás, foi com essa turma que a cantora subiu ao palco pela primeira vez na vida, no Planetário da Gávea. “Quando fui para o Semente, indicada pelo Guaraci, violão da Velha Guarda da Portela, só tinha três músicas compostas. Aí, incorporei ao repertório músicas de compositores que admirava, entre eles, Candeia e Paulinho da Viola. Estava feliz de poder ter um lugar fixo para cantar e não tinha nenhuma pretensão de gravar disco”, revela.

Paulão e Paulinho
“Em 2001, o Paulão Sete Cordas (o mais requisitado produtor de discos de samba) me botou na cabeça a idéia de realizar um projeto em cima da obra do Paulinho. Em seguida, vieram o álbum autoral e o gravado ao vivo no Teatro Municipal de Niterói, todos pela Deck Disc”, comenta a ex-manicure, auxiliar de escritório e secretária do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Ali, juntamente com alguns amigos, montou uma rádio pirata na qual tinha um programa em que só tocava música brasileira.

No primeiro semestre deste ano, Teresa estava com um novo trabalho pronto, gravado em estúdio da Deck Disc, quando foi contatada pela EMI, que a queria em seu cast. “A Deck não criou nenhum tipo de problema para me liberar. Ao contrário, eles foram muito corretos e generosos comigo e vou agradecer sempre. Já cheguei na EMI com o CD pronto”.

Delicada, o título escolhido para a obra, é o nome de uma bossa que a compositora fez em parceria com Zé Renato. “Há a predominância de sambas no disco. Da mesma forma que um samba desacelerado vira bossa, uma bossa com o acréscimo de uma batucada se transforma em samba.” Pertencem mesmo ao gênero musical mais típico do Brasil as inéditas Cantar (Teresa Cristina), Fim de romance e Saudade de você, que Teresa fez com o saudoso Argemiro Patrocínio e com João Callado, respectivamente; além de A paz do coração (Candeia), A gente esquece (Paulinho da Viola) e Gema, recolhido do LP Outras palavras (1981), de Caetano Veloso.

Adepta de cultos afros, a cantora sempre teve no seu repertório de show e disco pontos de terreiro. Ao disco Delicada, ela incorporou Nem ouro, nem prata (Ruy Maurity, Júlio Nascimento, José Jorge e Olívia de Carvalho). Da Bahia, mais precisamente de um antigo LP do cantor e compositor Walter Queiroz, ela trouxe Carrinho de linha, gravada anteriormente por Fafá de Belém. Outra faixa do CD é o baião Pé do lageiro, clássico da obra do maranhense João do Vale.

Para fechar o repertório, um animado pot-pourri com músicas que evocam blocos de carnaval de rua, do qual fazem parte Fechei a porta (Sebastião Motta e Delice Ferreira), Rosa Maria (Aníbal Silva e Edson Silva), com Pedro Miranda (que também solta a voz em Quebranto, de Alfredo Del Penho e Zé Luís); e Jura (Adolfo Macedo, Marcelino Ramos e Zé da Zilda), cantada por Trambique. “Desde que cantou nessa faixa, o Trambique passou a fazer o maior sucesso no Morro dos Macacos, em Vila Isabel”, brinca Teresa. “Adoro carnaval de rua, saio no Cordão do Boitatá, que desfila nas ruas do centro do Rio.”

O fato de ter sido contratada por uma major, no entender da cantora, traz uma vantagem. “Meu trabalho, agora, poderá chegar a pessoas e lugares que ainda não tiveram acesso a ele. Mas não penso em dormir Teresa Cristina e acordar Ivete Sangalo.” No dia 29, Delicada será lançado oficialmente no Circo Voador. Em seguida, o show ficará em cartaz nos dois primeiros finais de semana de outubro no Teatro Cecap, em São Paulo. “Quero ir logo a Brasília mostrar, ao vivo, esse novo trabalho.”


Delicada

CD da cantora Teresa Cristina e do Grupo Semente, produzido por Paulão Sete Cordas.
Lançamento da EMI.
Preço médio: R$ 29,90

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