Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_97.htm
Os donos da voz
Criação de selos e gravadoras independentes torna-se tendência entre grandes
artistas da MPB, que passam a administrar as próprias carreiras com mais
autonomia
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Caroline Lasneaux
Da equipe do Correio
Anos e anos com a mesma gravadora. Palpites para lá, acertos para cá. A
parceria podia até estar indo bem mas nada como comemorar aos quatro
ventos o sabor da independência. Cada vez mais, artistas de destaque no
cenário musical estão saindo da barra da saia das gravadoras e procurando
caminhos para, finalmente, se sentirem os donos de suas carreiras. Montam
selos, entram como sócios em empresas fonográficas, inventam mil e um jeitos
de construir a própria história e, quem sabe, sentir menos os efeitos da
visível queda na venda de discos.
Para Djavan, montar a própria gravadora é sinônimo de liberdade e segurança.
Depois de 22 anos trabalhando com a Sony, ele criou a Luanda Records e,
hoje, sente-se entre os cantores mais independentes do país. Tem à
disposição estúdio, editora, produtora, gravadora e distribuidora para
trabalhar na hora em que tiver vontade. O último disco, Matizes, foi feito
assim. O cantor gravou só quando teve tempo e disposição, nos momentos
livres após o nascimento de Inácio, o segundo filho do segundo casamento.
Meu objetivo era ter condições de administrar minha carreira de modo
pessoal. Faço tudo quando quero, como quero, na hora em que tem que ser
feito e como tem que ser feito. Por mais que você seja independente numa
gravadora, ela tem uma maneira de administrar. Embora guarde algumas
especificidades em relação a cada artista, ela cuida de um casting com
várias pessoas. Então, nunca é como administrar a si próprio, obedecendo aos
seus desejos, revela.
A saída da Sony ainda trouxe mais uma vantagem ao cantor e compositor. Junto
com a antiga gravadora, Djavan administra os direitos sobre seu catálogo e
tem o poder de controlar os 12 discos que produziu quando estava lá. Não
acontece nada se nós não chegarmos a um consenso. Com isso, ganhei até mais
espaço no mundo inteiro, comemora o cantor, que fará uma turnê pelo
exterior no ano que vem.
Jair Oliveira, o Jairzinho, também está satisfeito com a experiência no S de
Samba, selo que montou em parceria com Wilson Simoninha. A idéia de
lançar-se de modo independente veio como resposta à crise no mercado
fonográfico. Achamos que seria mais sensato e proveitoso se trabalhássemos
com um selo nosso. As gravadoras grandes entraram num processo complicado.
Devido à pirataria, elas têm um retorno (financeiro) muito aquém do que se
espera, reflete. Por causa desse momento, é mais seguro para o músico ter
o controle do seu trabalho e de como ele é feito.
O primeiro álbum lançado pelo selo foi Simples, mais recente trabalho do
filho de Jair Rodrigues, que chegou às lojas no meio do ano passado.
Recentemente, foi a vez de Luciana Mello, irmã do cantor, com Nêga. Até o
início do ano que vem, devem ser lançados o novo álbum de Simoninha e o DVD
de Jairzinho. A distribuição dos discos é feita por uma empresa parceira, a
Brasil Música. Uma das maiores dificuldades do artista que monta seu selo é
a distribuição. Como o Brasil é um país imenso, geralmente precisamos
contratar os serviços de terceiros, conta. Aliás, é a estrutura apresentada
pela empresa que a define como gravadora ou selo. Quando fala-se em selo,
pensamos num lugar que, embora produza os discos, precisa contratar vários
outros serviços. Nas gravadoras, a estrutura é bem maior e elas trabalham
pelos próprios meios, explica Jairzinho.
Empreitada cansativa
Se a liberdade de conduzir a carreira é vantajosa, os artistas que optaram
por criar selos próprios são unânimes em dizer que a empreitada é cansativa
e trabalhosa. O bom é que conseguimos negociar as coisas do jeito que
imaginamos. Em compensação, é muito mais difícil empurrar o CD para as
lojas, uma vez que não temos a força e o know-how das grandes gravadoras.
Mesmo assim, botando tudo na balança, compensa muito ter o selo e a
possibilidade de controlar a sua obra, ressalta Jairzinho.
Leoni, dono do selo Outro Futuro, também acredita que o esforço vale a pena.
Dá mais trabalho, mas não há muito o que fazer. As gravadoras não conseguem
absorver toda a produção musical do país. Quando o trabalho é independente,
não é preciso dar para a gravadora uma porcentagem sobre a venda de CDs e
sobre o lucro do shows. O artista lança disco quando quer. Em contrapartida,
é preciso desembolsar um dinheiro para a fabricação dos álbuns.
A internet é a grande parceira dos músicos que buscam independência. Com a
pirataria, a venda dos discos já não garante mais retorno financeiro e os
CDs passaram a ser somente um instrumento de divulgação do trabalho do
artista. Segundo Jairzinho, o mercado musical não está em crise. Pelo
contrário, está em forte expansão. É o CD que está passando por problemas.
Como a música não vai ter fim, os artistas continuarão produzindo e buscando
novos formatos.
Leoni aproveitou a liberdade de ser dono do seu selo e optou por cativar o
público por meio do site pessoal. Na última quinta-feira, fez a estréia do
clipe da música Lado Z somente na rede mundial de computadores. Por lá,
também existe um blog e um espaço reservado para os internautas, que ganham
até demos de canções inéditas. Já até penso em não lançar mais música em
suporte físico. Talvez coloque só na rede e quem se interessar compra por
lá. Se não ganhamos dinheiro de outro jeito, temos que buscar novas
alternativas. É a tendência.
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MEMÓRIA
Confusões de Chico
Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico
Buarque buscar outro selo, a Polygram. No entanto, o compositor se viu
encrencado no último dia de gravação de seu novo disco. Na ocasião, a Ariola
foi vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem
à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, que fez parte do LP
Almanaque, de 1981. Enfim a voz firmou contrato / e foi morar com novo
algoz / queria se prensar, queria ser um prato / girar e se esquecer, veloz
/ foi revelada na assembléia-atéia / aquela situação atroz / a voz foi
infiel, trocando de traquéia / e o dono foi perdendo a voz / e o dono foi
perdendo a linha que tinha / e foi perdendo a luz e além / e disse: minha
voz, se vós não sereis minha / vós não sereis de mais ninguém, escreveu o
músico.
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Pelas próprias pernas
Conheça abaixo alguns artistas que fundaram selos e gravadoras para produzir
seus discos e de outros artistas.
Marisa Monte Phonomotor (selo)
Jane Duboc Jam Music (gravadora)
Fernanda Abreu Garota Sangue Bom (selo)
Zélia Duncan Duncan Discos (selo)
Maria Bethânia Quitanda (selo)
Leila Pinheiro Tacacá Music (selo)
João Marcello Bôscoli Trama (gravadora)
Olívia Hime Biscoito Fino (gravadora)
Jair Oliveira S de Samba (selo)
Djavan Luanda Records (gravadora)
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Um por todos e todos por um
Daniela Paiva
Da equipe do Correio
A reação brasiliense ao achatamento do mercado fonográfico combate a crise e
a falta de estímulo inclusive com sarcasmo. Um dos primeiros selos do
Centro-Oeste nasceu com nome feminino, Sonia Music, referência direta à
gravadora Sony Music. Surgiu pelas mãos de músicos inconformados com a
realidade devastadora existente na margem do cinturão da indústria nacional.
Obviamente, a luta está longe do fim. As iniciativas penam com a verba
escassa para elaboração de um calendário constante de lançamentos e com a
dificuldade de vendagem. Mas os empreendedores do setor mantêm-se firmes na
batalha por uma nova ordem independente.
Phú, baixista da banda brasiliense Macakongs 2099, está há 12 anos à frente
do selo de rock pesado Silvia Music antiga Sonia, rebatizada para seguir
sem possíveis amolações da Sony. Montei o selo porque não existia nada para
lançar as bandas, relembra o ex-DFC. O Silvia contabiliza 11 títulos, entre
coletâneas e álbuns de sua ex-banda, da atual e do grupo Satans Pray.
Dificuldades? Phú resume: todas. Grana, distribuição. Não tem loja que
queira vender os discos.
Mesmo assim, em breve ele solta o quarto trabalho da Macakongs 2099, depois
de três anos sem novidades da Silvia Music. Em tom nostálgico, o músico
reclama de uma distorção na proliferação de selos. Chega a ser ridículo. Os
caras têm uma semana e lançam disco. Nem sabem o que é fazer uma capa, só
querem ter o áudio. Antigamente, era tudo feito com amor.
O caso da Independência Records, criada em 1997 por Fellipe CDC, vocalista
da banda Terror Revolucionário, é parecido. Via uma pá de bandas acabando
sem lançar nada. O esquema da Independência parte do velho princípio de que
a união faz a força. Os grupos participam de coletâneas e racham custos.
Além de ser mais viável, facilita a circulação do trabalho, garante
Fellipe. Ele destaca que o retorno econômico é lento e a internet, por mais
que divulgue, também atrapalha. Muita gente faz cópias dos CDs. Fellipe
planeja três discos neste ano com o selo, destinado ao hardcore e ao metal.
Outra iniciativa antiga na capital é a Ponte Studio Gravações Ltda., do
pianista e arranjador Rênio Quintas, oficialmente no mercado desde 1993.
Entre os títulos com a marca, está o álbum Célia Porto canta Legião Urbana,
com 10 mil cópias vendidas desde o lançamento, em 1997. O grande nó é a
distribuição. Em Brasília, temos estúdios de alto nível. Não é preciso mais
sair daqui e gravar fora, atesta. Está nos planos o segundo álbum solo de
Quintas e o quarto de Célia Porto.
Gustavo Vasconcellos, da GRV Discos, que grava, distribui e edita desde
2002, surpreende: até a virada para 2008, pretende completar um catálogo de
30 CDs com 29 artistas locais. A GRV estreou com o primeiro disco da BSB
Disco Club: Mude o baile. Quando surgiu a Associação Brasileira de Música
Independente (ABMI), percebi o fortalecimento desse universo.
Uma das armas da GRV é aliar-se aos novos conceitos de venda de música, como
no celular e na internet. E também trabalhar com os soldados independentes.
Estamos fundando uma associação de produtores e empreendedores culturais do
DF, adianta. Será uma interessante junção de forças num universo que tem
nomes fortes como o selo da marca Senhor F, o Senhor F Discos, em que
Fernando Rosa faz parceria com o guitarrista e vocalista plebeu Philippe
Seabra e com bandas como a Protons. Sem falar na Monstro Discos, de Goiânia,
sempre de olho nas promessas de cá.
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