ótima matéria!
On 12/6/07, Sonia Palhares Marinho <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
>
>
> Extraído do Jornal O DIA (Online)
>
>
> Fonte: http://odia.terra.com.br/carnaval/memoria_folia.asp
>
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>
> Atenção sambistas de todo o Brasil: vai nascer o samba-enredo
>
>
>
> * Por Luis Carlos Magalhães
>
>
> Ainda em tempos de samba-enredo, vale dar uma esticada na conversa que
> começou lá com os sambas da Unidos da Tijuca de 1933 e 1936; a conversa do
> primeiro samba enredo, ou melhor, aquilo que chamamos "processo de
> construção do gênero samba-enredo".
>
> Como sabemos, o "enredo" vem lá dos desfiles dos Ranchos, ou seja, ali já
> existia a relação do tema com a música. A migração de lá para o samba estava
> por pouco, até mesmo porque a "primeira escola de samba", a Deixa Falar do
> Estácio, como vimos foi fundada em 1928 e já no primeiro desfile de 1932
> estava ausente, transformada que foi em Rancho denominado "Novel Rancho
> Estácio de Sá". Seu enredo foi "A primavera e a Revolução de outubro", seja
> lá isto o que for.
>
> Para trilhar essa trajetória que veio a dar nas obras primas que
> conhecemos (e nos 'bois-com-abobra' que também conhecemos),tomemos por base
> a já conhecida relação proposta por Hiran Araújo elencando aqueles seis
> sambas por ele considerados como "... esboços de samba de enredo...":
>
> 1) O mundo do samba, da Unidos da Tijuca de 1933, sobre o qual já nos
> referimos no artigo anterior.
>
> 2) Homenagem, da Mangueira, de Carlos Cachaça, do pré-carnaval de 1934 do
> Campo de Santana, igualmente referido do mesmo artigo.
>
> Nele o compositor descreve, a surpresa que teriam Castro Alves, Olavo
> Bilac e Gonçalves Dias que "... nunca pensaram de ouvir seus nomes nos
> sambas algum dia...". Curioso, ou melhor, curiosíssimo é que este samba
> originalmente não fora composto para descrever o enredo daquele ano que era
> "Uma Festa no Bonfim" (a Bahia, portanto). O carnaval era dirigido pelo
> lendário Massu. Houve alí uma saborosíssima inversão.
>
> E foi o próprio Carlos Cachaça quem contou para Marília Barbosa e Arthur
> Loureiro Filho para o livro 'Fala Mangueira'.
>
> "... [meu samba] é de 1933. Quem estava organizando tudo [em 1934] era o
> Pedro Palheta. O nome era Uma Segunda Feira no Bonfim; Em cima do carnaval o
> Pedro Palheta se aborreceu e foi embora, largando tudo nas mãos do Massu.
> Não havia tempo para elaborar outro enredo, e nós, que não sabíamos nada da
> Bahia, ficamos um bocado atrapalhados. (...)
>
> Ai o Cartola lembrou ao Massu que eu tinha um samba que falava de Castro
> Alves e, na falta de tempo para fazer outro, ia ficar aquele mesmo como
> samba principal. (...) e se tinha Castro Alves, a relação com o enredo, que
> era Bahia, estava feita". E mais, ainda segundo Carlos "...nós mandamos
> pintar uns quadros com os rostos dos poetas (Castro Alves, Olavo Bilac e
> Gonçalves Dias) citados na letra do samba e carregávamos como se fossem
> estandartes".
>
> Como vemos, este samba, com o qual a Mangueira reivindica a primazia do
> samba enredo, pode até não ter sido o primeiro a descrever o enredo, mas
> certamente foi o primeiro (ou único ?) enredo a ser referido, a ser
> "alegorizado" a partir de um samba já existente, e não o contrário, como nos
> sambas de hoje. Pode ? Só não pode é perguntar o quê Olavo Bilac
> (carioquíssimo) e Gonçalves Dias (maranhense) estavam fazendo ali naquele
> enredo tão genuinamente baiano.
>
> 3) Natureza Bela, samba da Unidos da Tijuca, campeã de 1936, já referido
> no artigo anterior, e que fazia alusão ao tema "Sonhos Delirantes".
>
> 4) Asas do Brasil. Em 1938 já existiam escolas de samba no Morro do
> Salgueiro, só não haviam sido fundidas para formar o "Acadêmicos. Mas já
> andava por lá um dos maiores nomes da história das escolas de samba: Antenor
> Gargalhada, eleito cidadão samba de 1937. Sua escola de então era a "Azul e
> Branco" que "veio" com o enredo "Asas para o Brasil". Em seu samba destacava
> a figura de Santos Dumont. Cantava "... o orgulho desta terra, berço de
> Santos Dumont, nasceu e criou, viveu, morreu, Santos Dumont, Pai da
> Aviação".
>
> O salgueirense Haroldo Costa é pura convicção: "...este, sem dúvida, um
> dos primeiros sambas de escola obedecendo a um enredo,forma que foi pouco a
> pouco sendo desenvolvida e adotada, aparecendo então o gênero, hoje
> consagrado, de samba-enredo".
>
> Curioso é que naquele ano de 1938, não houve julgamento. A chuva foi
> muita...os sambistas foram ao carnaval e desfilaram até de manhã. Já a
> comissão julgadora...
>
> 5) Teste ao samba, da Portela de 1939. Como este é o samba que, na minha
> modestíssima opinião, tem mais "ingredientes" daquilo que hoje consideramos
> samba-enredo, calo-me e dou a palavra a Sérgio Cabral: "O desfile de 1939
> voltou à Praça Onze, vencendo a resistência do Delegado Dulcidio Gonçalves
> que queria levar todos os desfiles das 'pequenas' sociedades para o Campo de
> São Cristóvão. Conseguiu tirar da Av. Rio Branco as apresentações dos
> Ranchos e dos Blocos (...).
>
> E a grande sensação do desfile das escolas foi a Portela. Pela primeira
> vez (grifo meu) uma escola de samba (com exceção da ala das baianas e dos
> mestre-salas e porta-bandeiras) apresentou-se com as fantasias inteiramente
> voltadas para o seu enredo. Até então, fosse qual fosse o enredo, não
> poderiam faltar os sambistas ostentando as cabeleiras brancas de algodão e
> as fantasias de nobres dos tempos imperiais.
>
> Naquele ano, porém, Paulo da Portela criou o enredo 'teste ao samba' e fez
> a escola inteira exibir-se com uniforme de estudante, enquanto fazia o papel
> de professor. O samba, também composto por ele [vide artigo de 08/10/07],
> tinha um pouco daquele non sense das letras das marchinhas carnavalescas de
> Lamartine Babo e, ao mesmo tempo, não deixava de ser um samba enredo, pois a
> letra tinha tudo a ver com o tema apresentado pela escola."
>
> E mais um pouco do bom e 'velho' Cabral para deixá-lo reverenciar seu
> ídolo: "...Foi uma sensação, Paulo entregava um diploma e cada integrante da
> escola. O repórter do jornal O RADICAL assinalou em sua matéria sobre o
> desfile: 'Um fato despertou a nossa curiosidade: foi o interesse que todo o
> público acotovelado na Praça Onze demonstrou em torno da figura de Paulo da
> Portela.
>
> Parecia que grande parte daquela multidão lá estava somente para aplaudir
> o famoso sambista, a quem não regatiava as melhores demonstrações de
> simpatia. Pode-se dizer assim que, depois da Portela e da Mangueira, Paulo
> da Portela foi a grande atração que a Praça Onze apresentou!'
>
>
> 6) Conferência de São Francisco – Prazer da Serrinha / 1946. Samba de
> Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. O samba trata da tão importante
> conferência realizada em 1945, ao final da II Guerra Mundial, para a criação
> da ONU, com participação do Brasil. Nada mais oportuno naquele "carnaval da
> vitória", o primeiro depois do maior conflito mundial. O samba discorre
> sobre o restabelecimento de paz mundial e enaltece o Brasil como tendo
> '...interferência nas grandes conferências da Paz Universal'.
>
> Um samba que acabou fazendo história. Acabou por não ser cantado naquele
> carnaval, substituído por outro (Alto da Colina), levando a escola para um
> inaceitável décimo primeiro lugar, originando a "rebelião" dos sambistas
> dando inicio à fundação da nova escola: O Império Serrano. Mas isto é
> conversa pra outro dia.
>
> Aquele momento, que marcava o novo rumo do carnaval da Serrinha, marcava
> também a encruzilhada, a nova direção dos sambas dos desfiles.
>
> Não por coincidência, ali surgia um nome que marcaria para sempre a
> antologia do gênero: Silas de Oliveira. Surgia também outro nome quase do
> mesmo top: Mano Décio da Viola. Ambos autores do samba-que-não-foi-cantado.
>
> Os anos seguintes resultaram nesse produto marcadamente de temas
> históricos, produto das influências do Estado Novo e dos carnavais de
> guerra, temas que favoreciam a escola da Serrinha por sua formidável dupla
> de compositores.
>
> Não por coincidência o império iniciava ali um reinado de quatro anos como
> escola imbatível. Sempre com sambas-já-enredo ora de Silas, ora de Mano
> Décio, muitas vezes de ambos, como 61 anos de República, de 1951,
> consagrando o modo "lençol"de contar o enredo.
>
> Na minha visão, e aqui é só sentimento, sem nenhuma base documental para
> tanto, considero ser o samba Exaltação à Tiradentes, do império de 1949, o
> ponto central dessa encruzilhada. Um samba que é um primor absoluto de
> síntese, composto (sem Silas) por Mano Décio, Penteado e Estanislau Silva.
>
> Depois, por muito tempo Silas imperou. Seus sambas inesquecíveis
> consagraram sua escola por todo o país; fizeram dele unanimidade no mundo do
> samba. Ninguém como ele c(o)antou tão bem a nossa história.
>
> Ninguém jamais escreveu sambas como Silas...
>
> FONTES:
>
> • As escolas de samba do Rio de Janeiro. Sergio Cabral. Editora Lumiar –
> 1996.
> • O Brasil do samba-enredo – Monique Augras – FVG editora – 1998
> • Paulo da Portela – Traço de União entre duas culturas – Marilia Trindade
> Barbosa e Lygia Santos – Funarte- 2ª edição – 1989.
> • Carnaval. Seis Mil Anos de História – Hiran Araújo- GRYPHUS – 2000
> • Fala Mangueira. Marília Trindade Barboza e Arthur Loureiro de Oliveira
> Filho.José Olimpio.1980.
> • Salgueiro, Academia do Samba.Haroldo Costa.Record.1984.
>
> SUGESTÕES PARA OUVIR AGORA:
>
> Samba: Conferência de São Francisco
>
> Escola: Prazer da Serrinha/1947
>
> Autores: Mano Décio e Silas de Oliveira
>
> Cantor Mano Décio
> Disco: Fita gravada / acervo pessoal
>
> LETRAS PARA ACOMPANHAR:
>
> Escola: Unidos da Tijuca – 1933
>
> Autor: Nelson Moraes
>
> Título: O Mundo do Samba
>
> "Somos Unidos da Tijuca
> e cantamos o samba brasileiro
> cantamos com harmonia e alegria
> o samba nascido no terreir
>
> Não queremos abafar
> Nem também desacatar
> Viemos cantar o nosso samba
> Que é nascido no terreiro
> Perante o Luar"
>
> Escola: Mangueira - Pré-carnaval de 1934
>
> Autor: Carlos Cachaça
>
> Título: Homenagem
>
> "Recordar Castro Alves
> Olavo Bilac e Gonçalves Dias
> E outros imortais
> Que glorificam nossa poesia
> Quando eles escreveram
> Matizando amores
> Poemas cantaram
> Talvez nunca pensaram
> de ouvir seus nomes
> num samba algum dia
> (...)"
>
> Escola: Azul e Branco do Salgueiro / 1938
>
> Autor: Antenor Gargalhada
>
> Título: Asas para o Brasil
>
> "Viemos apresentar
> artes que alguém não viu
> Mocidade Sã
> Céu de Anil
> Dai Asas ao Brasil
> Tenho orgulho dessa terra
> Berço de Santos Dumont
> Nasceu e criou
> Viveu e morreu
> Santos Dumont
> Pai da Aviação"
>
> Escola: Portela / 1939
>
> Autor: Paulo da Portela
>
> Título: Teste ao Samba
>
> "Vou começar a aula
> perante a comissão
> muita atenção
> eu quero ver se diplomá-los posso
> salve o fessor
> Dá nota a ele senhor
> Catorze com dois doze
> Noves fora, tudo é nosso
>
> Cem divididos por mil
> cada um com quanto fica ?
> não pergunte à caixa surda
> não peça colo à cuíca
>
> Lá no morro
> vamos vivendo de amor
> estudando com carinho
> o que nos passa o professor"
>
> Escola: Prazer da Serrinha / 1946
>
> Autores: Silas de Oliveira e Mano Décio
>
> Título: A Conferência de São Francisco
>
> "Restabeleceu a Paz Universal
> depois da Guerra Mundial
> a união entre as Américas do Sul, Norte e Central
> nunca existiu outra igual
> na vida internacional
>
> Nosso Brasil sempre teve interferências
> Nas grandes conferências
> Da paz Universal
> Sendo o Gigante da América Latina
> Uruguai, Paraguai, Bolívia, Chile, Argentina"
>
>
> * Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
>
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