Posto o texto aqui para facilitar a leitura..

Carol



    *Enlouqueçam!*  *Coluna - Joaquim Ferreira dos Santos* *O Globo *
11/2/2008

*O governo Lula é mais divertido que o desfile da Beija-Flor *

Eis-me aqui, a genitália nos moldes cobertos a que obrigam os regulamentos
feitos pelos bicheiros, para dizer que é preciso soltar os bichos, todos
aqueles bichos que sejam da vontade dos grandes criadores, para se voltar a
premiar no desfile das escolas de samba os elementos que caracterizam a
festa. Viva a invenção, a piração, a maluquice, a ousadia e o fora de
propósito da turba ensandecida. O resto é tédio, repetição, o bloco que
atravessa a pista, o boi na linha, o carnavalesco de laboratório, a escola
chata e a incompreensão do que se está tratando. É carnaval, é folia, e
nesse dia ninguém chora nem elabora conceitos complicados. Que vença o mais
doido. O Dom João mais estapafúrdio, a Dona Maria Louca de enfeites mais
disparatados. Ponha-se em volume alto, naquele que leva ao desfalecimento da
razão, essa eloqüente lira do delírio nacional - e ouça-se a voz Dele, o
grande Jurado, a narrar o seu veredicto. É dez, nota dez.

Dito tal, aproveito a paradinha da bateria para subscrever veemente esta
causa popular em seu parágrafo único, momo e primeiro: que vençam os mais
surpreendentes e acima de tudo os que insistem em botar, já que a genitália
está proibida, o riso para fora. Abaixo os intelectuais de sambódromo, os
babadores de alas compactas e os adoradores da garra da comunidade.
Resgate-se o humor, tão xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé, que
identifica os cornos pátrios - e deixa que digam que pensem que falem de
tamanha exacerbação dos sentidos.

Viva a balbúrdia irracional, a galhofa do espírito e o rei, mais as rainhas,
as mucamas e os homens sérios principalmente, todos em plena nudez
coloquial. Depois, revoguem-se as aporrinhações em contrário, mude-se o
desenho do naipe de tamborins, rodem-se as baianas e transcreva-se em ouro.
Vencerá o mais interessante e o que ninguém viu antes.

Peço que se inaugure a pontuação, com peso dobrado, do quesito "Espanto".

O desfile das escolas de samba, e há dezenas de anos eu estou lá na primeira
fila, é um espetáculo deslumbrante de renovação, um milagre brasileiro só
comparável ao toque do Robinho por baixo das pernas do irlandês. A cada ano
inventa-se uma maneira nova de colocar pimenta na brincadeira e fazer com
que a festa não canse nunca. Este é o lado bom da força. Do outro lado, para
que a coisa não degenere, criou-se uma bateria de regras, de jurados e
quesitos, o lado maligno da camisa de força, que impede a premiação daquele
que tenha colocado em cena o desfile mais próximo da idéia básicas das duas
noites - a celebração da loucura genial de um povo que tem como orgulho
driblar com o corpo e dar asas à imaginação.

Vence no Sambódromo, tem sido assim faz tempo, o careta que se encaixou nos
conformes estabelecidos pelos bicheiros, que carnavalizou até certo ponto,
ajoelhou no milho grosso da esbórnia, mas não rezou com a boca dos anjos
safados. Voto contra essa mesmice, na compreensão radical de que cultura é
outra coisa. É avançar contra as regras, inventar a nova roda e subverter os
valores. Que vença o mais doido e nunca, ao contrário do que os jornalistas
especialistas se enchem de sabedoria otária para justificar a sensaboria, os
de "desfile tecnicamente perfeito".

Eu não pago o IPTU na cidade esburacada, na minha loja não se recebe cartão
corporativo do governo e eu também não aceito que se consagre como bamba o
sujeito que cumpriu hoje todas as exigências descritas anteontem por algum
bicheiro solto na véspera pela Polícia Federal. Cercados pelos sete lados
ficam os bichos deles, não a imaginação popular. Já basta, no Carnaval, a
necessidade de fazer sexo seguro. Um desfile de escola de samba, pelo menos
foi o que me disse Ismael Silva, fundador delas, tem que ter destempero e
alucinação. Camisinha na idéia não. Enquadrem-se os bicheiros, libere-se a
curtição.

O desfile da Beija-Flor que ganhou o carnaval do Rio com o enredo "Macapaba
- Equinócio solar", se alguém ainda se lembra, é aborrecido demais.

As aranhas da Viradouro, os pingüins da Tijuca, os cariocas do Salgueiro,
tudo isso para sempre será inesquecível - e, no entanto, nada foi premiado.
Faz parte do fora da ordem nacional. A contravenção viaja livre no carro dos
bombeiros e as cadeiras da mulata são impedidas de balançar na direção que o
vento lhes soprar mais gostoso.

Tenho dito. Que a imaginação seja colocada novamente no poder e deletadas em
seguida, por empatadoras da roda da alegria, todas as considerações em
contrário. Abandonem-se na concentração, como dejá vistas, as ordens de
federações religiosas e todas aquelas outras que não querem deixar a escola
chegar ao porto de seus fundadores - a brincadeira, a irreverência e a
aceleração dos sentidos. Viva João Trinta, Fernando Pinto, Paulo Barros e
todos os que não aceitam transformar o desfile das escolas de samba num
punhado de regulamentos mais complicados que os dos colégios regionais da
eleição americana.

Acima de tudo, abandone-se na dispersão, como se fosse um carro incendiado,
a rigidez dos quesitos, esta alegoria de mão-dura deixada como confete verde
oliva desde o tempo de convivência com os militares e que nunca mais, como
um pedacinho colorido de nostalgia autoritária, se despregou da fantasia. O
desfile-chato-mas-competente, essa nova figura jurídica que assombra a
inteligência nacional, não pode ser bisado na noite das campeãs, sob o risco
de se tornar o resto do ano brasileiro mais maluco que o carnaval. Afinal,
este é o país que quando quer ser sério tem um ministro de Planejamento de
Longo Prazo desenhando aqueduto romano pela Amazônia afora e que quando quer
brincar faz enredos sobre "Macapaba - Equinócio solar".
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