Revista Época, Edição 490 de 08.10.2007
Fonte:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG79498-6006-490,00.html
MENTE ABERTA
Clareando Clara
Vagner Fernandes lança biografia que traz à tona histórias da mineira mais
popular do samba, cujas canções continuam no imaginário popular
brasileiro.Em entrevista a ÉPOCA, o autor conta sobre sua ligação com a
personagem e reclamou da censura aos biógrafos no país
Laila Abou Mahmoud
Ele tinha doze anos quando viu a mãe ir ao enterro de Clara Nunes na quadra
da Portela. Ouviu um monte de boatos sobre qual teria sido a razão de sua
morte. Sabia quem ela era: aos nove anos, havia assistido a um show ao vivo.
Já na infância, seu repertório musical era composto pela nata do samba, como
Candeia, Monarco e Roberto Ribeiro. E o tio, um dos diretores de harmonia da
Portela, foi uma das principais referências.
Hoje, 24 anos depois, Vagner Fernandes, além de fã, tornou-se o primeiro
biógrafo da cantora com Clara Nunes, guerreira da utopia. Durante quatro
anos, ele bancou com recursos próprios a pesquisa sobre a vida da mineira
guerreira filha de Ogum com Iansã. Foram 300 depoimentos em 400 horas de
gravação e muitas histórias inéditas.
Algumas delas surpreenderam o próprio biógrafo, como a de que Clara morou
com dois ídolos da Jovem Guarda, Carlos Imperial e Eduardo Araújo, na mesma
época do escândalo em que eles se envolveram com garotas menores de idade.
Mas isso é só uma pequena parte da vida de Clara Francisca Gonçalves,
contada quase sempre em ordem cronológica por Fernandes. Logo no começo da
adolescência, o irmão da cantora, que então trabalhava em uma fábrica de
tecidos, matou seu namorado com o objetivo de manter a reputação da irmã. Em
Cedro, pequeno distrito de Paraopeba, hoje Caetanópolis, era difamação grave
ter relações sexuais antes do casamento. Outro trauma, já na vida adulta,
foi quando, seu grande sonho de ser mãe ficava cada vez mais distante a cada
aborto. Foram três, até que Clara fosse obrigada a retirar o útero, em 1979.
O livro retrata desde a vergonha quase infantil de Clara por não ter
freqüentado mais que a quarta série do primário - a cantora largou os
estudos para trabalhar em uma fábrica e mentia que fazia o curso normal,
para professora - até os detalhes de sua vaidade. Sua obstinação pela beleza
a fez enfrentar uma cirurgia para retirar varizes. Foi durante esse
procedimento que, devido a uma reação alérgica à anestesia geral, morreu, em
2 de abril de 1983. O autor dedica o último capítulo inteiro a esmiuçar a
cirurgia e derrubar todos os boatos relacionados à fatalidade. Os
desentendimentos com Beth Carvalho e Elis Regina também foram retratados.
Mas, como Fernandes se assume como um fã-biógrafo, algumas polêmicas ficaram
de fora do livro.
Na obra, predomina uma Clara alegre e generosa. Boa parte da biografia
também é dedicada à cantora, imortalizada por seus sambas. Além de forró
(confira vídeo para Feira de Mangaio), bolero e samba-canção faziam parte de
seu repertório no início da carreira. Mas foi o samba que a alçou às paradas
de sucesso. O disco Brasileiro, profissão esperança, ao lado de Paulo
Gracindo, atingiu a marca das 75 mil cópias vendidas e ultrapassou Bethânia,
Gal e Elis.
Com Claridade, seu oitavo disco, ela bateu o recorde de vendagem feminina
com músicas como O mar serenou, de Candeia, e A deusa dos Orixás, de
Romildo e Toninho. O sucesso continua até hoje. Afinal, quem não conhece os
versos O mar serenou quando ela pisou na areia/quem samba na beira do mar é
sereia? Foi nesse mesmo período que ela foi chamada para puxar o
samba-enredo da Portela, ao lado de Silvinho do Pandeiro e David Correira.
O álbum de fotos da biografia faz jus à beleza da cantora. Pelas imagens, é
possível passear por três décadas de MPB, de moda e da vida da cantora
(confira a galeria preparada por ÉPOCA no topo da página). Obra de
apaixonado, essa biografia é uma bela maneira de entender um país e sua
produção artística num período recente de nossa história. Depois de quatro
anos de pesquisa, Vagner só quer comemorar o lançamento. O lugar não poderia
ser outro: a quadra da Portela, que fica na rua Clara Nunes, no Rio de
Janeiro, durante a tradicional feijoada da Velha Guarda.
Leia a seguir a entrevista de Vagner Fernandes a ÉPOCA:
ÉPOCA - Como você decidiu fazer Clara Nunes, guerreira da utopia?
Vagner Fernandes - Desde pequeno eu tinha um certo fascínio pela personagem
Clara Nunes. Da infância, guardo lembranças daquela mulher linda, que vestia
roupas brancas que remetiam à umbanda e ao candomblé. Além disso, meu avô,
minha mãe e meu tio eram pessoas muito ligadas ao universo do samba. Meu avô
sempre ouviu muito Nelson Cavaquinho, Jamelão, Guilherme de Brito. Minha mãe
e meu tio eram meio que ratos do samba do Rio de Janeiro e meu tio era um
dos diretores de harmonia da Portela. Um dia, depois de insistir muito, eles
me levaram à quadra e vi Clara cantando no palanque. Eu tinha nove anos, foi
em 1981. E aquela imagem acabou ficando no meu imaginário. Eu adorava os
discos da Clara, de todas as fases dela, todos lá em casa colecionavam,
assim como de outros artistas do samba como Candeia, Monarco, Roberto
Ribeiro. Comecei a redigir o projeto há quatro anos.
ÉPOCA - Por que o subtítulo guerreira da utopia?
Fernandes - É uma metáfora. A utopia é colocada no título do livro não como
algo distante, mas como algo concreto, passível de realização. Todos nós
somos sonhadores, em graus diferentes, todos somos utópicos. E Clara não era
diferente. Mas ela tinha uma crença no ofício. Não só nele, mas nos amigos,
no amor e no seu canto como instrumento de conciliação. Na sua arte como
veículo de transformação social. Ela via o trabalho como algo capaz de
transformar.
ÉPOCA - Como foi sua pesquisa para escrever o livro?
Fernandes - Faço questão de enfatizar: essa história da Clara não poderia
ser contada sem os depoimentos das pessoas. Muita gente já morreu, mas
muitos estão vivos. E todos eles foram muito solícitos em me dar não só um
depoimento, mas vários. Não me lembro de quantas vezes falei com o Paulo
(César Pinheiro). No total foram 300 depoimentos, 400 horas de gravação.
ÉPOCA - Você fala que Clara era uma pessoa muito alegre na vida pública, mas
que teve muitos traumas na vida particular. Isso o surpreendeu?
Fernandes - Sim, me surpreendi. Ela era, de fato, alegre, mas acho que a
função de um biógrafo é trazer à tona a dimensão humana do personagem. Acho
que ela cultivava essa alegria porque não gostava de fazer dos problemas um
obstáculo na sua vida. Ela superava os momentos de tristeza com trabalho.
ÉPOCA - Qual episódio da vida dela foi mais curioso?
Fernandes - O de que ela dividiu apartamento com o compositor e apresentador
de TV Carlos Imperial. Cheguei a duvidar e fui buscar a foto. Olhei as
imagens e bati com as informações dos depoimentos. Foi um trabalho
artesanal. O grande barato de fazer uma biografia é esse: meu interesse
aumentava na medida em que eu ia descobrindo cada vez mais fatos reveladores
mais interessantes a respeito do personagem.
ÉPOCA - Você é fã confesso da cantora. Teve medo de esse lado atrapalhar na
biografia?
Fernandes - Sempre coloco o seguinte: esse foi o trabalho que eu pude fazer.
Eu tive rigor, mas isso não impede que outras pessoas escrevam outras
biografias sobre Clara. Pode ser que tenham outras pessoas com outras
histórias e episódios tão importantes quanto esses que narro no livro, e que
estejam à altura também de uma biografia. Quem ganha, na verdade, somos nós,
que estamos órfãos do resgate da música brasileira e ainda temos que
agüentar a indústria de processos contra biógrafos.
ÉPOCA - O que acha desse tipo de atitude por parte de artistas e familiares?
Fernandes - Isso é absolutamente terrível. Eu fico perplexo quando vejo um
historiador como Paulo César Araújo ser cerceado na sua liberdade de
expressão porque enfrentou o Roberto Carlos. Que histórias são essas que
pertencem ao Roberto e às famílias? A história é um processo dinâmico que
não pertence a ninguém.
ÉPOCA - Você esmiuçou bem o episódio da cirurgia que vitimou Clara Nunes.
Por quê?
Fernandes - Porque eu tinha que saber o que levou Clara à morte. E eu não
consegui, na verdade, saber a substância - e ninguém vai saber - que
ocasionou a reação alérgica. As pessoas diziam que a Clara tinha ido fazer
um aborto, uma inseminação artificial. Como isso seria possível se ela tinha
sofrido uma histerectomia em 1979 e não tinha mais útero? Minha mãe foi no
enterro dela na Portela e as versões surgiam sem fundamentação. Pedi ao
médico que solicitasse o desarquivamento do processo após 25 anos e ele
falou. Ele disse que estava feliz de falar com alguém de forma séria sobre o
assunto.
ÉPOCA - A Clara não foi só cantora de samba. Você destaca, no livro, que ela
foi uma intérprete de vários ritmos. Mas sua carreira só decolou quando ela
se dedicou ao samba. Na sua opinião, por que isso aconteceu?
Fernandes - Acho que, sobretudo, porque a Clara cantava com uma força cênica
tão absurda que chegava às pessoas de uma forma arrebatadora. Não basta você
ter uma boa voz. Você tem que cantar aquilo como se fosse algo verdadeiro.
Clara tinha isso. Ela acreditava naquilo que cantava.
ÉPOCA - Certa vez você disse que achava a Marisa Monte fundamental para o
resgate da Clara. Por quê?
Fernandes - A Marisa faz a mesma coisa que a Clara fazia e faria se
estivesse viva, que é dar dignidade não só a essas à Velha Guarda da Portela
e aos músicos mais velhos, mas ao gênero samba, que era considerado um
gênero primitivo, tribal. Tudo começou no Brasil com o samba. Mas se
esquecem disso.
ÉPOCA - Como está a historiografia da música popular brasileira hoje?
Fernandes - Terrível. A gente tem muita dificuldade de resgatar a história
da música brasileira porque inexistem livros. Existem boas coisas escritas
por Sérgio Cabral, como a biografia da Nara Leão, pelo Ruy Castro, pelo
Fernando Morais. Achei um livro muito bom do João Batista Vargem chamado
Candeia, luz da inspiração. Um livro fora de catálogo que é um primor. Tem
um outro livro chamado Natal, o homem de um braço só, escrito pelo Irã
Araújo, mas não-disponível no mercado, só em sebo. A história das noitadas
de samba do Teatro Opinião, eu não teria como contar sem falar com Jorge
Coutinho ou com o pessoal do Centro Técnico AudioVisual (CTAV), que têm esse
registro em vídeo. Há muita coisa ainda a ser explorada. A era dos Festivais
é pouquíssimo documentada.
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