Publicado no Jornal Correio Braziliense, de 07.06.08 (sábado), Caderno C.
Fonte: http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_98.htm
Doutora em samba
Agraciada com título honorário em Berklee, nos Estados Unidos, Rosa Passos
consolida carreira internacional com novo disco lançado no mercado
norte-americano
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Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio
Não é para qualquer um. Somente nomes consagrados como Duke Ellington, Sarah
Vaughan, Oscar Peterson, Nancy Wilson e Sting são detentores da honraria. A
eles se juntou a baiana-brasiliense Rosa Passos. Desde o dia 10 de maio, ela
ostenta o título de doutora honoris causa concedido pelo renomado instituto
Berklee of Music, de Boston, nos Estados Unidos.
Foi com misto de surpresa e orgulho que Rosa tomou conhecimento da homenagem,
mas houve algo que certamente a motivou. “Em novembro do ano passado estive na
Berklee para comandar uma oficina sobre música brasileira. Durante três dias, à
frente de uma classe com estudantes de várias partes do mundo, vivi uma
experiência riquíssima, falando sobre bossa nova, samba e outros gêneros. Os
alunos demonstraram grande interesse, também, pela minha forma de cantar, de
tocar violão, e pelo meu processo de criação”, conta.
Antes mesmo do workshop, a música da cantora, compositora e violonista vinha
sendo objeto de estudo na escola americana, que tem no acervo de sua biblioteca
todos os discos da artista. “Durante minha estada em Boston, soube que os
estudantes têm o máximo interesse pela música brasileira. Meus CDs são fontes
de freqüentes pesquisas”, revelou, entusiasmada. No encerramento da oficina,
fiz um show com professores e estudantes.”
Com prestígio em alta nos EUA, no começo daquele mês Rosa fez seis
apresentações – duas por noite – no mítico Blue Note, templo do jazz do
Village, em Nova York. “Sabendo, com antecedência, da minha passagem por lá, a
direção da casa me fez o convite para esses concertos, que lotaram. Na platéia,
formada predominantemente por americanos, estavam as cantoras Karrin Alisson e
Madeleine Peyroux e a maestrina Maria Schneider”, revela. Saiu uma crítica
ótima na revista New Yorker, assinada por Gary Giddins.”
Em maio, depois de ir a Boston receber a comenda, a cantora permaneceu nos
Estados Unidos, pois outros compromissos a aguardavam entre os dias 23 e 25. “A
convite de Winton Marsalis, participei da noite brasileira que celebrou os 50
anos da bossa nova no Lincoln Center. Ivan Lins também foi convidado e fez show
em outro teatro daquele centro cultural. No dia 25, fui a São Francisco para
mais uma apresentação.”
Canção brasileira
No período que antecedeu os shows do Lincoln Center, a cantora aproveitou para
trabalhar na divulgação do Romance, álbum que acabara de lançar no mercado
americano, pela gravadora Telarc, a mesma pela qual saiu Rosa – CD de voz e
violão – em 2006. “O Rosa, que chegou ao Brasil pela Universal, obteve boa
vendagem nos Estados Unidos e na Europa e foi bem recebido pela crítica”,
comemora.
Satisfeita com o resultado de Rosa, a Telarc, ao convocar a cantora para fazer
mais um disco, deixou-a à vontade para sugerir tema, repertório e local de
gravação. “Há algum tempo eu tinha um projeto voltado para a canção brasileira,
em outros países vista como balada ou algo próximo da balada, mas adiava. Senti
que havia chegado o momento de levar em prática a idéia”, relata.
Na definição do repertório, Rosa buscou canções que fizessem parte de sua
memória afetiva. A maioria, clássicos da MPB de diferentes fases. É o caso de
Nem eu (Dorival Caymmi), Eu sei que vou te amar (Tom Jobim e Vinicius de
Moraes), Por causa de você (Tom Jobim e Dolores Duran), Atrás da porta (Francis
Hime e Chico Buarque), Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra) e Álibi (Djavan).
“As músicas que fecham o CD são mais antigas e estão entre as que sempre quis
gravar, Neste mesmo lugar (Armando Cavalcanti e Klecius Caldas) e Nossos
momentos (Luiz Reis e Haroldo Barbosa).” A elas se juntam Doce presença (Ivan
Lins e Vitor Martins), Cadê você (João Donato e Chico Buarque) e Altos e baixos
(Sueli Costa e Aldir Blanc).
Produzido pela cantora, o disco foi gravado no estúdio Cachuera, em São Paulo,
em fevereiro. Os arranjos ficaram a cargo do violonista e guitarrista Lula
Galvão, do contrabaixista Paulo Paulelli e do pianista Fábio Torres, que nos
últimos anos têm acompanhado Rosa. Houve participação de Celso de Almeida
(bateria), Daniel d’Alcântara e Nabor Gomes (flugelhorn) e Vinicius Dorin
(sax).
Para Rosa, que vive fase mais jazzística, gravar Romance lhe possibilitou
exercitar a faceta de intérprete, voltada para improvisos e reinvenções. “Além
disso, pude homenagear pessoas por quem sempre tive admiração e aproveitei as
canções para isso.” Cita Elis Regina, Elizeth Cardoso, Sueli Costa –
compositora que é uma de suas influências –, Djavan e os mestres Dorival Caymmi
e Tom Jobim.”
Segunda-feira, o álbum vai ser lançado na Europa e no começo de julho Rosa
segue para aquele continente, onde fará 11 apresentações entre Portugal e
Espanha, com estréia no dia 4, em Lisboa. “No segundo semestre tenho shows
agendados na Argentina e no Uruguai. Aqui no Brasil, vou cantar no Rio de
Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Estou na expectativa de fazer esse
show em Brasília, onde não me apresento há mais de cinco anos. Por enquanto,
não há nada definido para a cidade onde moro desde a década de 1970”, comenta,
desolada.
ROMANCE
14º CD de Rosa Passos, com 12 faixas, produzido pela cantora, compositora e
violonista. Lançamento do selo americano Telarc. Previsto para sair no Brasil
pela Universal.
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crítica - ****
Assumidamente jazz
Rosualdo Rodrigues
Especial para o Correio
Rosa Passos nunca perdeu a chance de explorar o parentesco entre a bossa nova,
sua praia, e o jazz. Romance, CD que lançou nos Estados Unidos e que deve
chegar ao Brasil em breve, pela Universal, é assumidamente um disco de jazz,
com todas as qualidades que um bom exemplar do gênero requer. Para começar,
Rosa está cantando como nunca. Explorando tons altos de voz mais freqüentemente
que o habitual, sem perder a suavidade que lhe é peculiar, cria versões
pessoais para músicas que ficaram marcadas nas vozes de intérpretes
carismáticas como Elis Regina, Nana Caymmi e Maria Bethânia, por exemplo. Nem
por isso deixa margem a comparações. É Rosa Passos cantando como só ela sabe.
Em suas interpretações, a cantora expõe o sentimento com elegância e contenção,
convidando o ouvinte à introspecção e a prestar atenção na confortável cama
sonora que fazem para sua voz os competentes músicos que a acompanham. Há uma
incrível unidade no disco, mesmo com arranjos criados por diferentes
integrantes do grupo (o pianista Paulo Pauleli, o violonista Lula Galvão, o
pianista Fábio Torres e um a oito mãos, por Torres, Pauleli, Celso de Almeida e
a própria Rosa). Arranjos que, mesmo tendo à frente a voz de Rosa Passos,
expõem com extrema delicadeza a sonoridade de cada um dos instrumentos, por
vezes se alongando para permitir solos que remetem à improvisação típica do
jazz.
Assim, músicas conhecidas como Eu sei que vou te amar, Atrás da porta, Preciso
aprender a ser só, Por causa de você e Nosso momentos ganham novos contornos e
dimensões, em registros nada óbvios. Por isso, Romance também tem importante
função: ao longo das 12 faixas que compõem o álbum, Rosa Passos demonstra que
não é somente boa vocalista de bossa. Seu talento extrapola o nicho a que, de
certa forma, nos acostumamos a limitá-la.
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