A Ciência de Chico
*Por Vini Correia*
[image: mangue beat ou mangue bit, eis a questão] Fundador da Nação Zumbi e
do movimento Mangue Beat, Chico Science contribuiu muito para a valorização
das raízes afro-brasileiras, especialmente ao resgatar tradições folclóricas
do nordeste do país. Sintonizado entre a modernidade urbana e o arcaismo
regional, seu estilo único de cantar se fez através de mensagens regadas por
temas sociais: uma soma de cordéis, rap, e repentes (por que não
rappentista?) em ritmo de um certo maracatu envenenado.
Caranguejos com Cérebros
Ao lado de seu companheiro de verbo e cachaça Fred 04 (da banda Mundo Livre
S/A), Chico Science escreveu o manifesto Mangue Beat onde defendeu teorias
sustentadas por cientistas sobre a importância dos estuários (manguezais),
cujo ecossistema é considerado o mais produtivo do mundo. O mangue, segundo
Fred: "É tido como símbolo de fertilidade, diversidade e riqueza".
Com base neste conceito, o movimento MB desenvolveu seu próprio estilo
fazendo arte e alertando o mundo sobre o caos onde Recife (a quarta pior
cidade do mundo na época) se encontra atualmente. Foi quando a estética da
lama conquistou seu merecido espaço. Muitas bandas locais, cada uma com sua
autênticidade, também contribuiram para o fortalecimento deste novo cenário
manguetown: Mestre Ambrósio, Otto, Cordel do Fogo Encantado, Mombojó, Mundo
Livre S/A, além de diversas outras que aproveitaram a oportunidade para se
agarrar às patas destes homens-caranguejos e arrumar um cantinho no
concorrido caçuá da mídia.
Chico Science, com muita criatividade, conseguiu aliar suas idéias ao som
das guitarras psicodélicas de Lúcio Maia e dos baques nervosos de sua banda,
Nação Zumbi, e fazer toda essa maluquice dar certo.
As levadas orgânicas que mais remetem ao soul do James Brown, ao funk do
Afrika Bambataa e ao afrobeat do nigeriano Fela Kuti foram
antropofagicamente absorvidas pela energia do maracatu e de outros ritmos
regionais, tais como o samba de roda, a embolada e o caboclinho. Elementos
eletrônicos sofisticados também não ficaram de fora desta alquimia sonora.
Enfim, uma fórmula suficiente para levitar cabeças pensantes e pés
dançantes: "queremos diversão levado a sério", assim dizia o jovem Chico.
Depois de muita poeira subir e de muita fumaça no ar, Chico fincou uma
antena parabólica no meio da lama e do caos, e, com um satélite na cabeça,
apresentou para o mundo afora a sórdida riqueza de Pernambuco - missão
cumprida. Para alguns, um mito, para outros, apenas um malungo. Francisco de
Assis, vulgo Chico Science, morreu num acidente de carro durante o
silencioso carnaval de 97, em Olinda. Salve Chico!
"*Um passo a frente e você não estará mais no mesmo lugar*" Chico Science
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