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De Baden para Baden
Segunda, 30 de julho de 2007, 08h00
Fernando Eichenberg
Philippe Baden Powell possui duas grandes semelhanças com o pai: os traços
físicos e o talento para a música. Se vivo fosse, Baden Powell completaria
70 anos no próximo dia 6 de agosto. Aos 29 anos, o filho, pianista de mão
cheia, desenvolve seus caminhos musicais ao mesmo tempo em que procura
manter viva a obra e a imagem do pai.
No ano passado, Phillipe lançou seu primeiro disco solo, Estrada de
Terra/Dirt Road, pela gravadora americana Adventure Music, e pelo qual foi
brindado com uma elogiada crítica de quatro estrelas na prestigiada revista
Downbeat. Também em 2006, lançou na França o CD duplo Tempo de Música -
Baden Powell (Harmonia Mundi), em que intercala composições de Baden com
trechos de uma antiga entrevista do pai a um programa de rádio. O disco foi
uma homenagem e também uma resposta àqueles que, segundo ele, procuram
reduzir e denigrir a imagem de Baden Powell, por exemplo, realçando seu
gosto pela bebida.
Há um ano e meio morando novamente em Paris, onde nasceu, Philippe pretende
continuar nessa trilha que cruza sua afirmação e identidade musical com o
resgate do trabalho do pai. À mesa no Café Zimmer, na Place Chatelet, diante
de um suculento steak tartare com fritas e salada, o músico e também filho
de um dos maiores nomes da música brasileira conversou com Terra Magazine.
No cardápio: o pai, música, trabalho, projetos e a vida no Brasil e no
exterior. Como sobremesa, Philippe devorou um tradicional creme brulée.
Depois, o café, a conta, metrô e de volta ao piano, seu companheiro de todos
os dias e, principalmente, de solitárias madrugadas.
Terra Magazine - Por que fazer, agora, esse disco do Baden?
Philippe Baden Powell - É uma idéia que eu vinha trabalhando. Aconteceram
várias coisas, e eu achei que era necessário fazer um disco de arquivo.
Desde a morte do Baden houve muitas homenagens, lançamentos de discos com
músicas, compilações, textos sobre ele. E algumas dessas coisas não me
agradaram, porque passava uma imagem meio errônea.
Que imagem?
O Baden era de uma geração que se alimentava de álcool, uísque, mulheres,
boemia, inspiração, tudo isso fazia parte da música dele. Uma vez eu vi em
uma compilação escrito que o Baden tinha afogado a vida no álcool. Para quem
não conhece e lê isso fica parecendo que o cara era um beberrão, e isso
denigre a imagem. Logicamente ele bebeu pra burro. Talvez, da turma, tenha
sido o que bebeu mais. Mas isso não o impediu de fazer o que tinha de fazer.
O álcool não o impediu de fazer coisas excepcionais. E você não pode fazer
mais discos do que anos de vida - no caso do Baden ele tem 80 discos e
morreu com 63 anos - e querer que tudo seja ultraperfeito. Você tem
contratos com a gravadora, que tem de cumprir, e faz um disco tipo "bom,
vamos fazer logo para acabar com isso" e tal, mas não pela questão do
álcool.
Você disse que ficou chateado com algo que o Ruy Castro teria escrito sobre
o Baden em um de seus livros.
Na verdade, isso foi uma coisa que me contaram. Preciso ler o livro para
dizer com certeza se foi o Ruy Castro ou não. Mas é algo meio que dizendo
que o Baden nunca tinha ido a Bahia quando fez o Berimbau. E eu tenho fotos
do Baden na frente da Lagoa do Abaeté, dessa época, dos anos 60, quando ele
nem usava óculos. Aí eu peguei e coloquei a foto no livreto desse disco. Eu
quis fazer esse disco um pouco para acabar com os boatos, para as pessoas
terem uma idéia mais verdadeira do que era o personagem. E foi uma coisa
muito legal. É ele contando a vida dele. Os depoimentos são de uma
entrevista que ele tinha feito para uma rádio, em 1990. Coloquei só as
respostas, porque calhou de o Baden estar em um dia em que estava a fim de
falar e o entrevistador perguntava uma coisa e ele respondia outra
completamente diferente. Ele estava a fim de contar. E lembro desse dia. É
aquelas coisas de entrevista para rádio, que o pessoal liga para você de
manhã, o Baden estava de ceroula, de bermuda, sei lá, em um dia de bom
humor, tinha acabado de tomar café, ainda estava na cama, e falando. E falou
do início, de como aprendeu a tocar violão, do que acha que é importante
para a música, do relacionamento dele com pessoas com as quais conviveu, do
Pixinguinha que era vizinho dele, da amizade dele com a turma de antes da
bossa nova - Luiz Eça, Ed Lincoln -, do Tom, de quando tocava na noite junto
com o Ary Barroso. Achei isso interessante e legal para as pessoas se
aproximarem do Baden, saberem como ele era e daí tirar suas conclusões em
realção a imagem que estão querendo dar ou se apropriar. E era uma homenagem
pessoal minha, porque a gente conviveu de uma maneira muito intensa, mas por
muito pouco tempo. O Baden foi meu professor e meu pai, meu e do meu irmão.
E os anos passaram muito rápido e a gente nunca pôde aproveitar com a
maturidade que temos hoje. Eu coloco esse disco em casa, fico ouvindo, é
emocionante.
Como você define a imagem do Baden hoje?
Eu tento manter uma certa distância em relação a isso, porque sei que o
mercado mudou e a cultura para cada país e cada geração é cada vez mais
diferente. Mas de uma coisa tenho certeza: o Baden é uma figura importante
para a música brasileira. E não quero apresentar o Baden para ninguém, mas
sim que as pessoas que se interessam pela música dele possam também ter uma
idéia de como era a pessoa. Que não era nem melhor nem pior, extarodirnária
ou ordinária. O Baden tinha uma ligação muito forte com a música. Encontrei
muitos artistas que são pessoas grossas, mal-educadas, às vezes
indisponíveis para qualquer assunto em relação à arte se você é um
desconhecido. O Baden não era muito assim, não. Ele era intolerante com
coisas ruins, de que não gostava, coisas que ele achava que não tinham
consistência, mas sempre foi uma pessoa disponível, ouvia, ia a concurso
como jurado. Acho esse lado íntimo assim do artista legal, sempre gosto de
saber da vida de um artista cuja arte me interessa. Como ele é importante
para gerações de violonistas e de músicos, compositores, acho que esse disco
é um documento bacana. Mas não sei dizer se ele tem uma imagem boa ou ruim.
Citei essa coisa como algo pessoal, de família. Você nunca gosta do lado
negro, principalmente quando as pessoas querer colocar uma cor ainda mais
preta do que realmente é.
Além desse disco já lançado, você tem outros projetos de memória em relação
ao Baden?
Esse disco faz parte de alguns outros projetos que tenho em mente para
apresentar outras coisas dele que as pessoas não conhecem. Acho que a obra
maior do Baden é a coisa dos afro-sambas, e ele tem uns ainda inéditos.
Estão guardados em uma caixa, junto com várias gravações de shows ao vivo,
entrevistas, depoimentos. Gostaria de fazer um disco de composições inéditas
da série dos afro-sambas, cujos letristas são o Paulo Sérgio Pinheiro, o
Vinícius. Todo mundo conhece os afro-sambas de Baden e Vinícius, mas há
outros com outras letras e que são inéditos. O Baden tinha esse lado da
composição muito completo. Apesar de violonista, não fazia música para o
violão. Tinha essa capacidade de fazer uma música com caráter experimental
ou uma música com caráter poético. E outro projeto é o de fazer um disco com
um tratamento mais sinfônico dessa obra toda. E com a participação de
convidados, cantores, instrumentistas, fazer algo um pouco maior. Até um
pouco inspirado com o que se fez no Brasil recentemente com o Ouro Negro,
disco em homenagem ao Moacir Santos, ou com o Jobim Sinfônico, disco que
coloca a obra do Tom com uma abordagem também erudita. Acho que a obra do
Baden se presta para esse tipo de leitura. Vamos ver se rola isso lá no
Brasil.
Qual a primeira imagem que você tem de seu pai?
Foi em Paris, pois eu nasci aqui. E acho que já era uma imagem com o violão.
Ele era um pai muito carinhoso. Quando a gente cresceu e resolveu estudar
música, aí ele ficou mais professor, um pouco mais duro. Mas a primeira
imagem que tenho dele é com o violão, fazia parte do dia-a-dia, da música
com a vida cotidiana. Aqui em Paris era menos músico em casa, no Brasil
tinha mais. Aqui era uma coisa mais dele com o violão.
Seu pai ia viajar para os Estados Unidos, mas na última hora decidiu mudar e
veio para a França, onde ficou por mais de 20 anos. Você mesmo nasceu aqui
em Paris.
Nasci aqui em Paris, em 1978. Meu pai já estava aqui há quase 20 anos.
Ficamos aqui uns 4 anos mais, depois nos mudamos para a Alemanha, em
Baden-Baden, uma cidade que o Baden conheceu quando foi tocar uma vez, se
apaixonou pelo local e resolveu se mudar para lá. Isso foi logo depois do
nascimento do meu irmão, lá por 1982-83. Depois retornamos para o Brasil. O
papai estava com banzo. Banzo era aquela doença que dava nos escravos, dá
uma reação física porque você está com saudades de sua terra. O Baden já
estava há tantos anos fora do Brasil, desde a década de 60. E mesmo sem ele
ter tido problema nenhum com o governo, acho uma coincidência enorme que
tenha sido entre o início e o fim da ditadura. Acho que era para não ter
aporrinhação. Acho que ele deve ter resolvido abrir mão do país para ficar
tranqüilo. Mas ele nunca teve problema nenhum com isso. Mas, enfim, o fato é
que no final da década de 80 a gente voltou para o Brasil. Meu irmão e eu
fomos pela primeira vez, e meu pai e minha mãe voltaram, em 1987. Ficamos
uns sete anos lá, depois voltamos para a França, e aqui já tinha havido
muita mudança no mercado, não foi tão bom, e então retornamos novamente para
o Brasil. Aí eu me casei. Sou casado com uma francesa, Yaëlle, e tenho uma
filha, Rafaëla, que vai fazer cinco anos em setembro. E, entre outras
coisas, para a minha filha conhecer a cultura francesa, que não deixa de ser
a minha também, a gente resolveu se mudar para cá. Faz um ano e meio que
estamos aqui agora.
Você já disse que veio para cá também porque estava com ojeriza do Rio.
Depois que saí fiquei um pouco, porque na verdade comecei a me dar conta de
que morava em um lugar onde tudo o que eu gostava e queria fazer não era
possível. Eu gosto de tocar piano, e na maioria dos lugares você tem de usar
teclado. Isso já é uma complicação. Tudo o que você quer consumir de cultura
é muito caro, e você acaba tendo que trabalhar não só para viver, mas também
para consumir tudo o que quer. Eu adoro o Brasil, acho um país com
capacidade, com riqueza, com tudo o de melhor que um país pode oferecer, mas
para uma determinada coisa, não para isso. Comecei a ver que se eu vivesse
em um país em que pudesse tocar piano e poder comprar um livro sem gastar
uma soma exorbitante seria melhor. Seria menos problemático. Sem contar
aquelas coisas que todo o mundo já sabe, que a gente paga imposto de renda e
acaba tendo de pagar tudo duas vezes. Para você ter direito à saúde tem de
ter um plano de saúde. Então para que eu pago o imposto de renda? Tem de
pagar um colégio particular para a minha filha. Então o Brasil virou um país
para outra coisa. Quando estou a fim de relaxar, curtir a praia, tomar um
chope gelado, ver os amigos, as pessoas e tudo o mais, aí acho o Brasil
legal. Mas para tocar piano, comprar livros, ver espetáculos, enfim, aí não
é o Brasil.
Como você vê o Rio hoje daqui?
Eu estou achando o Rio muito assustador. Os lugares em que se podia tocar
fecharam. O Mistura Fina fechou, já foi até demolido. Tem a Sala Baden, que
é legal. Tinham alguns clubes - entre aspas - de jazz, que são clubes de
música mais intimista, que ficavam na Lagoa e também fecharam. Agora a
concessão do Estado para os quiosques que fazia música vai acabar. O que
sobrou para se fazer no Rio? Sem contar a violência. Está todo o mundo muito
assustado, com medo de sair de casa. Ante de eu ir embora, lembro de um
momento determinante. Eu fiz capoeira, sempre fui a todos os lugares sem ter
medo, graças a Deus nunca, nunca fui assaltado e nunca tive medo de andar na
rua. Mas teve um dia em que fui para a casa da minha mãe, eu morava na Gávea
e ela mora na Barra, e na volta vi uma bala traçante, em São Conrado. Era
uma briga de ponto, de morro, de Rocinha com Vidigal. E a rua estava
fechada, a gente não podia passar. Pensei comigo: "É, realmente está ficando
perigoso". Ficando perigoso de andar na rua. Todo o mundo já achava isso e
eu ainda não. Mas nesse dia me dei conta de que alguma coisa estava mudando.
Sem contar que já vinha reparando que as pessoas saíam menos de casa.
Qualquer show em que ia no Mistura Fina nunca a casa estava cheia. Acho que
é medo de andar na rua. Tem gente que vive engaiolada, em prédio cheio de
grades.
Você se imagina aqui por mais de 20 anos, como o seu pai, ou vai sofrer de
banzo também?
Se for pensar só em relação ao Brasil, acho que vai depender do que vou
fazer profissionalemente. Sem dúvida o Brasil é o melhor país do mundo para
se morar, para se viver. Mas, asism, no sentido ao pé da letra, você vive
tranqüilo, psicologicamente falando. Não estou me referindo à violência e de
Rio e de São Paulo. Há outras cidades, outras coisas do Brasil. Lugares em
que você vive tranqüilo, só que aí a tranqüilidade é para tudo. Se eu quiser
fazer uma carreira, integrar um circuito, tocar em festivais, em salas,
clubes, teatros, aí tenho de sacrificar essa tranqüilidade e ficar aqui um
tempo. Apesar de o ambiente ser meio padrasto aqui para relacionamento
humano, as pessoas aqui não têm nada a ver com as pessoas no Brasil. Para
isso, sem dúvida, eu prefiro o Brasil. Mas se não der pé profissionalmente
eu prefiro ficar tranqüilo no Brasil. Mas há muitos lugares ainda para se
conhecer. E com essa de mudanças na minha vida - nasci aqui, fui para a
Alemanha, voltei para o Brasil, voltei para cá -, acho que isso também
contribui para também experimentar vários lugares. O Chico (Buarque) que diz
um negócio interessante, que não basta você gostar da cidade, você também
tem de saber viver nela. Eu acho que sei viver aqui em Paris. Não gosto de
tudo aqui, mas sei viver aqui. No Rio acho que gosto de mais coisas, mas as
poucas coisas de que não gosto são essenciais, pelo menos nesse momento da
minha vida. Eu não estava mais sabendo viver no Rio.
Você mora no subúrbio de Paris. Foi uma escolha?
Pois é, Paris ficou muito cara. E apertada, os vizinhos continuam
mal-humorados. E como eu gosto de tocar de madrugada, e pelo fato de eu ter
crescido em uma casa no Rio, na Barra, demos sorte de ter achado uma casa no
subúrbio, mas não muito longe de Paris, em Alfortville. Mas dificilmente
saio de casa. Minha mulher fez uma decoração ótima, tem uma varanda, posso
tocar piano tranqüilo, gravo, trabalho, não tem vizinho, passa pouco carro,
é ótimo. E de metrô em dez minutos estou em Paris.
Músico, filho de Baden Powell, a lógica diria que você tocaria violão, mas
você optou pelo piano.
Até onde eu me lembro, sempre tive um relacionamento forte com a música,
sentia um apelo, era atraído pelos sons, ritmos, que eu tentava reproduzir
batendo com a mão, cantando ou assoviando. Isso desde muito cedo. Acho que
eu teria sido músico mesmo se o meu pai não fosse músico. Era uma
curiosidade, um interesse, talvez, um pouco acima da média. Mas sem dúvida
houve uma grande influência na minha escolha o fato de meu pai ter convivido
com outros músicos, outros artistas, não era só ele. E tem um outro detalhe,
que foi o fato de o Baden não ter feito força, nem para mim nem para o meu
irmão, sermos músicos. Isso foi bom, mas também duro. Acho que acabei
escolhendo um outro instrumento pelo fato de não aprender o próprio
instrumento do meu pai. É aquela coisa de moleque. Bom, já que vou aprender
com outra pessoa, vou aprender outra coisa. Acho que foi mais ou menos por
aí. E é engraçado, porque quando escolhi o piano não tinha lembrança de ter
ouvido ou visto um piano. Tenho certeza de que vi e ouvi, mas uma vez só.
Então acho que foi uma espécie de paixão à primeira vista, e escolhi ali na
hora. Eu tinha só sete anos de idade, mas já vinha pegando o violão,
experimentava sons, desde os três anos. Decorava frases de orquestra do
desenho animado do Pica-pau, do Michael Jackson de 1980, das valsas de
Chopin do Tom & Jerry. Eu já tinha um ouvido musical. Aí o tempo passou,
papai encontrou um professor especializado em iniciação musical para
crianças, chegou em casa um dia dizendo que íamos aprender com outro
professor, fiquei feliz, mas pensei que papai que iria nos ensinar. Lembro
desse professor, Monsieur Ponse, um francês, me perguntando se não queria
aprender violão. Ele ficou surpreso quando disse que queria aprender piano.
E aí nunca mais larguei o instrumento. Mas, sei lá, se for apelar para Freud
talvez vá descobrir que eu não queria ter a dificuldade de ser filho de
violonista tocando violão.
Como foi seu primeiro contato com música?
A primeira música com a qual eu tive contato, eu digo fazendo música, não
foi a brasileira. Apesar de que no Natal eu ouvia João Gilberto, Zimbo Trio,
Elis, Luizinho Eça, Tom, Vinícius, papai. Mas a primeira música com a qual
tive contato foi a música clássica. Aqui na Europa, a maior parte do ensino
musical começa pela música clássica, Chopin, Mozart, Bach. Depois papai me
apresentou o jazz. Aí me deu vontade realmente de ser músico, de fazer disso
a minha vida. Depois da década de 60, o jazz ganhou um outro sentido, virou
tudo aquilo que é misturado, em que a gente pode fazer variações. Não estou
falando do jazz americano, que eu adoro, mas que não tem nada a ver comigo,
não é a minha cultura. Cada povo com sua cultura musical. Mas a
improvisação, o enriquecimento e a sofistificação harmônica, tudo isso faz
parte das coisas de que gosto de fazer musicalmente. Ouvi vários discos de
jazz, começando pelos franceses. Ouvi Michel Legrand, que é mais compositor
do que músico de jazz, mas é um puta pianista, improvisador fora de série,
orquestrador, arranjador. Ouvi Ivan Julien, Eddy Louiss, que é um organista,
trompetista e arranjador. Ouvi o Count Basie, Oscar Peterson. Depois de ele
me apresentar isso, aí tudo fez sentido.
Como surgiu o seu primeiro disco?
Lancei no ano passado, nos EUA. Bati em várias portas no Brasil, mas nenhuma
delas abriu. Aí apareceu esse selo, Adventure Music. A gravadora tem no
catálogo Luiz Avellar, Ricardo Silveira, Moacir Santos, Mario Adnet, Luiza
Adnet, Jovino Santos, Hermeto (Pascoal) em participações, Hamilton de
Holanda, Daniel Santiago, enfim, uma turma que eu acho que representa a nata
da música instrumental brasileira. Se tivesse podido lançar no Brasil,
certamente que o faria também. Esse primeiro disco quis fazer com
composições próprias. São dez músicas que compus. E assim que acabei de
gravar achei que tinha a ver com todo esse período que passei no Brasil e em
que pude reencontrar ou encontrar a minha raíz musical, que é a raíz
brasileira, ritmicamente, melodicamente. É um disco autoral. Para cada faixa
escolhi um time diferente, de amigos e de grandes músicos, com os quais pude
tocar, trabalhar, aprender, falar sobre música. Tem o Carlos Malta, o Vittor
Santos, o baixista Tiago Espírito Santo, o percussionista Amoy Ribas, o
Hamilton de Holanda. É um disco com muitas pessoas participando mas também
com várias cores musicais. Na crítica da revista Downbeat, que me deu quatro
estrelas, o que foi muito legal, definiram como disco outonal, de outono.
E o próximo?
Tenho mais dois projetos de disco, não sei qual vai sair primeiro. Um não
sei se vai se chamar Cancioneiro ou Clássicos Brasileiros. Se sair nos EUA
vai se chamar Brazilian Standards. É um disco de releituras das músicas que
fazem parte do meu aprendizado. Coisas do Tom Jobim, do Egberto Gismonti, do
Hermeto Pascoal, do Baden, do Ivan Lins, do Dori Caymmi, da minha família
musical, meus "tios". E tem um outro disco que é um piano solo, que comecei
a fazer quando vim pra cá. Porque, ao contrário do Brasil, aqui tenho
passado muito tempo só, trabalhando no piano. A Europa é assim comigo, me
deixa mais sozinho. O chope é quente, então já prefiro ficar em casa
(risos). O pessoal fala mais baixo, eu gosto de dar gargalhada. É um período
em que tenho passado muito só, comigo, e tenho descoberto um monte de coisas
sobre a minha maneira de tocar, sobre como abordar a música. E foi pintando
uma coisa nova de identidade artística para piano. Talvez o disco vá se
chamar O Cavaleiro da Costa do Marfim. O cavaleiro é solitário. E o teclado
do piano é uma espécie de costa, tem uma praia. Pô, quem ler isso vai
pensar: "Mas que papo de viado" (risos).
E como tem sido seu trabalho por aqui com outros músicos, com o Márcio
Faraco, compositor brasileiro de sucesso aqui na Europa, ou com a atriz
Maria de Medeiros, que lançou recentemente um disco com interpretações de
músicas brasileiras?
Eu gosto muito de tocar com os outros, para os outros. O trabalho com o
Márcio está sendo muito legal, porque acho ele um super compositor.
Escrevemos coisas juntos e temos uma identificação musical muito parecida. E
nos entendemos muito bem, tanto dentro como fora do palco. O encontro com a
Maria de Medeiros também foi muito bacana. Ela tem essa proximidade com a
música brasileira e fiquei feliz por ela ter me chamado para fazer parte
desse projeto musical dela. Participei também do último disco do Seu Jorge,
um amigo de muito tempo. Comecei fazendo minhas primeiras gravações com ele,
tenho um respeito enorme por ele. Trabalhei também com o Marcelo D2, que é
uma coisa meio inusitada, mas ele deixava eu tocar livremente. E apesar de
rap, as pessoas falam que tem só dois ou três acordes, mas tinha muitas
coisas interessantes. Escrevi arranjo e pude fazer, trabalhando com ele,
muita coisa que não podia fazer com outros artistas. Trabalhei com a Flora
Purim e o Airto Moreira, que foi bem legal. Eles têm a ligação da música
brasileira com o jazz americano. Pude gravar com a Maria Bethânia. Pude
fazer coisas muito interessantes como músico. Mas tenho cada vez menos
participado de projetos dos outros e cada vez mais me voltado para coisas
mais pessoais. Passei pela escola que todo o músico tem de passar. Você toca
em baile, aniversário de cachorro, enterro de boneca, batizado, e gosto de
fazer gravação, estúdio e tudo o mais. Mas não faço isso muito bem, não.
Porque tenho uma visão muito própria de como algumas coisas têm de ser
feitas, e quando empaco com alguma coisa viro o pior músico do mundo. Estou
começando a fazer coisas mais minhas.
Seu irmão também é músico.
Sim, o Louis Marcel, de 25 anos, é guitarrista. Eu tinha uma meia-irmã por
parte de mãe, chamada Célia, que era 11 anos mais velha do que eu. O pai
dela é um grande percussionista chamado Jorge Arena, que trabalhou com mais
da metade dos artistas brasileiros, com Edu Lobo, Martinho da Vila. A música
realmente é um assunto de família. Meu avô, pai da minha mãe, também era
músico. É inclusive engraçado, porque o meu pai gravou com o meu avô antes
de conhecer a minha mãe.
Você tinha 22 anos quando seu pai morreu, em 2000. Ele faz muita falta?
Faz falta até hoje. Nós não morávamos mais juntos, mas sempre falta alguma
coisa para perguntar, alguma dúvida para tirar. Mas ele está sempre comigo.
Não tem um dia em que não fale com ele ou que não sinta que ele esteja por
perto, tomando conta. Ou em sonho. Ele se foi, mas está aí.
Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora
para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre
Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27
personalidades européias.
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