Uma falha lamentável (nossa) aqui nesse espaço, foi não noticiarmos o falecimento de Maria José Gonzaga na madrugada da última quinta-feira. A cantora Zezé Gonzaga, nome artístico com qual se tornou conhecida, foi uma das mais perfeitas intérpretes de toda a história de nossa música popular e uma das mais requisitadas das estrelas da fase áurea da Rádio Nacional.

Nascida na cidade mineira de Manhuaçu em 03/09/1926, Zezé morava no Rio de janeiro desde a juventude onde veio a falecer aos 81 anos de idade (na madrugada do dia 23/07/2008), no Hospital Adventista Silvestre que não divulgou a causa de sua morte. Ao seu lado, até o fim, permaneceu o amigo e admirador de décadas, o compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho.

Foi Hermínio o responsável pelo projeto de /Entre Cordas/, o último trabalho de Zezé, lançado em fevereiro deste ano (são duas faixas gravadas para o CD e outras onze resgatadas de gravações que ele guardava, em que ela é acompanhada por músicos como Baden Powell e Raphael Rabello). O disco foi uma homenagem ao octogenário.

Com uma belíssima voz, uma afinação perfeita, uma interpretação sempre muito emocionada e um ótimo repertório, a “senhora” que começou a cantar aos 13 aos, em bailinhos e clubes, não queria mais estar no palco. "O que tinha que fazer eu já fiz", acreditava. Ela estava abalada desde 2003, quando sofreu uma queda ao subir a escadaria de um teatro, no Rio. O afundamento do osso esterno (no tórax) prejudicou sua respiração, o que atrapalhava seu desempenho. Perfeccionista, achava que não estava cantando como deveria. "Se não posso fazer bem, prefiro não fazer", repetia.

Muito mais poderia dizer aqui sobre Zezé Gonzaga. Entretanto, é melhor deixar para aquele que foi um dos seus grandes amigos e admiradores - Hemínio Bello de Carvalho - tais palavras (texto que segue, abaixo, reproduzido da capa do CD lançado pela gravadora Biscoito Fino em 2007, com o nome de “Entre Cordas”).

E, para aqueles que quiserem conhecer mais sobre essa maravilhosa cantora, há dois discos nunca lançados em CD no blog “Loronix”:

http://www.loronix.blogspot.com/ (“Canção do Amor Distante” – 1967 e “Valzinho, Um Doce Veneno” com o Quinteto de Radamés Gnattalli – 1979).

Como fonte de informação sugiro também o dicionário Cravo Albin:

http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_A&nome=Zez%E9+Gonzaga

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*ZEZÉ EM TEMPO VIRTUAL *

*Hermínio Bello de Carvalho – Set/2007

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*Na lenta idealização de um novo disco para Zezé Gonzaga, deparamo-nos com uma realidade quase dolorosa: ela não se sentia mais estimulada a gravar.*

Idêntico processo começou a ser vivido há umas quatro décadas, quando se via refém de fórmulas repetitivas que o mercado de discos lhe impunha. E, não esqueçamos, haviam sido lacradas, não muito simbolicamente, as portas da Rádio Nacional – onde reinava como a cantora preferida dos músicos e maestros daquela casa. O golpe de 64 atingiu muitas cabeças e gargantas. As cordas vocais de Zezé se retesam e quase lacrimejam lembrando aquela época. A decisão radical foi tomada, tempos depois : fechou a pequena agência de jingles que mantinha no Rio de Janeiro, juntou malas e cuias e foi cuidar de uma creche no Paraná.

Engavetara sua própria voz, e pensava que fosse para sempre.

O tempo virtual é aquele quase hipotético e irreal, que podemos construí-lo num processo de reengenharia, com tecnologias que nos permitem avançar num terreno próximo a science-fiction. Matéria prima não me faltava, acumulada em quase meio século: fitas cassete, de vídeo, de rolo, partituras – centenas de programas gravados na TVE (1976/1990, e alguns programas em 1994) – um mundo que mergulhara em arquivos empoeirados, verdadeiras jazidas de ouro onde a voz de Zezé, lâmina afiada, recusava-se a enferrujar. Foi nesse universo semi-virtual que mergulhei para fazer a prospecção do tesouro para celebrar os 80 anos da cantora, ela auto-exilada em seu pequeno apartamento perto da Praça da Bandeira.

Um artigo de meu querido Zuenir Ventura, que cita Umberto Eco, me faz refletir que este Entre Cordas é também um modestíssimo exemplo de obra aberta, “cuja pluralidade de significados permite que você tire dela o que quiser, não necessariamente o que o autor pretendeu mostrar”. Oferece, daí, “as leituras diversas, por vezes opostas” a que se refere o Mestre, citando um filme polêmico.

Na procura de dar definição às coisas, afirmaria que este “Entre Cordas” é mais que um CD áudio virtual, mais que um mini-documentário cuja visualidade caberá a cada um construir, descobrir sob sua particular ótica emotiva. Mas preferia que o vissem – sim, que o vissem – como semi-fotogramas holísticos, tendo Fernando Prado como piloto desse vôo. Trabalhamos com o espaço-tempo, que o potencializamos através da prodigalidade de novas mídias fornecidas pelas tecnologias mais avançadas. Um áudio-virtual, enfim.

O conceitual do projeto, “Entre cordas“, me parece óbvio destrinchá-lo: a voz de Zezé envolta em cordas dedilhadas, pulsadas, friccionadas ou apenas percutidas (como é o caso do piano de Radamés) – mas cordas para emoldurar as suas, vocais.

E lá fui eu escavucar a matéria prima nos portões de meu arquivo e no da TVE, ambos em processo de restauração – e que ainda não pode nos atender em momentos irreprisáveis: ela acompanhada por Rafael Rabello, pelo grande Radamés e seu Quinteto, ela cantando a capella no estúdio ou em minha casa, em apresentações gravadas em mídias jurássicas, algumas irrecuperáveis. Mas a tecnologia avançou, minhas velhas fitas VHS perderam o bolor, e lá estava a voz de Zezé, imperecível, com a categoria de sempre, e eu ao telefone narrando as peripécias das fitas passando por filtros regeneradores - e ela, do seu claustro, irredutível na sua decisão. Nem conto a ela um segredo: uma descoberta quase arqueológica, revelada por Luiz Otávio Braga: duas das canções (“Mulatinha” e ‘Isto é amor””) seriam absolutamente inéditas. Ele mesmo acompanhou Bororó nessas canções, num evento no Museu de Arte Moderna em 1977. Esse bloco, aliás, foi produzido a pedido de meu querido e saudoso Carlos Alberto Loffler para o programa “Lira do povo”, que ele dirigia. Minha intervenção, naquela faixa, se justifica : era eu o produtor e apresentador daquele quadro, por imposição de um dos maiores mestres da televisão brasileira.

Águas, batendo forte e constantemente nas pedras, acabam por perfurá-las.

O ditado eu o lembrei, cortando a Avenida Brasil, a caminho do Estúdio da Acari Records. Já estávamos no clima de transferência do campo virtual para as engenharias sonoras processadas de formas as mais sofisticadas, e já com Zezé acedendo em registrar apenas uma ou duas faixas, não mais do que isso ( “e sem fazer fotografias!”) para o novo disco que a Biscoito Fino programara para celebrar os 80 anos da cantora. Mas...por que ir gravar num outro estúdio? É que alguns cancelamentos e transferências de datas, não nos permitiram gravar Zezé nos novos períodos oferecidos pela Biscoito : Maurício estaria em Teerã, e, sem ele, Zezé não gravaria. E tinha um agravante : o Mauricio-compositor nunca estivera presente em seus discos, além de representar a comunidade de admiradores da Escola Portátil, uma das reservas ecológico-musicais onde espécimes raros, como Zezé Gonzaga, são cultuados. E gravar em Acari tinha uma outra vantagem : a companhia de Zeinha, esposa de Álvaro (a quem chamo de Carrilhão) e mãe de Maurício. Cozinheira de mão cheia, não se cabia em alegrias por receber Zezé. Lembranças de Nara Leão e Elizeth, presenças habituais em sua mesa. No dia em que escreverem a história do choro, há que se reservar um capítulo inteiro para Mãe Zeinha.

Essa documenta (a palavra não está dicionarizada) áudio-visual-amorosa teve a participação afetiva de muita gente, e todas elas constam dos créditos deste disco. Fernando Temporão, jovem músico e admirador de Zezé, foi designado pela Biscoito Fino, para ser o Assistente de Produção - e seu desvelo por Zezé me comove. Que não se esqueça o engenheiro de som, Jota Souza, que veio-e-levou-e-trouxe as fitas VHS para São Paulo num esforço de recuperação, esguichando lágrimas cada vez que o nome de Zezé era pronunciado. Martinho Filho amplia o sonho : por que não uma faixa interativa dela com Rafael? E Kati de Almeida Braga e Olívia Hime aprovam.

Uma crônica do Veríssimo, falando de sua comovente intervenção no filme do “Brasileirinho”, acho que abalou as estruturas de Zezé e me ajudou a levá-la, em seguida, ao Estúdio da Biscoito para uma suposta audição de parte do “Entre Cordas”. Cometi uma pequena traição, pedindo ao Fernando que deixasse os microfones ligados. Afinal – não me sinto produzindo um disco, mas vivendo num mundo virtual, dirigindo um documentário também virtual, quase science-fiction.

Zezé a temos perto de nós, ainda e por muito tempo. É, afinal, uma menina de 81 anos. Cuidemo-nos para preservar seu brilho, polindo, com esmero, sua permanente luminosidade.

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