Edição 466
O tempo dele é hoje
por Pedro Alexandre Sanches
Paulinho da Viola cria as primeiras canções inéditas em 11 anos, põe dois
filhos na banda e fala do desapego pelo disco
Autor de sambas belos e melancólicos como Dança da Solidão (1972), Sinal
Fechado (1969) e Na Linha do Mar (1973), Paulinho da Viola anda transbordando
alegria. É o que se pode notar no documentário que acompanha o DVD
recém-gravado para o modernoso projeto Acústico MTV, no qual histórias contadas
pelo artista de 64 anos levam os colegas músicos a sonoras e gostosas
gargalhadas.
O efeito se reproduz na entrevista que o sempre sério e compenetrado artista
concede à CartaCapital. As histórias soam engraçadas, mesmo que não sejam. E
ele exprime prazer especial em relembrar situações difíceis em que se meteu
pelo lado oculto da vida de um músico, quase sempre vivido longe dos olhos e
ouvidos da grande maioria do público. “A gente enfrenta de tudo, cara”, resume,
no rosto uma expressão entre desconsolada e divertida.
Um exemplo: “A primeira vez que toquei neste espaço (a entrevista se dá no
saguão do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo) foi uma das piores coisas que
aconteceram comigo. Uma das inúmeras. O show começou, aplausos, quem estava
sentado bebendo se virou para ver. Mas um homem ficou o tempo todo de costas
para mim. O tempo todo. É um direito dele, claro, vou dizer o quê?”
Admite que a indiferença do não-espectador o perturbou e desconcentrou, e conta
como fez para contornar a situação. “Teve uma hora que disse para mim: olha,
essa pessoa não existe (risos), é um fantasma que está aí, deve estar ouvindo,
curtindo, só não quer ver.” Outro caso: “Conheço uma pessoa de Campina Grande
(PB), o Silvestre, que trabalha numa grande indústria de couro.
Eu estava fazendo o Projeto Pixinguinha lá, e no meio do show uma gambiarra
quebrou e caiu em cima do público. Parei, pedi calma, tiraram uma pessoa que se
machucou. Anos depois o encontrei em Copacabana com a família, veio conversar
comigo, disse: ‘Era eu, quebrou meu nariz, tenho o maior orgulho disso!’”
(risos).
Leia toda a entrevista em CartaCapital
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