Ricardo, como você mesmo disse, não é fácil analisar esse processo, e sua análise foi um pouco simplista.

Afirmar que se encontrava menos coisa ruim antigamente é um pouco injusto, depois que tudo já foi devidamente peneirado pelo tempo. O que era lixo ficou esquecido, só restou o que de melhor se produziu na época.

Por outro lado, o espírito capitalista e o poder das indústria fonográficas tomou proporções muito maiores com o passar do tempo, e nesse processo, promove-se muita coisa descartável e de qualidade duvidosa. As décadas de 80 e 90 parecem ser o ponto de saturação desse processo. O maior acesso a meios de comunicação, principalmente com o avanço da internet, além da expansão da pirataria, devido ao implacável processo de evolução tecnológica, mostram claramente que o sistema de mercado empregado pelas grandes gravadoras está obsoleto.

Com tantas variáveis, fica difícil analisar qual o peso de cada uma nesse processo evolutivo. Mas acredito que daqui a alguns anos (30, 40, 50, ..., sei lá), possamos ter outra impressão das duas últimas décadas. O natural é que se olhe pra trás dando importância devida a quem realmente produziu algo com substância. Ninguém vai se lembrar dos pagodes mauriçolas, nem dos sertanojos, nem dos peudo-roquenrôus. Desses, só sobrarão os bons. Não se engane, tem qualidade no meio dessas tranqueiras sim, talvez não agrade os gostos de uns e outros, mas esses movimentos de "enlatamento musical" promovido pelas gravadoras sempre surgem nas costas do sucesso de uma minoria de bons artistas.

Acredito que estamos no meio de um processo interessante de quebra de paradimas em relação à divulgação cultural. Vejo cada vez mais espaço para a boa música e estão surgindo, cada vez mais, novos caminhos para os músicos independentes. Vamos ver se o nosso querido presidente não faz cagada com as concessões da TV digital. Isso pode representar uma revolução na comunicação do país. Vamos torcer.

Aquele abraço,
Gabriel Gomes




Ricardo Spala escreveu:
Não é nada fácil analisar esse processo.  Quando alguém aponta, defendendo ou 
atacando, para as transformações mercadológicas, geralmente, o faz de maneira 
impressionista, e estamos falando de algo muito complicado.
Por exemplo, como explicar que a qualidade das canções na época do rádio, 
primeira forte introdução no mercado fono brasileiro – iniciando o 
condicionamento: processo de produção em série, venda de sambas, pressa de 
lançamentos semestrais e anuais, pressão de gravadoras etc  – ,tinham qualidade 
musical superior aos processos posteriores de massificação?
Você encontrava sambas ruins? Claro que sim, mas a média era infinitamente 
menor do que no decorrer dos tempos. Isto é, ainda com a profissionalização da 
música, e inserção pesada na indústria fonográfica,  tínhamos um resultado 
interessante na criação.
Isso significa que aquele tempo era bom e hoje só se faz porcaria, que o que é 
velho é sempre melhor que o novo, que o que está morto tem mais valor do que o 
que está vivo?
Não, não significa. Voltemos, tudo é muito mais complicado do que se pensa.
Todas as transformações do próprio capitalismo, que tem sobrevivência de 
domínio alta e velozmente mutável, explicam alguns acontecimentos.
Emprestemos parte da polêmica corrente na lista. Se compararmos dois momentos 
de produção em série, dentre tantos outros exemplos possíveis, observaremos um 
fato interessante.  Vejamos,  época de rádio e os anos oitenta.
Primeiramente, são dois momentos históricos completamente diferentes. Na época 
do rádio, e todos aqui já sabem, a febre nacionalista, instrumentalizando o 
rádio, principal veículo da época, investiu pesado nos acontecimentos musicais 
da época, que tiveram conseqüências aqui exaustivamente discutidas.
O Cacique de Ramos, representação mais expressiva dos anos 80, era um movimento 
sem populismo, era a música feita pelo povo, sem manipulação governamental, 
ganhando espaço na indústria cultural, momento em que a música internacional 
estava  avançando seus tentáculos na   juventude brasileira.
Chegando lá, mais de quatro décadas separando os acontecimentos. Por que 
encontramos qualidade poética e musical em maior quantidade no acontecimento 
mais antigo?
Isto é, encontramos coisas boas na indústria fonográfica que envolveu a década 
de oitenta? Claro que sim, mas encontramos coisas de baixa qualidade em escala 
considerável. E na época do rádio, encontramos coisas ruins? Óbvio, mais se 
aproximava muito mais da exceção do que da regra.
Por quê? Acredito que a música sofreu interferências diversas, o capitalismo se adapta, e sempre quando está um pouco mais distante das origens – e evoluindo ou mudando sobre solo capitalista – tende a se tornar mais plástica.
Isso não valida ou invalida o indivíduo, não imputa responsabilidade nos 
movimentos, é apenas reflexo do desenvolvimento da estrutura capitalista.
Escolas?  Bora lá, o rato-cupim-capital praticamente roeu as estruturas todas. 
Basta olhar a organização dessas agremiações. Antigamente, a maioria dos 
diretores eram grandes compositores. E os que não o eram – Chico Porrão, Natal, 
Massú  – tinham outro tipo de relação com o povo.
 Em suma, o gigantismo teve um preço muito alto. É nítido que não se tem 
escolha, é um processo.
Grande parte da música brasileira saiu diretamente ou indiretamente das 
agremiações, hoje é só frangalhos.
O vínculo com a comunidade, e não adianta dizer q núcleo tal reserva x por cento das fantasias para o povo etc, mudou totalmente. Claro que ainda existe um vínculo, mas nem de longe parece ser o que era. Musicalmente, acho que não tem nem o que discutir. Samba de Terreiro, nem precisamos falar nada. O documentário que Paulinho visitou algumas agremiações, deve ser de 1990, demonstra bem o que o capitalismo faz com culturas que crescem no quintal da sua privada, isto é, propriedade privada.
Árvore que esqueceu a raiz, de Candeia e Isnard, é um livro imprescindível para 
entender o processo de transformação das escolas. Livro contém propostas 
interessantes para uma retomada.
A boa fase que o samba vive hoje, se não estiver acompanhada de um início de 
descortinamento,  e de uma marcha continental, infelizmente, será apenas mais 
uma fase.

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