"Riachão, o sambista feliz"  é o título da excelente matéria do Cláudio Leal 
para o Terra Magazine, do portal Terra.

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Transcrição, em seguida.

Caio Tiburcio

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Terça, 26 de agosto de 2008, 07h04  Atualizada às 21h28
Riachão, o sambista feliz

Claudio Leal
O sopro da morte não dobrou Riachão. Numa rodovia do Rio de Janeiro, o sambista 
baiano perdeu a esposa, dois filhos, uma nora e um genro. Início de 2008, e um 
acidente automobilístico levava metade da família. Em sua roça, no bairro do 
Garcia, Clementino Rodrigues (no batismo), 86 anos, se guardou do mundo. 
Riachão beirando a dor.
Era um isolamento de entristecer os que testemunham seu andar fagueiro e 
amaciado, a ginga de malandro saudada em bares e esquinas de Salvador. Cortesia 
cotidiana registrada num samba: "No Garcia, eu ouço assim: É vai, Riachão! No 
Campo Grande, eu ouço assim: É vai, Riachão!..."
Homem de não se envolver com qualquer réstia de infelicidade, ele retorna ao 
sorriso para contrariar "a lágrima clara sobre a pele escura", na síntese 
etérea do samba por Caetano Veloso.
- Pra mim, não tem tristeza. Mesmo uma música sendo triste, eu tô cantando com 
o coração alegre.
Azar. O coração do malandro às vezes falseia, e entrega a saudade da esposa 
Dalvinha:
- Você me perdoe: até hoje, ainda choro. Sem querer. Eu sei que vem assim de 
repente, não sei me lembrar, aí vem a dor. Jesus Cristo me deu um conselho: 
quando chegasse essa crise, que eu me lembrasse de meu pai e de minha mãe.
Quem lê estas palavras, e o conhece das ruas e dos palcos, até estranha. 
Compositor de "Cada macaco no seu galho" e "Vá morar com o diabo", Riachão faz 
da alegria um motor inconsciente. De suas músicas não brota a melancolia 
adocicada dos amigos Batatinha (1924-1997) e Ederaldo Gentil. Nunca lhe saiu um 
samba de fazer gemer Nelson Cavaquinho, esse anjo da morte. Que outros gostem 
de se enroscar em mágoas. Riachão contempla e nos reporta a beleza mansa das 
ruas.
Ouçam Batatinha, em "O Circo":
"Todo mundo vai ao circo
Menos eu, menos eu
Como pagar ingresso
Se eu não tenho nada
Fico de fora escutando a gargalhada..."
Abram alas pra Riachão, com "Camisa molhada":
"Onde eu cheguei, está chegado
Se agrade se quiser
Onde eu cheguei, está chegado
Se não gosta de mim, dê no pé".
Que escolham.
Gravado por Jackson do Pandeiro, Caetano, Gilberto Gil, Cássia Eller, Dona 
Ivone Lara, Tom Zé, entre outros, o sambista do Garcia não tem intimidade com 
estúdios. Em 2000, parte de sua obra saiu no precioso Cd "Humanenochum", graças 
ao empenho e sensibilidade dos produtores Paquito (colunista de Terra Magazine) 
e J.Veloso. A dupla já havia produzido "Diplomacia", de Batatinha, um registro 
histórico-musical de cair bem ao lado de Cartola.
Representante de uma geração de sambistas que ainda inclui Panela e Tião 
Motorista, Riachão relata as dificuldades para gravar um disco:
- Meu filho, por incrível que pareça, sou malandro velho, da velha guarda. Mas 
ao se tratar de eu mesmo, minha pessoa, muito mal um, dois! Contando parece 
mentira. "Samba da Bahia", o mais comercializado. E o Cd agora. Aliás, o Cd nem 
foi tão oficializado para o comércio, porque foi ajudado pelo governo.
O Cd foi vendido em lojas de discos e durante shows. Em 2001, o músico 
protagonizou o documentário "Samba Riachão", de Jorge Alfredo - gravado em 
grande parte nos bastidores do "Humanenochum" -, que venceu o prêmio de melhor 
filme no 34° Festival de Brasília. Nem a fita mudou o estado de sua arte. 
Pretende gravar um novo disco, com sambas velhos, mas alega faltar apoio.
Outros tantos sambas se perderam na memória do sambista citadino. Cenas urbanas 
lhe inspiravam crônicas musicais deliciosas, cantadas na Rádio Sociedade da 
Bahia - a mesma emissora em que Dorival Caymmi iniciou a vida profissional. 
Algumas dessas criações de circunstância sobreviveram ao tempo e ao próprio 
Riachão. Uma delas é a "Baleia da Sé", sobre uma exposição inusitada no Centro 
de Salvador:
"Eu vi o caminhão da baleia
Eu vi o cabeção da baleia
Eu vi o barrigão da baleia
Eu vi o umbigão da baleia
Eu vi o rabão da baleia
Só não vi uma coisa - diz! - da baleia."
Em entrevista a Terra Magazine, Riachão explica como nascem seus sambas (aviso 
prévio: Jesus é seu parceiro), recorda a passagem do cronista e compositor 
Antonio Maria pela Rádio Sociedade, na década de 40, e dá notícias de sua 
horta, no quintal mais vasto do samba.
***
Terra Magazine - Nasceram sambas novos?
Riachão - Não, por enquanto eu tô naquela base do samba de velha guarda. Sambas 
mais velhos.
Mas outro dia o senhor disse que tinha sambas novos, só faltava gravá-los.
Apenas eu queria fazer uma repetição das músicas gravadas. Por exemplo, eu 
tenho "Sonho do malandro", já gravado, "O samba da Bahia", já gravado... Queria 
regravar. A minha conversa aqui com os amigos é essa. Fazer uma regravação das 
músicas que eu já gravei. Sair do LP para o Cd.
Foi gravado há alguns anos um Cd produzido por Paquito. E sua carreira, como 
seguiu?
Fiquei na mesma de um artista da velha guarda. Eles sempre me encontraram em 
atividade. Só teve de mais que eu nunca tinha feito um Cd. E nele tinha músicas 
que eu já tinha gravado. Quer dizer, a minha vida ficou a mesma coisa: é 
alegria, samba e levando o barco pra frente. Tô sempre pronto pra isso. Outro 
dia, voltei da Alemanha. Tô nesse metier aí.
Como foi na Alemanha?
Fui cantar, sambar! (risos) Em dezembro passado.
Os alemães mandam bem no samba?
Assistem quem gosta de sambar! (risos) Um povo que eu gostei muito. Aliás, eu 
não tenho o que falar desse povo lindo. São muito educados, alegres, não 
entendem bem as nossas coisas, mas têm um sorriso nos lábios.
Quantos discos o senhor já lançou?
Meu filho, por incrível que pareça, sou malandro velho, da velha guarda. Mas ao 
se tratar de eu mesmo, minha pessoa, muito mal um, dois! Contando parece 
mentira. "Samba da Bahia", o mais comercializado. E o Cd agora. Aliás, o Cd nem 
foi tão oficializado para o comércio, porque foi ajudado pelo governo. Não foi 
uma gravação oficializada comercialmente falando. Porque eu entendo que o 
disco, o Cd, lançado pra comércio não tem participação de governo. Não tem. 
Portanto, lançamento comercial só teve um, o "Samba da Bahia". O outro foi com 
Paquito, com apoio do governo. E teve o de um banco, "Sonho de malandro", disco 
promocional. Então, eu sou um velho malandro que não teve essa sorte pra ter 
muitas músicas, muitos discos gravados, não. E tenho muita música. Agora, dos 
artistas do Brasil, muitos gravaram minhas músicas.
Até Cássia Eller.
E foi iniciado por Jackson do Pandeiro.
Jackson pediu a música?
Jackson Pandeiro - aliás, todos os artistas do Rio de Janeiro - era convidado 
pela Rádio Sociedade da Bahia. Eu era artista da rádio. Esses artistas que 
vinham do Rio, eu entrava em contato com amizade porque também ia cantar. Nós, 
da Bahia, abríamos o programa e eles encerravam. Mas ali, você sabe, artista 
chegou, tem um bate-papo, conhece um, dois e outro. E daí nasce a amizade. O 
Jackson do Pandeiro foi o seguinte: a Rádio Sociedade da Bahia ia queimar um 
Judas. Até Judas a Rádio Sociedade da Bahia já queimou.
Quem era o Judas daquele ano?
(risos) Eu não sei lhe explicar. Sei que a Rádio Sociedade queimou Judas na 
Praça da Sé (Centro de Salvador). Por causa disso, ela fez o convite ao nosso 
querido Jackson do Pandeiro. E eu não conhecia ele, não, viu? Não conhecia 
pessoalmente. Conhecia o nome de seus sucessos. Resultado: o desfile saía do 
Campo Grande até a Praça da Sé. Quando eu estou em cima do caminhão, cantando 
para trazer a chama do público, Jackson do Pandeiro também estava ali, sentado 
mais Almira, a esposa dele. Não conhecia eles dois. Mas a Rádio Sociedade 
sempre me colocava pra fazer a animação das coisas. Tenho o título de "Riachão, 
o cronista musical da cidade", tudo que acontecia eu chegava no rádio e 
cantava... Como a Rádio ia queimar o Judas, Jesus me mandou um samba, "Judas 
traidor". Resultado: estou cantando este samba, Almira de Jackson estava junto 
de mim, sentada, daqui a pouco os dois estavam cantando a mesma música. Aí foi 
uma alegria, nasceu nossa amizade. Continuei cantando. Quando acabou, fiquei 
sabendo que era ele. Por causa disso, depois dos programas do rádio, levei ele 
em casa, ficamos amigos. Pra ele pegar uma feijoada lá comigo. Resultado: deu 
pra ele ser o primeiro malandro que gravou para mim.
Como é que era o "Judas Traidor"?

(canta) "Vamos ver queimar Judas Traidor
Vamos gargalhar na hora da dor
Saindo do Campo Grande,
Desfilando a pé
Quero ver bem menino
Quer ver bem mulher
Todo mundo sambando
Na Praça da Sé, na Praça da Sé...

Ele gravou isso uma maravilha, só você vendo. Ele gravou "Judas Traidor", "Meu 
Patrão", um grande sucesso carnavalesco, e "Saia rota". Três músicas que ele 
gravou pra mim. O primeiro malandro a gravar minhas músicas foi Jackson do 
Pandeiro.
Quando fala em malandro, está se referindo ao malandro da década de 40. Qual é 
a diferença pro atual?
Quando eu falo em malandro, falo na velha guarda, que tem sentimentos musicais 
do nosso tempo. É assim Pandeiro, Moreira da Silva, o nosso querido malandro 
Orlando (Silva), aquela turma do passado.
Você tem um samba preferido?
Menino, vou dizer pra você: gosto de todas as minhas músicas. Agora, fico 
notando o que é que o povo gosta, né? Por exemplo, "Cada macaco no seu galho", 
o povo gosta muito: "Xô, chuá! Cada macaco no seu galho! Xô, chuá! Eu não me 
canso de falar/ Xô, chuá! O meu galho é na Bahia/ Xô, chuá!/ O seu é em outro 
lugar!". Esse samba, então, marca na minha vida porque foi a música que Caetano 
Veloso e Gil encontraram pra recomeçar a vida deles no Brasil, quando voltaram 
do exílio. Para mim, é uma grande glória eles escolherem "Cada macaco no seu 
galho" pra recomeçar as vidas deles.
Vinicius de Moraes defendia que tinha que haver tristeza pra fazer um samba. 
Pra você, tem que ser triste?
Não. Por exemplo, as minhas músicas não sou eu quem faço, é Jesus que me manda. 
Elas vêm assim, na hora tudo vem do céu. Tanto faz o caso ser triste ou ser 
alegre, é ele que me manda na hora dos acontecimentos. Pra mim, não tem 
tristeza. Mesmo uma música sendo triste, eu tô cantando com o coração alegre 
(risos).
Seus sambas registram momentos alegres.
Cheguei lá na Alemanha cantando "Somente ela", a música que estava no meu 
coração, porque a minha Dalvinha, né?, que agora vocês já souberam aí que Deus 
levou, ela se acabou no Rio de Janeiro. Uma das músicas que eu gostava bastante 
era por causa dela.
(canta) "Somente ela
Se estou com ela
minha vida é um paraíso
Somente ela
Se estou sem ela
desassossega o meu juízo
De manhã é ela
Meio-dia é ela
De tarde é ela
De noite é ela
Madrugada é ela
Amanhece o dia
Eu e ela"

Então, isso foi o que mais tocou no meu coração por causa de minha Dalvinha.
Às vezes você compõe um samba e esquece?
Me esqueço. Já perdi não sei quantas músicas. Eu já contei, no tempo do rádio, 
500 músicas. E hoje não sei por onde elas andam, estão voando no tempo e eu não 
me lembro mais do princípio, nem nada. (risos)
Houve um pra imprensa que terminou perdido...
Foi. Esse mesmo eu fiz no coração, não me lembro nem o princípio desse samba. 
Não queria esquecer um samba desse porque a imprensa, para mim, depois de Deus, 
é o ponto alto da vida artística do malandro. A imprensa é uma maravilha para 
mim. Penso assim. Gostaria de estar com esse samba que Jesus mandou enaltecendo 
a imprensa, mas, meu irmão, fugiu de mim que não há jeito de eu me lembrar nem 
de como foi o início. Foi o mesmo com o samba que eu não conseguia me lembrar, 
quando o Brasil ganhou a primeira taça. Cantei muito no rádio, mas, com 
sinceridade, não me lembro mais também. Eu sei que tinha no samba um lance que 
eu gritava: "Gooooooooooooooool". No ritmo do samba. Era o gol de Pelé. Mas eu 
sinto, meu irmão... Não está mais em mim este samba em homenagem à nossa 
seleção.
O senhor cantava muito em clubes e boates noturnos. Como era cantar no Tabaris, 
em Salvador (fechado em 1968)?
O Tabaris tinha seus programas, mas era com essas músicas mesmo. Era "Cada 
macaco no seu galho", "Vá morar com o diabo", e outros sambas mais, até 
gravados. Era uma maravilha, uma madrugada linda aquele Tabaris, logo em que 
praça? Do nosso grande Castro Alves, né?
Como é que o senhor compõe? O samba "baixa" e aí corre pro papel, em casa?
É, ele vem à minha mente. Depois eu coloco no papel pra não esquecer aqueles 
versos. E ali fico pelejando, Jesus me ajudando, até que ele fica na mente. Vem 
do céu, vem na mente, eu boto num papelzinho, pra não perder. Mesmo assim, é 
como eu tô lhe dizendo. Houve um incêndio na rádio há muitos anos e me parece 
que o rolozinho do samba estava ali naquele lugar, pegou fogo (na Rádio 
Sociedade). Perdi muitos sambas.
O Batatinha era seu parceiro de roda de samba, mas o senhor não compôs com ele, 
certo?
Composição com ele? Não tenho. Mas era meu grande amigo, do meu coração, hoje 
está lá com Jesus. Viajamos juntos... uma ligação cristã, só você vendo. Agora 
mesmo houve um movimento com ele aqui, uma homenagem pra ele. O filho dele veio 
aqui em casa, fez uma reportagem. Mas no dia da festa houve qualquer coisa que 
eles não vieram me buscar. Não sei o que foi. Fiquei esperando aqui. Eles me 
convidaram, mas não vieram me buscar.
O estilo de Batatinha era muito diferente do seu.
Ah, muito diferente. Aquela tristeza, aquela coisa mais calma. Mas ele tem umas 
coisinhas gostosas, no jeito da voz dele. Ele é mais calmo. Tem coisas boas, 
mas é aquele malandro calmo.
Quem é que você ouvia ainda pequeno?
Olhe, eu vou dizer a você com franqueza: nos tempos passados, não existia 
rádio. E as músicas do Rio de Janeiro - logo quando iniciaram, faziam vitrola - 
vinham naqueles discos imensos. Isso nas casas dos que tinham condições. Porque 
a Bahia, tempo passado, era uma pobreza imensa. Uma pessoa ou outra que tinha 
radiola. Então, os meninos com esse dom dado por Deus ficavam na casa do 
vizinho escutando as músicas da vitrola. Foi meu caso. Escutava as músicas 
daqueles grandes cantores da velha guarda. Nasci com esse dom, fui aprendendo, 
e comecei a cantar nos aniversários as músicas do Rio de Janeiro. Eu não me 
lembro nem muito delas, compreendeu? Ainda tem uns versinhos assim que eu me 
lembro: "Ô, trepa no coqueiro, tira coco, gipe gipe macambira olirá, ô trepa no 
coqueiro tira coco... Papai, cadê Maria? Maria foi passear! O passeio de Maria, 
faz papai, mamãe chorá, oooiii... trepa no coqueiro..." (Trepa no Coqueiro, de 
Ari Kerner V. de Castro, 1930). Eram essas coisas gostosas que eu ouvia na 
vitrola. Fui tomando o gostinho, lá fui minha vida. Estou aqui nessa idade e 
cantando os meus pagodes também.
Quem era sambista na Bahia?
Naquele tempo foi Dorival Caymmi, um dos pioneiros da Rádio Sociedade da Bahia, 
e Chico Fulô e Zé Trindade, naquela base da crônica de humor. Eram os artistas 
de quando eu era menino. E outros mais que eu esqueço o nome.
Você trabalhou com o músico e cronista Antonio Maria na Sociedade?
Trabalhei, a essa altura eu já estava no rádio. Entrei na década de 40 e 
Antonio Maria chegou também nessa década (transferido pelos Diários 
Associados). Porque o diretor que eu entrei com pouco tempo foi pra São Paulo. 
Eu até gostaria que você me desse uma notícia. Mota Neto tá vivo ou tá morto? É 
de São Paulo. Menino, eu estive em São Paulo e não teve quem desse uma 
resposta, se ele tá vivo ou morto. Lá no Rio de Janeiro a turma também não me 
dava. Mota Neto, paulista. Foi ele quem me empregou na Rádio Sociedade da 
Bahia. Fui procurar fazer um teste e ele gostou muito de mim por causa de 
minhas músicas. Eu tocava música sertaneja.
Com Sabiá (cantor baiano)?
Nesse tempo eram outros companheiros. Aí ele gostou muito e me colocou na 
Rádio. Depois, quando Antonio Maria chegou, houve um problema comigo e um 
companheiro por causa da falta de responsabilidade. Na hora do programa, o 
companheiro... Eu também tomei muita cachaça, mas era responsável. No início do 
programa, fui buscar ele, que estava bêbado, não pude abrir o programa de 
manhã. E disse a Antonio Maria que não podia abrir o programa porque o 
companheiro estava cheio de cachaça, não podia ir. Antonio Maria, que vinha me 
acompanhando ali, devagarzinho, nos meus momentos com os companheiros, sentia 
em mim que não era somente sertanejo, era sertanejo e samba de morro. O que ele 
me disse? "A partir de hoje, você não vai trabalhar mais com dupla. Você vai 
trabalhar sozinho, porque tem capacidade." Foi Antonio Maria que me fez um 
cantor único pra me apresentar.
Ele foi embora da Bahia depois que um orador popular, Jacaré, esculhambou com 
ele. Era candidato a vereador, e perdeu.
Não tô por dentro dessa jogada, não. Eu sei que ele veio pra Bahia e eu gostei 
muito. Fiquei encantado com Antonio Maria. Um bom amigo, só você vendo. Dr. 
Mota Neto também foi uma maravilha!
Qual é o sambista, hoje, que você acompanha e admira? O que acha da música 
produzida pelos sambistas mais jovens?
Olha, garoto, a minha vida é o seguinte: no meu pensamento, cada macaco no seu 
galho. Eu tenho um jeito de trabalhar, Batatinha tinha um jeito de trabalhar, 
outro malandro aqui tem seu jeito de trabalhar. Então, eu acho que tá tudo 
certo. Todo mundo é artista, todo mundo canta, todo mundo tem seus fãs, tá tudo 
certo. Pra mim. Tanto faz Velha Guarda como mocidade. Porque todo mundo tem 
seus fãs. O artista é chita na loja. Assisti, numa ocasião, numa loja... Chegou 
uma moça, pegou a fazenda, olhou, iihhhhhhhhh, desconjurou, cara feia, jogou o 
pano assim. "Xi! Que negócio horrível! Vou querer isso nada!". Daqui a pouco 
chegou outra... só faltou beijar essa mesma fazenda. Só você vendo! Foi pro 
balcão e comprou. Eu tiro uma conclusão: o artista é chita na loja. Uns gostam, 
outros não.
Mas não têm o mesmo espaço. A velha guarda não tem espaço na TV, no rádio...
Não tem, não. Para a vivência de hoje, a velha guarda ficou um pouco renegada. 
Porque as pessoas vão morrendo... O que esses meninos novos querem? As transas 
deles. Os velhos que admiravam os velhos vão morrendo... A velha guarda vai 
perdendo seus fãs. Essa é que é a dura realidade. Os poucos que estão aí em 
cima da terra, quando ouvem, ficam satisfeitos com aquilo que está ouvindo da 
velha guarda. Meus sambas são do tipo aí dos grandes sambistas do Rio de 
Janeiro. Quer dizer, é esse sentimento antigo que ainda está valendo pras 
pessoas de certa idade, tanto na Bahia como no Rio de Janeiro. O sentimento 
musical da antiga é sempre completamente diferente da jovem guarda.
Quando você passa pela cidade, as pessoas ainda brincam, bolem contigo...
(risos) Isso é uma beleza!
O que te dizem?
Ô, menino, eu me sinto feliz quando eu passo e as pessoas gritam meu nome. 
Riachão! Ou se lembram do meu trabalho. Uns gritam a palavra do samba: "Cada 
macaco no seu galho!", "Somente ela!", "Quem chega na Praça Cayru...". Ah! Cada 
um grita uma coisa. Baseado nos sambas que eles ouvem, entendeu? Isso pra mim é 
uma alegria, vivo muito feliz por causa disso.
O senhor canta muito sozinho quando anda na rua?
Ah, eu canto, amigo! Minha vida é cantar. Às vezes eu entro num ônibus e já vou 
dizendo assim: "Somente ela...!". Aí pronto. Começa a brincadeira! Às vezes o 
próprio motorista já vai dizendo: "Xô, chuá! Cada macaco no seu galho...". Eta! 
É uma maravilha. Eu fico feliz.
E sua horta, como é que vai?
É o seguinte: desde criança eu vivo com meu pai aqui, neste quintal. 
Antigamente, era maior. Meu pai já morreu, aí diminuiu muito. Mas com o 
pedacinho de terra que ainda tenho eu continuo a mesma coisa que fazia com meu 
pai. Se você chegar aqui em casa, só me encontra com um facão de lado, lá 
embaixo na roça, compreendeu? A minha coisa é essa. Desço de manhã e só subo de 
tarde. Hoje eu subi mais cedo porque você tinha esse trabalho comigo. Quase 
sempre, chego aqui dentro de casa às 17h30, 18h. Lá na roça, só você vendo! 
(risos)
Como é que você se recuperou depois da morte de sua família?
Ah, meu irmão, não tá mole, não. O caso é... Você me perdoe: até hoje, ainda 
choro. Sem querer. Eu sei que vem assim de repente, não sei me lembrar, aí vem 
a dor. Jesus Cristo me deu um conselho: quando chegasse essa crise, que eu me 
lembrasse de meu pai e de minha mãe. Estou fazendo isso. Quando eu me lembro da 
Dalvinha, que vem assim subindo a crise de choro, eu passo a me lembrar de meu 
pai e de minha mãe, como Jesus mandou e me ensinou, e vou recuperando a força. 
Cada dia que passa estou recuperando mais esse sofrimento. A dor foi muito 
grande! Foi meia família que eu perdi. Meia família!
Numa estrada...
Uma estrada que tem aí no Rio de Janeiro... Meu filho convidou ela pro noivado 
dele e o Réveillon. Ela foi, levou a outra filha, com o genro, e o resultado é 
que todos eles se acabaram nessa estrada. O próprio filho que convidou. Ela, a 
filha, o genro e a própria namorada do filho que estava lá no Rio de Janeiro. 
Uma coisa triste.
Como é que...
Cada dia que passa, estou recuperando mais a coisa. Mandei cancelar vários 
shows que tinha no Rio de Janeiro e São Paulo, até passar um pouquinho o tempo. 
É como eu tô lhe dizendo: ainda choro. Um negócio horrível. Quem esperava uma 
coisa dessa?
E o Riachão, na juventude, era brigador?
Sempre digo na reportagem: esse nome Riachão, quando a gente era menino, 
existia pro pessoal que brigava muito. A minha família é de Santo Amaro. O povo 
de Santo Amaro sempre foi amigo, mas era valente. E tinha esse lado de os 
homens que brigavam muito serem chamados de Riachão. E eu era um menino que 
brigava muito. Quando criança. Mas não desrespeitava, não, era um menino com 
outro. Eu tinha a idéia de que o menino tinha que respeitar o mais velho.
Senão levava uma surra de cachorro morto...
Ah, é! E eu ficava nessa aí de querer consertar o mundo. Brigava muito com as 
crianças. Quando os mais velhos - sejam eles parentes ou não - me viam brigando 
com a criança, gritavam: "Não briguem com esse menino! Eu já disse a você: esse 
menino é danado, esse menino é um Riachão!" (imitando a voz) Era aquela 
coisa... Eu largava a criança, porque tinha que respeitar o mais velho, e saía 
correndo... Daí esse nome, as pessoas mais velhas diziam. Eu aí percebi que 
Riachão era uma coisa forte. Fiquei com essa vaidade, com esse nome e 
prossegui, aceitando, com esse ranço de valentia. Porque eu briguei muito. 
Conservei esse nome na vida artística. Aliás, eu não devia nem conservar, viu?
Por quê?
Por causa de confusão, barulho, pegou esse nome. Eu não gosto de agressão. Meu 
caso hoje é amor, muito carinho e, quando eu me lembro que o Riachão nasceu por 
causa de briga, fico assim meio triste. Queria que nascesse o Riachão sabe 
como? De um homem que nadasse... Por desacerto, nem nadar eu sei! Queria que me 
chamassem de Riachão porque eu fosse um elemento que atravessasse o rio assim 
nadando... no mar... Que aí me chamassem de Riachão. Ficaria mais feliz (risos).
Obrigado, viu, Riachão?
Ô, meu filho! É pena eu não ter aquele samba em homenagem à imprensa, pra eu 
cantar finalizando... Se eu tivesse lembrança!
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