MPB
O baú do Bolacha

O compositor Mauro Duarte, morto há quase 20 anos, ganha tributo em CD duplo 
gravado por Cristina Buarque e o grupo Samba de Fato




Teresa Albuquerque
Da equipe do Correio

“Não sei se vou me acostumar/ Mas, se você quer, pode ir/ Chorar eu sei que 
vou/ Mas de implorar você sabe que eu não sou.” Batucando na mesa, cantarolando 
baixinho, Mauro Duarte gravava em fita cassete o mote de mais um samba, para 
ser terminado depois. Tinha essa mania de registrar as novas idéias, no 
gravador ou no papel. Fazia isso tarde da noite, ao chegar em casa. Depois, 
esquecia. Por sorte, os filhos guardavam alguns esboços, como esse aí de cima, 
que virou vinheta em O samba informal de Mauro Duarte, CD duplo que Cristina 
Buarque e o grupo Samba de Fato lançam pela Deckdisc, quase 20 anos após a 
morte do compositor.

Mauro Duarte de Oliveira (1930-1989), o Bolacha, virou nome de praça em 
Botafogo, no Rio, mas ainda é muito menos conhecido do que merecia. Autor de 
sambas como Canto das três raças e de Portela na avenida, famosos na voz de 
Clara Nunes, ganhou homenagem do amigo Walter Alfaiate em 2005 (o CD Tributo a 
Mauro Duarte), mas nunca havia sido festejado como agora, nesse álbum duplo 
produzido por Alfredo Del-Penho.

Entre as 30 faixas, há inéditas (19), raridades, pedaços de música terminados 
por Paulo César Pinheiro, o parceiro mais constante, e outras deixadas como 
estavam, nas gravações originais, só com a primeira parte. A maioria é de 
sambas tristes, daqueles que Cristina gosta tanto de cantar. O Samba de Fato, 
que se reveza com ela nos vocais, é formado por Del-Penho (violão), Pedro 
Amorim (bandolim e cavaquinho), Pedro Miranda e Paulino Dias (percussão). São 
deles todos os arranjos e instrumentação do disco.

Nascido em Matias Barbosa (MG), Mauro Duarte se mudou com a família para o Rio 
em 1940. Tinha 10 anos e foi parar em Botafogo, bairro onde brincou quase 40 
carnavais, em blocos como Foliões de Botafogo e Paraíso das Cabrochas, e na 
escola de samba São Clemente. Lá, em 1947, Bolacha (o apelido veio do rosto 
arredondado) conheceu o compadre Walter Alfaiate, botafoguense também no 
futebol, parceiro em músicas como Cuidado, teu orgulho te mata, Sorri de mim e 
Arroz e feijão. Foi Alfaiate quem lembrou as melodias de Jeito de cachimbo e Eu 
não quero saber, anotadas no caderno de Mauro e agora devidamente registradas – 
a primeira cantada por Paulino e a segunda por Del-Penho.

Quando morreu, em 1989, aos 59 anos, Mauro Duarte deixou cerca de 70 músicas 
gravadas e mais de 30 inéditas. Algumas em fitas, como as vinhetas que entraram 
no CD – Desde que me abandonou; Malandro não tem medo; Não sou de implorar – 
com uns poucos versos cantarolados pelo próprio compositor. Outras ficaram só 
na memória de amigos, como Alfaiate, Paulo César Pinheiro e Elton Medeiros, ou 
dos filhos, que trataram de passá-las adiante nas rodas do Bip Bip, o simpático 
botequim de Copacabana, freqüentado por Cristina e a turma do Samba de Fato.

Dez sambas que estavam incompletos no acervo da família foram terminados por 
Paulo César Pinheiro em 2006: Sublime primavera; Acerto de contas; Mineiro pau 
(provavelmente a última composição de Mauro, uma homenagem ao pai); Falou 
demais (parceria com João Nogueira); Samba de botequim; Compaixão; Engano; O 
samba que eu lhe fiz; Começo errado e Lamento negro.

No encarte, Pinheiro lembra a falta que o amigo faz: “Foi um dos meus parceiros 
mais inspirados e férteis, e um dos mais queridos. Não há semana em que eu não 
pense nele. Não há mesa de bar em que não o recorde. Às vezes, de falar dele, 
engasgo, embargo e choro. Quando bebo, então, e alguém o lembra, meu olho 
mareja e a palavra arranha”.

Entre os sambas cantados por Cristina Buarque – que lançou um LP independente 
com Mauro Duarte, em 1985 – estão dois que já tinham sido gravados por Ataulfo 
Alves Jr.: À procura da felicidade e Tempo de amigo. Mais consideração, 
registrada por Mart’nália em 1987, ganha agora a voz de Pedro Miranda, assim 
como Sofro tanto, lançada por Cláudia Savaget em 1979. Paulino Dias defende 
Morro, única parceria de Mauro com Dona Ivone Lara, gravada há quase 20 anos 
por Elza Soares. Pedro Amorim, por sua vez, canta Não sei, dobradinha com Noca 
da Portela, originalmente gravada por Sônia Santos em 1975.

Não, nenhuma das músicas famosas de Mauro Duarte entrou no CD. Nem Lama, nem 
Portela na avenida, nem Canto das três raças. A proposta, segundo Del-Penho, 
era registrar apenas o repertório menos conhecido de Mauro Duarte, o mestre dos 
sambas em tom menor. O popular Bolacha, enfim, ganha homenagem à altura.


O samba informal de
Mauro Duarte

CD duplo gravado por
Cristina Buarque e o grupo
Samba de Fato, produzido
por Alfredo Del-Penho.
Lançamento Deckdisc,
30 faixas, R$ 29,90
(www.deckdisc.com).


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