Carolina wrote:

Dizer que o funk é ruim, é um ponto de
vista. Esses como sempre são parciais e nisso a gente deve concordar
né.

Bom, dizer que o sol vai sair amanhã pelo oriente também é um ponto de vista, só que bem fundamentado. Existem pontos de vista e pontos de vista. Dizem que Piazzolla gostava de compor música clássica, e uma vez foi falar com uma especialista francesa, uma mulher com uma vasta cultura musical, não lembro o nome dela. Ela deu uma olhada nas partituras, e disse: não está mal, mas falta alguma coisa, falta espírito na coisa. Aí ela perguntou sobre o que ele fazia mais, e Piazzolla, meio envergonhado, disse que ele gostava de compor tango. Ela pediu pra olhar algum material, ele mostrou, e depois de olhar um pouco as partituras, ela disse: isto é muito bonito, continue, não pare de fazer isso. Ele seguiu o conselho. A opinião dessa senhora, naturalmente, era "parcial", era só um "ponto de vista". Só que um ponto de vista de alguém que sabia do que estava falando, alguém qualificado para falar dessas coisas.


O funk para quem o vive não é ruim, ao contrário é muito bom!
Pois é, aqui você faz um julgamento de valor. Veja abaixo.

Muitas vezes é o único momento de divertimento. É hora de extravasar
(é assim que se escreve?). O que falar dessas pessoas que gostam de
funk? Dizer que elas são culturalmente inferiores?

Eu diria culturalmente castradas. É a função da mídia, castrar as pessoas para que elas não possam entender o mundo que as rodeia e conservar assim uma certa estrutura de poder. Também não é certeza que eles "gostem" de funk, a maior parte das vezes existe uma pressão social pra você "gostar" de algo. Qual é a alternativa pra um cara pobre da favela? Se ele não gostar do que os outros gostam ele acaba isolado, ninguém gosta disso, e menos quando jovem. Já o pessoal classe média tem mais possibilidades de acesso a material de mais qualidade, se apesar disso ele gostar de bagulho é problema dele.

Teresa Cristina nos conta como ela quando jovem só ouvia rock. Não é que ela gostasse, diz ela, mas é que todo o mundo só ouvia rock, só se tocava rock. Isso funciona como uma espécie de lavagem cerebral.

Já cometemos esse
erro na história, chamava-mos de primitivos, aculturados, orientais.
Continuam chamando. Por exemplo, na República Dominicana continuam dizendo, século 21, que toda a afro de lá é primitiva e pervertida. Você tem que entrar nos bairros mais marginais pra poder ouvir rara, gagá, palo, salve etc. Já a bachata, que é o brega deles, com uma historia muito similar ao brega brasileiro, tem completo apoio da mídia, organizam eventos internacionais multitudinarios, tem monopolio quase completo da música que toca nas radios, etc. Jorra grana de tudo quando é lado pra promover esse bagulho. Sabem o que dizem dos que criticam a bachata? Que são elitistas. Que a bachata é uma música de origem "popular". Isso lhe recorda algo? Enquanto isso, a música de grupos como os Congos de Villa Mella, consideradas pela ONU patrimonio da humanidade, chega a ser até proibida, a igreja proibiu este ano que eles tocassem no último carnaval porque diz que era música pervertida, contraria aos valores cristãos. Ninguém disse um pio.

Vejam o contexto em que você pode ouvir hoje um palo nesse país:

http://youtube.com/watch?v=gPEEFS7RQKg

Compare esse show de genuína arte popular, finíssmima e de qualidade, protagonizada por crianças em bairros marginais, com a canastrice do mais "popular" do cantores de bachata, cantando em... Nova York!!! Com un celular último modelo que 80% do povo daquele país não vai ver nem em fotografía... Esse é que o "popular"!!!!

http://youtube.com/watch?v=afQ_xfZ88U8

Sem comentarios.

Agora, veja o drama. Bachata jorra de tudo quanto é radio no país, em todos os bares, taxis, onibus, etc etc. A música afro, por outro lado, é desconhecida do grande público, perseguida e reduzida aos bairros mais marginais das periferias das cidades e em alguns lugares do interior. Então, se você é jovem, qual é a alternativa que você tem? Se você não dançar e "gostar" de bachata você tá fora, não existe, não vai poder sair com amigos nem fazer nada. Dizem então que é disso que ele "gosta". E eu pergunto: ele tem condições pra "gostar" de outra coisa? Ele vai ter condicções de aprender a gostar de outra coisa?


A realidade é que não
existe verdade, nem bom e ruim, existem convenções, consensos,
maiorias. Continuo defendendo que tudo depende do ponto de vista!

Se não existe bom nem ruim, por quê você disse acima que "O funk para quem o vive não é ruim, ao contrário é muito bom!" Só você está autorizada para fazer julgamentos de valor? É só quando otros fazem julgamentos de valor que discordam dos seus que tudo vira relativo?

Abs,

JLV

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