MPB Pra fugir da saudade Paulinho da Viola revisita a carreira no Acústico MTV, que também traz músicas inéditas, 11 anos depois de Bebadosamba
Teresa Albuquerque Da equipe do Correio Há artistas que trabalham o dia inteiro, vivem em função da música. Paulinho da Viola não. Gosta de passar o tempo na marcenaria que tem em casa, colando cadeira, fazendo móveis, criando objeto para afinar tampo de cavaquinho. Tirá-lo dali não é fácil. Muito menos para colocá-lo diante de uma câmera. Izabel Jaguaribe e Zuenir Ventura conseguiram e, com uma boa conversa, fizeram um belo filme, Meu tempo é hoje. Passados quatro anos, um pouco menos envergonhado, aqui está ele, fora da toca, lançando seu Acústico MTV. Daqui a pouco, serei quase um exibido, brinca o cantor e compositor. A verdade é que não gosto muito de me ver. Às vezes, nem de ouvir. Fico olhando, mas não muito, sabe? De conversar ele gosta. Delicado, sorridente, conta com graça a primeira reunião que teve com o pessoal da MTV sobre o projeto. Foi tudo tão prazeroso , diz, com aquele jeito manso, sobre a proposta que o convenceu a deixar de lado a marcenaria e gravar músicas inéditas, 11 anos depois de Bebadosamba, além de revisitar os clássicos das quatro décadas de carreira. Eu já tinha sido procurado por outras gravadoras, mas vinha protelando. Falava, falava, pegava o contrato, examinava e dizia: Ah, vou esperar mais um pouco. Aí aparecia um projeto, como o Sinal aberto, que fiz com Toquinho em 1999, depois veio o filme Antes do convite da emissora, a idéia dele era lançar o registro do show que fez no Teatro Fecap, em São Paulo, no ano passado, com sambas pouco conhecidos e alguns inéditos. Pois é, o Acústico atropelou esse, ri. Gravado nos dias 24 e 25 de julho, em São Paulo, depois de apenas cinco dias de ensaio, o Acústico MTV chega às lojas na segunda-feira, um dia depois da exibição do especial na MTV. O CD e o DVD Paulinho (ou)viu no estúdio e, surpreendentemente, achou que ficaram acima de sua expectativa. Nunca o vi gostar de um trabalho tão rapidamente, sem fazer pelo menos umas duas dezenas de considerações, diz João Rabello, o filho violonista que o acompanha na banda há três anos. Não fazia sentido mesmo. O disco é lindo. Inéditas As 21 faixas do DVD (no CD, são 15) incluem os grandes sucessos (Timoneiro, Coração leviano, Para um amor em Recife, Pecado capital e Sinal fechado estão na lista e nenhum deles soa como mais do mesmo), três pouco conhecidas Foi demais e Amor é assim, lançadas no LP Zumbido (1979), Só o tempo, do disco A toda hora rola uma estória (1982) e as inéditas Bela manhã, Vai dizer ao vento, Talismã e Ainda assim. Talismã é uma parceria com Arnaldo Antunes e Marisa Monte que surgiu na base da brincadeira, no dia em que Paulinho da Viola saiu da casa da cantora e deixou lá uma melodia para o Arnaldo colocar letra. Provocação aceita, a música voltou prontinha pouco depois. História bem diferente da de Ainda assim, cuja letra Paulinho levou 11 anos para entregar ao parceiro Eduardo Gudin. Com ele, as coisas são assim mesmo, levam seu tempo. Demoro a escrever, não sou letrista profissional, justifica. Sem pressa, ele também compôs Vai dizer ao vento (Que a dor da desilusão passou/ E saiba que não há tormento/ tão intenso/ Como aquele que você me provocou/ Saudade, tudo tem seu tempo). Eu vinha mexendo nela há alguns anos, conta. Tenho umas três ou quatro melodias desse samba. Quando fiz a primeira, registrei num gravadorzinho. Depois ouvi e achei muito antigo. Legal, mas triste, e falei ah, não posso mais fazer samba assim. Mudei a melodia e ficou mais antigo ainda (risos). Aí fui fazer outras coisas e deixei ele lá guardado. Quando retomei, fiquei nessa briga, até a hora que vi que ficaria do jeito que estava. Mas, até o último dia de ensaio, às vezes eu cantava outra melodia. As meninas do coro riam: Não é assim, não! Agora vou ter de aprender, né? Perfeccionismo Paulinho é assim, gosta de ficar burilando os sambas, modificando a forma de cantar. Nervos de aço, o único pedido da MTV para o repertório, ele acabou fazendo de maneira diferente, mas por outro motivo. Uns anos atrás, em Porto Alegre, conheceu um parceiro de Lupicínio Rodrigues, Rubens Santos, e soube que tinha gravado a música (em 1973) não como era originalmente. Coisas de melodia e harmonia, explica. Admito que não tive o cuidado de saber se aquilo havia sido feito de outra forma. Achei que estava certo porque sempre ouvi gente cantando a música daquele jeito. No mesmo dia em que Rubens me mostrou como era, contei a história no show, em praça pública, e cantei da forma certa. No Acústico, também. Inclusive com a frase ao lado de um tipo qualquer no lugar de nos braços de um outro qualquer. No bom making of do DVD, Paulinho conta que queria se tornar violonista porque gostava de tocar, de cantar, de estar na farra. Mas não se imaginava um compositor. Não mesmo? É verdade. Não ficava pensando em nada. Custei a entender que tinha de fazer uma opção. Mesmo depois dos festivais, eu ainda estava tateando. Fazia um ou outro show, sempre com um grupo, ou tocando com alguém, não era uma coisa minha. Vivia tudo sem maiores compromissos. Depois de ficar conhecido com Sinal fechado e Foi um rio que passou em minha vida, eu acordei, né? Peraí, preciso de um conjunto para me acompanhar! E foi então que começou a formar um grupo, ter empresário, essas coisas. Mas nada muito profissional. Naquela época, havia dificuldade para tudo, observa. Quando Elizeth Cardoso gravou um samba meu e do Candeia (Minhas madrugadas), em 1965, fui admitido como estagiário numa sociedade de direitos autorais. Tenho essa carteira até hoje. Porque se você não fosse nem estagiário, não recebia direito nenhum. Era uma luta. Fico imaginando aqueles que vieram antes. Meu pai tocava em circo, trabalhou na Justiça por muito tempo. Jacob do Bandolim também. Ele se considerava amador, dizia que sua profissão era escrivão. E eu achava que isso era o que era. Tudo o que ele fez, de lá para cá, foi guiado pela emoção, pela tentativa de fazer samba como seus ídolos. E ainda hoje não acredita que tenha composto nada que se aproximasse deles. Claro que não, afirma. Ouço certos sambas que me são muito caros, muito especiais. Graças a Deus, não tenho inveja. Se bem que é pretensão minha dizer isso, porque todos nós, até sem saber, às vezes invejamos algumas coisas. Mas faço um esforço enorme para só admirar e amar (risos), torcer pelo outro, para que aquilo dê sempre certo. http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_72.htm De:[EMAIL PROTECTED] Para:[email protected] Cópia: Data:Thu, 11 Oct 2007 19:11:34 -0300 Assunto:[S-C] FolhaDeSP/Paulinho da Viola: Matérias sobre o DVD e o CD Acústivo MTV > São Paulo, quinta-feira, 11 de outubro de 2007 - FOLHA DE SÃO PAULO ILUSTRADA > > Paulinho traz inéditas após 11 anos > > DVD e "Acústico", da MTV, chegam nesta semana; compositor aceitou contrato > com a Day1 para gerenciamento de shows > > Músico, que diz demorar até "para fazer bilhete", afirma que acordo dará > tempo para descansar e criar músicas; > programa vai ao ar domingo > > LUIZ FERNANDO VIANNA > DA SUCURSAL DO RIO > > O primeiro DVD da carreira de Paulinho da Viola, que está sendo lançado nesta > semana, já cumpriu uma importante > função: tornou públicos três sambas inéditos do compositor. > Eles entrariam no CD de novidades que os fãs de Paulinho já esperam há 11 > anos, desde "Bebadosamba", mas foram > escalados como atrativos do "Acústico MTV" que ele gravou em julho, em São > Paulo. > Em "Talismã", com letra de Arnaldo Antunes e Marisa Monte, Paulinho não podia > mexer muito, mas "Bela Manhã" e > "Vai Dizer ao Vento" passaram por experimentações até as vésperas da gravação > do especial, que vai ao ar pela > primeira vez no próximo domingo, às 21h. > "Essa coisa de ficar mexendo é horrível. Isso tem que acabar. Por isso não > gosto muito de ficar compondo. Se eu > fizer um bilhete para você, levo dois dias. Tenho inveja das pessoas que > escrevem com simplicidade, > rapidamente. Eu rasgo, jogo fora. Composição é algo muito chato", diz ele, a > um mês de completar 65 anos e já > compondo há 44. > > Tempo para descansar > > O DVD chega num momento em que Paulinho tenta organizar seu caos criativo. > Depois de 20 anos usando uma > estrutura familiar para empresariar sua carreira, ele resolveu aceitar a > proposta da Sony BMG e ser contratado > da Day1, nome criado pela multinacional para gerenciar os shows de artistas. > Paulinho é um dos cinco -e o de maior importância- a topar esse acordo, que > vem sendo questionado por outros > cantores e empresários como uma intromissão da gravadora numa área que não é > a sua. > "[O acordo] vai me dar tempo para fazer outras coisas, para descansar um > pouco, fazer música", explica ele, que > ficou com os direitos integrais sobre suas músicas, mas que terá todos os > shows a partir de agora (o primeiro é > no Canecão, no Rio, em 6 de dezembro) negociados pela Day1 e o próximo disco > lançado pela Sony BMG. Os valores > e prazos do contrato não foram divulgados. > "Os contratos têm uma data, mas a gente resolve", diz, sem querer anunciar > quando sairá o ansiado disco de > inéditas. Ele já foi cobrado várias vezes, mas explica que outros projetos > surgiram na frente, como a série de > shows e o CD com Toquinho (1999) e o documentário -que também gerou um CD- > "Meu Tempo É Hoje" (2003). > "O tempo anda passando muito depressa", ressalta, à sua maneira, lembrando o > medo que teve de fazer um disco > novo no final dos anos 90 por causa dos debates sobre pirataria e fim do CD. > "Não sabia o que ia fazer diante > desse quadro. Deixei a poeira assentar", conta, também à sua maneira. > Foi convencido pela MTV e pela gravadora a fazer o "Acústico". Aproveitou > para recuperar músicas que não > fizeram sucesso ("Amor É Assim", "Foi Demais"), mudar o arranjo de algumas > ("Tudo se Transformou", sobretudo) e > cantar a letra certa de "Nervos de Aço", que é diferente da que ele gravou em > 1973. Mas, para um perfeccionista > como ele, nada será perfeito. > "Às vezes eu estou dirigindo e vem uma melodia inteira na cabeça. Quando eu > vou trabalhar para fixar aquela > melodia, já não é a mesma coisa. Esse é o problema. Invariavelmente, acho que > ficou pior. Eu fico com uma > raiva... Fico querendo aquela primeira", conta. > > http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1110200716.htm > > > > Crítica/"Acústico MTV - Paulinho da Viola" > > Compositor se recria e canta sucessos sem que pareçam mais do mesmo > > DA SUCURSAL DO RIO > > O fato de gravar um "Acústico" pouco acrescenta em si à obra de Paulinho da > Viola, já que seu trabalho é > majoritariamente acústico. Com exceção do baixolão de Dininho e das cordas, > pouca coisa muda na sonoridade já > conhecida do artista. > Mas o incrível de Paulinho é exatamente isso: a capacidade de recriar músicas > suas já bastante cantadas sem que > elas pareçam mais do mesmo. Basta ouvir no DVD/CD "Onde a Dor Não Tem Razão", > "Para um Amor no Recife" e "Sinal > Fechado" -para citar só três- e perceber como a beleza, se bem tratada, não > envelhece. > A única mudança radical é em "Tudo se Transformou", que ganha andamento bem > mais lento, o que torna ainda mais > sofridos seus versos. Como costuma fazer com sambas de autores que admira, > Paulinho aproveitou o projeto para > refazer dois belos sambas seus que estavam quase esquecidos no disco > "Zumbido" (1979): "Amor É Assim", rica > construção em tom maior, e "Foi Demais", parceria com Mauro Duarte sobre o > amor. > Das novas, "Vai Dizer ao Vento" é a que chama mais atenção (veja letra ao > lado), com todos os requisitos para > virar mais uma peça de resistência do cantor. "Bela Manhã" não soa como um > Paulinho nota dez, mas é um samba > com a marca de Paulinho, o que não é pouco. E "Talismã", de contagiante > melodia, tem letra de Arnaldo Antunes e > Marisa Monte misturando amor e fé -deve ser uma das poucas composições de > Paulinho com a palavra "orixá". > Por muito conhecidas, ficaram fora do CD "Dança da Solidão", "Argumento" e > "Foi um Rio que Passou em Minha > Vida". Mas elas estão firmes no DVD, que tem ótimo making of, em que Paulinho > conta histórias e explica > músicas. (LFV) > > ACÚSTICO MTV - PAULINHO DA VIOLA > Gravadora: Sony BMG > Quanto: R$ 35 (DVD) e R$ 25 (CD) > Avaliação: ótimo > > http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1110200717.htm > > > > _______________________________________________ > Para CANCELAR sua assinatura: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela > Para ASSINAR esta lista: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina > Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: > http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta > > E-mail classificado pelo Identificador de Spam Inteligente Terra. > Para alterar a categoria classificada, visite > http://mail.terra.com.br/cgi-bin/imail.cgi?+_u=sanab073&_l=1,1192140728.861837.23362.fomboni.hst.terra.com.br,9111,Des15,Des15 > _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
