Para quem quer falar de samba!!! Extraído do Jornal O DIA (Online)

Fonte: http://odia.terra.com.br/carnaval/htm/geral_127620.asp




8/10/2007 20:59:00 

Memória da Folia: Manoel Bambambã da Portela X Chico Porrão da Mangueira 

Duelo poderia ser considerado a Luta do Século 


Luis Carlos Magalhães

Era o carnaval de 1941. Paulo Benjamin de Oliveira – o legendário Paulo da 
Portela – vivia os melhores dias de sua vida de sambista. Já no carnaval de 
1939 a Portela conseguira seu segundo título e Paulo fez de tudo naquele ano.

O enredo era o “O Teste ao Samba”, de sua autoria. O samba, também de sua 
autoria, era a narrativa de um professor tomando a tabuada de seus alunos. As 
alegorias, entre elas um quadro negro, também foram criadas por ele. As 
fantasias, representando crianças uniformizadas, concebidas por ele, inclusive 
os tecidos por ele escolhidos. Até o professor, que diplomava seus alunos, era 
ele próprio.

Pessoalmente compartilho da opinião de que aquele foi o primeiro momento de 
apresentação de um enredo com um samba a ele correspondente e que, ali, se 
ouvia pela primeira vez um samba enredo à semelhança do que ouvimos hoje. 

Quero dizer, pela primeira vez uma escola de samba reunia todos os requisitos, 
ou seja, apresentava um tema definido, com as alegorias a ele relativas, com 
fantasias dele representativas e um samba que contava, em suas primeira e 
segunda partes, o que a escola pretendia mostrar ao público naquele momento.

A Portela foi campeã e Paulo, mesmo antes do desfile, já desfilava seu imenso 
prestígio entre os sambistas de todas as escolas, entre jornalistas e entre o 
público que tanto o aplaudia e reverenciava. Venceu o concurso “o maior 
compositor de sambas dos morros do Rio de Janeiro. 

Foi eleito Cidadão Samba, depois Cidadão Momo acumulando formidável autoridade. 
De tantos compromissos, no ano de 1940 não conseguiu tempo e dedicação para 
evitar que o título fosse para a Mangueira. Nem por isso deixou de viver os 
dias de glória que se estendiam até a capital paulista.

Juntamente com seus amigos Cartola e Heitor dos Prazeres formou o conjunto 
Embaixada Carioca com prestigiosa participação em programas da rádio paulista. 
Naquele carnaval de 1941 Paulo e seus companheiros vieram direto de S. Paulo, 
de trem, para o desfile. 

Da Central caminharam para a Praça onze. Desfilaram na Mangueira de Cartola e 
na “De Mim Ninguém Se Lembra, de Heitor dos Prazeres que há muito deixara a 
escola de Osvaldo Cruz. Na hora do desfile da Portela, ao ver seus amigos 
barrados pelo valentão Bambambã, Paulo protestou com veemência e, em 
solidariedade a seus amigos, disse que sem eles não desfilaria. Para sua 
surpresa, e de todos, num gesto atrevido, Bambambã levantou a corda para que 
Paulo saísse.

Na verdade tudo não passava de uma velha arengacão de Bambambã com Heitor, 
briga antiga do tempo em que Heitor fora por ele expulso da Portela. Naquele 
carnaval foi o ajuste de contas entre eles e acabou sobrando pro Paulo , 
causando imenso mal estar entre os componentes e imensa contrariedade junto a 
Bambambã.

Naquele ano sem ele, mas estruturada por ele, a Portela conseguia seu terceiro 
título, com o enredo 10 anos de glórias, comemorando os dez desfiles da escola 
e os dez anos de Getúlio Vargas no poder. Foi só festa em Osvaldo Cruz e 
Madureira... mas Paulo era só tristeza, não podia acreditar no que estava 
acontecendo...

Dormiu naquela noite em casa de seu amigo Cartola que procurava consolá-lo 
juntamente com Carlos Cachaça. No auge de seu aborrecimento (como diria 
Monarco) Paulo compôs seu mais dolorido samba: O Meu Nome Já Caiu No 
Esquecimento. E vida que segue...

Convencido por Cartola e por Carlos Cachaça a voltar à Portela e tentar a paz, 
Paulo mais uma vez ouviu seus amigos e, por medida de precaução, foram para 
Osvaldo Cruz e se fizeram acompanhar por nada menos que Chico Porrão, o maior 
valentão da Mangueira de todos os tempos. Afinal, dali pra frente, tudo, e 
principalmente a reação de Bambambã, era absolutamente imprevisível.

Tudo poderia acontecer: paz ou mais guerra... o encontro com Bambambã seria 
inevitável. Quem viveu aqueles momentos pós-carnaval de 1941, ao imaginar o 
encontro dos maiores valentões da Portela e da Mangueira não hesitou em 
considerar que aquela seria a maior de todas as lutas : a verdadeira luta do 
século. Muito maior do que aquela do Cassius Clay (já Muhammad Ali) contra o 
poderosíssimo George Foreman, em 1974 no Zaire, quando o também legendário Ali 
recuperou o título de campeão perdido ao ter se negado a ir à guerra do 
Vietnan. É bem verdade que foi uma luta gloriosa, porém de proporções 
infinitamente inferiores àquela que se esperava nos arredores de Osvaldo Cruz e 
Madureira.

E tal como a de Itararé, aquela foi uma batalha que não houve. Alvaiade acabou 
intervindo e a luta não chegou a acontecer. O resto é historia... história do 
samba em seu capítulo mais trágico na vida de Paulo. Talvez o mais dramático da 
história da Portela e, quem sabe, de toda a história do samba. Afastado da 
escola que fundou e estruturou, viu de longe sua Portela alcançar a marca 
imbatível de sete títulos consecutivos, de 1941 a 1947.

No ano de 1949 Paulo morre. Aquele samba, o mais triste de todos, continua 
sendo cantado por aí em cada roda de samba da cidade. São sambistas portelenses 
que o reverenciam, mostrando pra ele que “o seu nome jamais cairá no 
esquecimento. Foi o maior enterro que o mundo do samba já viu...

Em tempo: O autor da coluna se baseou no livro 'Paulo da Portela, traço de 
união entre duas culturas', de Lígia Santos e Marília Barbosa



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