:) rss... Abraços> Date: Thu, 13 Nov 2008 15:15:14 +0100> From: [EMAIL
PROTECTED]> To: [EMAIL PROTECTED]> CC: [email protected]> Subject: Re:
Cuba...Brasil> > Não entendi pilcas. Profundo demais pra mim.> > JLV> > Melissa
de Araujo Borges escribió:>> JLV...>>>> Nunca "Rubem Alves" foi tão feliz em
sua explanação, quanto a seu >> comentário só resta essa resposta...>>>>
Escutatória>>>> Por Rubem Alves>>>> Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de >> escutatória.>>>> Todo mundo quer aprender a
falar. Ninguém quer aprender a ouvir.>>>> Pensei em oferecer um curso de
escutatória. Mas acho que ninguém vai >> se matricular.>>>> Escutar é
complicado e sutil.>>>> Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego
para ver as >> árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia
nenhuma". >> Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são
as >> coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora >>
da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é >> colocar
dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque >> as janelas
dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A >> gente não é
cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas >> delas - entram e caem
num mar de idéias. São misturadas nas palavras >> da filosofia que mora em nós.
Perdem a sua simplicidade de existir. >> Ficam outras coisas. Então, o que
vemos não são as árvores e as >> flores. Para se ver é preciso que a cabeça
esteja vazia.>>>> Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos
para se >> ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da >>
alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz >> sem
logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo >> que a
gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de >> descansada
consideração e precisasse ser complementado por aquilo que >> a gente tem a
dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais >> às duas mulheres do
ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por >> Murilo Mendes: "Há quem não
ouça até que lhe cortem as orelhas". Nossa >> incapacidade de ouvir é a
manifestação mais constante e sutil da nossa >> arrogância e vaidade: no fundo,
somos os mais bonitos...>>>> Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para
os Estados Unidos, >> estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não
>> "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja >>
Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência >> com
os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, >> ninguém
fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de >> iniciar o
concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, >> como se estivessem
orando. Não rezando. Reza é falatório para não >> ouvir. Orando. Abrindo vazios
de silêncio. Expulsando todas as idéias >> estranhas. Também para se tocar
piano é preciso não ter filosofia >> nenhuma). Todos em silêncio, à espera do
pensamento essencial. Aí, de >> repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.
Terminada a fala, novo >> silêncio. Falar logo em seguida seria um grande
desrespeito. Pois o >> outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava
essenciais. >> Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos.
Comida que >> é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para
entender o >> que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as
possibilidades. >> Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade,
não ouvi >> o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu
>> iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você >> não
tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que >> você falou
como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha >> para mim. Tanto que
nem preciso pensar sobre o que você falou". Em >> ambos os casos estou chamando
o outro de tolo. O que é pior que uma >> bofetada. O longo silêncio quer dizer:
"Estou ponderando >> cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a
reunião.>>>> Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz
alguns >> anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e >>
algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. >> Era
uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no >> chafariz
onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de >> silêncio, não total,
mas de uma fala mínima. O que me deu enorme >> prazer às refeições. Não tinha a
obrigação de manter uma conversa com >> meus vizinhos de mesa. Podia comer
pensando na comida. Também para >> comer é preciso não ter filosofia. Não ter
obrigação de falar é uma >> felicidade. Mas logo fui informado de que parte da
disciplina do >> mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7
da manhã, >> ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O
lugar >> sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. >>
Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de >> várias
cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas >> velas sobre o
altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. >> Uns poucos bancos
arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no >> centro, onde quem
quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um >> tapete. Cheguei alguns
minutos antes da hora marcada. Era um grande >> silêncio. Muito frio, nuvens
escuras cobriam o céu e corriam, levadas >> por um vento impetuoso que descia
dos Alpes. A força do vento era >> tanta que o velho celeiro torcia e rangia,
como se fosse um navio de >> madeira num mar agitado. O vento batia nas
macieiras nuas do pomar e o >> barulho era como o de ondas que se quebram.
Estranhei. Os suíços são >> sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém
tomava >> providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. >>
Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o >> hino...
Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que >> eu, estúpido,
percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As >> pessoas estavam lá
para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me >> alimentar de silêncio
também. Não basta o silêncio de fora. É preciso >> silêncio dentro. Ausência de
pensamentos. E aí, quando se faz o >> silêncio dentro, a gente começa a ouvir
coisas que não ouvia. Eu >> comecei a ouvir.>>>> Fernando Pessoa conhecia a
experiência, e se referia a algo que se >> ouve nos interstícios das palavras,
no lugar onde não há palavras.>>>> E música, melodia que não havia e que quando
ouvida nos faz chorar.>>>> A música acontece no silêncio.>>>> É preciso que
todos os ruídos cessem.>>>> No silêncio, abrem-se as portas de um mundo
encantado que mora em nós >> - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa,
que Debussy musicou.>>>> A alma é uma catedral submersa.>>>> No fundo do mar -
quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada.>>>> Somos todos olhos e
ouvidos.>>>> Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da >>
experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala.>>>> Aí, livres dos
ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos >> a melodia que não
havia, que de tão linda nos faz chorar.>>>> Para mim Deus é isto: a beleza que
se ouve no silêncio.>>>> Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza
mora lá também.>>>> Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se
juntam num >> contraponto. >>>>>> Obs: É só uma questão de praticar, quando
falamos, gostamos de trocar >> idéias, e que sejamos ouvidos, é o que fazemos
numa Tribuna , quando >> vários amigos dizem seus comentários, eles esperam que
outros aprendam >> e troquem informações, é só isso que queremos.>>>>>>
Grata.>>>>>>>>>>
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