Sensacional, Vanzolini emociona e nos faz crer que nem tudo está perdido.
   
  Fui em uma homenagem dedicada a ele em setembro do ano passado no Sesc 
Pompéia, que classifico como o melhor show que já assisti. Até hoje aquilo não 
sai da minha lembrança.
   
  A sua obra tanto acadêmica quanto musical tem que ser preservada a todo custo.
   
  Ary

Caio Tibúrcio <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
  
Excelentes matérias publicadas na Folha de São Paulo de sábado passado, 22 de 
março, tratam do zoólogo, do herpetólogo Paulo Vanzolini.

Vale a pena ler, para conhecer um pouco sobre esse grande músico, esse grande 
brasileiro que pemanece a fazer um "acerto de contas" .

Caio Tiburcio

===========================================

São Paulo, sábado, 22 de março de 2008

"A Amazônia quer destruir a floresta", diz Vanzolini
Zoólogo-sambista nega autoria da teoria dos refúgios; "só estudamos um bicho"
Autor de "Ronda" e teórico da biodiversidade, que faz 84 anos em abril, diz que 
única saída para a floresta é "trancar e perder a chave"

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

A generosidade e as opiniões contundentes -e muitas vezes politicamente 
incorretas- de um zoólogo compositor poderiam servir de inspiração para um 
grande samba. Mas Paulo Emílio Vanzolini, que completa 84 anos no dia 25 de 
abril, não faz mais música. E, mesmo na ciência, anda acertando as contas com 
sua obra-prima: a teoria dos refúgios.
"Nem deveria chamar teoria dos refúgios. Fizemos apenas um modelo de especiação 
de uma espécie. Um bicho. Nós não desenvolvemos nada. Não usamos o termo teoria 
dos refúgios no trabalho de 1970."
Vanzo, como é conhecido, conta como surgiu a explicação científica mais ilustre 
(e debatida) sobre a origem da biodiversidade amazônica.
O ano é 1969. Trabalho quase pronto sobre um lagarto do gênero Anolis, que 
existe em boa parte do Brasil. Vanzolini, que dividia o projeto com o americano 
Ernest Williams, recebe um pacote da revista científica americana "Science". 
Era um trabalho assinado por Jürgen Haffer sobre distribuição de aves na 
Amazônia brasileira.
"Ernest, acho que passaram a perna na gente", foi a reação de Vanzolini. Logo 
em seguida, o trabalho sobre a distribuição de répteis no Brasil foi enviado 
para Haffer. "Gosto muito dele, que é pessoa inteligente, e, além disso, como 
bom alemão, gosta muito de cerveja."
Haffer, que estava na África do Sul, pegou um avião e veio para o Brasil 
discutir o assunto com Vanzolini. Os dois trabalhos foram publicados em 1970. A 
concepção dos refúgios, provavelmente, ecoou porque encontrou dois autores 
generosos, algo nem sempre fácil de ocorrer no mundo da ciência.
Outro pesquisador que contribuiu, com seus estudos paleoclimáticos, para o 
trabalho de Vanzolini e Williams foi o geógrafo Aziz Ab'Sáber, amigo com quem 
Vanzo anda chateado. "O Aziz é uma criança. Somos muito amigos, apesar de que 
agora ele está nessa fase de invenção, de dizer que ele descobriu a teoria dos 
refúgios. Ele colocou isso na internet."
Nem Haffer nem Vanzolini aceitam as críticas que vêm sendo feitas nos últimos 
anos aos refúgios -nome dado às "ilhas" de mata úmida e cerrado que se formaram 
na Amazônia à medida que o clima oscilou entre seco e úmido da Era do Gelo para 
cá. Essas "ilhas" isolam geograficamente as populações, estimulando o 
surgimento de novas espécies.
Mas críticas são algo que não falta quando o zoólogo-sambista fala da Amazônia 
atual.

Insustentável
"Vejo a situação da Amazônia com grande desgosto. A equipe dessa ministra 
[Marina Silva] é muito ruim. Você conhece o [João Paulo] Capobianco 
[secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente]? É o pior que tem. Agora 
ele inventou essa história de gestão do patrimônio genético", dispara.
Do governo, Vanzo parte para criticar os próprios moradores da floresta e as 
ONGs.
"A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive 
lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento 
sustentável. É uma besteira completa. Enquanto a população crescer, você não 
vai negar comida". A única solução é: "Tranca a porta e perde a chave. Enquanto 
tiver gente e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem 
matar os bichos que estão por lá?"
Em seguida, muda de bioma, mas mantém o alvo. "O grande mal são as ONGs. Elas 
são ignorantes e muito militantes. Fico feliz que agora liberaram a usina de 
Tijuco Alto." O projeto da hidrelétrica, que poderá ser erguida sul do Estado 
de São Paulo pelo Grupo Votorantim, se arrasta há 20 anos na Justiça.
"Eu e algumas alunas tínhamos uma firma de impactos ecológicos. Fizemos estudos 
naquela área. Lá não tem um metro de mata atlântica. Tem só capoeira, o que é 
pior."
Mas as boas lembranças amazônicas do autor de "Volta por Cima" -expressão que 
virou verbete em dicionário e o único samba, segundo Vanzolini, que rendeu 
algum dinheiro ("Comprei muitos livros com ele")- voltam logo.
"Uma das maiores emoções que eu tive na vida foi na Amazônia, ao lado do Márcio 
Ayres [primatólogo morto em 2003], que eu conheci no berço."
Os dois cientistas estavam atrás de uma espécie nova de macaco e pararam seu 
barco em uma ilha, na região de Mamirauá. "Logo quando chegamos pensaram que 
nós éramos regatões e foram logo perguntando o que vendíamos. Dissemos que 
estávamos trabalhando nessa coisa do mico-de-cheiro. "Qual o senhor quer?" 
-perguntaram. "O da cabecinha ruiva ou o outro?" Quase desmaiei na hora. Eles 
já sabiam que eram dois [tipos]."
Quando um exemplar da espécie nova foi encontrado, o próprio Vanzolini matou o 
animal. Ayres afirmou que não sabia fazer aquilo. "Eu fui lá e matei. Depois 
taxidermizei e o Márcio descreveu (e fez uma homenagem ao então orientador, 
dando o nome ao macaco de Saimiri vanzolinii).
Apesar de ter ficado de fora dessa descrição, a obra de Vanzolini não se resume 
ao estudo que acabou gerando a teoria dos refúgios. Nas coletas de campo ou no 
Museu de Zoologia da USP, ele não tem conta do número de espécies que descreveu 
e batizou, principalmente de répteis e anfíbios ("Quem é sério tem perfil 
baixo", disse uma vez).
Matar bicho para fins científicos é cada vez mais importante, segundo 
Vanzolini. "As ONGs acham isso besteira porque elas não entendem de nada", 
generaliza o zoólogo.

Rodas de samba
O sorriso maroto volta a se abrir quando Vanzolini - depois de tomar dois cafés 
feitos por sua mulher, a cantora Ana Bernardo, e elogiá-los muito- volta a 
falar de música, atividade da qual, diga-se de passagem, ele nunca precisou 
para viver. "A zoologia foi muito boa para mim. Me deu bom emprego, viagens, 
boas amizades."
O compositor está aposentado mas, segundo ele, continua tendo a música como 
diversão. "Compor é muito difícil. Toma muito tempo. Perdi o gosto." Porém, 
alguns botequins do bairro da Aclimação, como o do Heleno, ainda são 
testemunhas das rodas de samba de que Vanzolini e os amigos costumam participar 
de longe em longe.
"Ainda frequento, a cada dois ou três meses. Beber eu tive de parar. A 
proibição é só para cachaça, porque eu tomava um pouco demais. Mas cerveja e 
vinho eu tomo."
Vanzolini, que em 2004 ficou 51 dias na UTI após a eclosão de quatro úlceras 
hemorrágicas e após ter três paradas cardíacas no mesmo dia, continua 
acompanhando tudo do seu refúgio na Aclimação (uma vila inteira dele e dos 
irmãos, com e uma das casas para ensaios). A eleição nos EUA, por exemplo.
"E essa do Obama agora? Vai ser a glória. Mas duvido que eles tenham coragem. 
No fim, eles [os americanos] votam em um republicano", explica Vanzo, que ainda 
se considera um homem de esquerda.

Na escrivaninha
Entrevista encerrada. O zoólogo se levanta e convida o repórter a subir as 
escadas do sobrado. Passos lentos. Entramos num quarto com a janela quase toda 
fechada. A televisão ligada em um jogo da Copa dos Campeões -Vanzolini é 
torcedor da Ponte Preta- e uma estante com vários livros.
Ele retira dois volumes, coloca sobre a escrivaninha e diz: "Sente-se aí, leia 
isso", com um tom professoral.
É a publicação original do artigo com Williams (dois livros que, somados, 
passam das cem páginas), feita em 1970. Apesar de não existir realmente o termo 
no trabalho, ali está um dos marcos (e um dos pais) da teoria dos refúgios.
Se novos sambas não surgirão mais - para Vanzolini tudo já está feito, com uma 
caixa especial de discos com todas as músicas dele já lançadas- será que algum 
livro pode surgir, sobre ele próprio?
"Tenho preguiça. Não acho que tenha tanta coisa interessante assim."
Caso ele resolva falar de música, e disso gosta muito, alguns serão criticados, 
como o ex-parceiro Toquinho ("é um violonista de primeira, mas faz algumas 
coisas pelas costas"), Caetano Veloso ("esse não serve para nada") e Noite 
Ilustrada ("quando ele aparecia, aborrecia todo mundo").
Outros tantos, porém, receberão só elogios. Eduardo Gudin, Chico Buarque ("esse 
eu vi nascer, na casa do meu amigo Sérgio"), Luís Carlos Paraná ("depois da 
morte dele fiquei meio desiludido em compor") e Isaías Bueno ("o maior 
violonista do mundo").
Ou seja, o "homem de moral", de frases curtas e diretas, será generoso e ao 
mesmo tempo duro com aqueles que conviveram com ele ao longo de todos esses 
anos.

O herpetólogo (especialista "cobras e lagartos", como diz) Paulo Vanzolini, em 
sua casa em SP (Foto)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2203200801.htm
O SAMBISTA ERUDITO

NOME: Paulo Emílio Vanzolini

NASCIMENTO: São Paulo (av. Brigadeiro Luiz Antônio), em 25 de abril de 1924

FORMAÇÃO: Medicina (USP), com doutorado em zoologia (Universidade Harvard, 1950)

CARREIRA ACADÊMICA: em 50 anos, formou 38 doutores e dirigiu por 30 anos o 
Museu de Zoologia da USP


ARTIGO CIENTÍFICO ILUSTRE: "South American anoles: geographic differentiation 
and evolution of the Anolis chrysolepis species group", com E.E. Williams 
(1970), que expõe o modelo dos "enclaves" (refúgios) para explicar o surgimento 
de novas espécies de réptil)


DISCOGRAFIA: "Onze Sambas e Uma Capoeira" (1967), "Paulo Vanzolini por Ele 
Mesmo" (1981), "Acerto de Contas" (2002)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2203200802.htm

Haffer lança biografia de Ernst Mayr
DA REPORTAGEM LOCAL
O outro "pai" da teoria dos refúgios, Jürgen Haffer, vive na Alemanha e 
continua produzindo. No fim do ano passado, saiu pela editora Springer a obra 
"Ornitology, Evolution and Philosophy: The Life and Science of Ernst Mayr 
(1904-2005)".
A biografia de um maiores biólogos da história (morto em 2005, aos cem anos) 
impressiona pelo detalhamento, a tal ponto de o texto ficar arrastado em alguns 
momentos.
Vanzolini não invalida a figura do Mayr biólogo ("O livro dele de 1942 mudou a 
minha vida."), mas critica o homem. "Não gosto dele. De santo não tem nada."
O descontentamento ocorreu quando o brasileiro estava em Harvard, EUA, fazendo 
doutorado. "O meu chefe, Alfred Romer, me disse que tinha uma verba para levar 
cientistas ao congresso internacional de zoologia. Mas, para isso, todos os 
convidados precisavam ser escolhidos por unanimidade por um conselho."
O nome de Vanzolini foi vetado por Mayr. Vanzo quis saber por quê. "Ele me 
mostrou uma lista e disse que eu não o havia citado em um dos meus trabalhos. 
Ele colecionava nomes de pessoas que não o citavam nos trabalhos."
Vanzo também declara seu amor por Charles Darwin. "Você lê as coisas dele, as 
dúvidas que ele teve na vida e vê que ele era genial. O Darwin já deixou tudo 
pronto [na biologia]."
Mas nem mesmo o pai da teoria da evolução escapa de uma alfinetada. "Do Brasil 
ele não gostou muito não. Tenho impressão de que por racismo. Com os negros, os 
índios, os pobres em geral." (EG)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2203200803.htm
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta


       
---------------------------------
Abra sua conta no Yahoo! Mail, o único sem limite de espaço para armazenamento! 
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia  as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta

Responder a