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> Extraído da revista do SESC-SP nº 143
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> Fonte: 
> http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=338&Artigo_ID=5248&IDCategoria=6017&reftype=2
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> Pronto para o Caos
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> O compositor e multinstrumentista Heraldo do Monte fala sobre a paixão pela 
> música que, segundo ele, o “escraviza” desde menino
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> A lembrança musical mais antiga de Heraldo do Monte, nascido em Recife, em 
> 1935, foram as melodias de Asa Branca, de Luiz Gonzaga, e de Oh, Suzana, 
> canção folclórica norte-americana, “tiradas” numa gaita de boca “a ponto de 
> enlouquecer a família”, conforme contou em depoimento à Revista E. O 
> interesse pelas notas, no entanto, se revelaram mais do que uma brincadeira 
> de menino e, pelas mãos do maestro Mário Câncio, do Monte integrou a banda da 
> escola. O instrumento, então passou a ser, a clarineta. “Aos poucos, fui 
> comparando minha facilidade musical com outras pessoas e tive consciência de 
> que eu seria escravo daquela paixão”, diz o músico e compositor. A partir das 
> partituras do instrumento de sopro foi aprendendo a as cordas que o tornariam 
> famoso. A vida profissional começou na noite, primeiro em Recife e em seguida 
> em São Paulo, para onde se mudou aos 21 anos. Tocando ao lado de figuras como 
> Walter Wanderley, Dick Farney e Dolores Duran, além de integrar a Orquestra 
> da TV Tupi, do Monte foi diversificando o interesse musical. “Como não sei 
> tocar sem prazer, meu gosto foi ficando cada vez mais largo e sem 
> preconceito. Mas tem uma restrição: musica mal feita”, alerta. Em 1966 entrou 
> para o Trio Novo, ao lado de Airto Moreira e Theo de Barros, que em seguida, 
> com Hermeto Pascoal, se tornaria o Quarteto Novo – cujo primeiro disco foi 
> também sua estréia no estúdio. A seguir, Heraldo do Monte relembra os tempos 
> da gaita, do Quarteto Novo e conta que o prazer em tocar sempre foi a tônica 
> de seu trabalho. E avisa: “Isso faz com que, aos 74 anos – e sem nenhum 
> remédio – eu tenha uma pressão arterial de 11 por 7”.
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> Primeiros acordes
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> Meu primeiro contato com musica foi com pouca idade, ouvindo rádio e as 
> gafieiras do meu bairro em Recife. Não lembro como, me vi com uma gaita de 
> boca, com poucas oitavas e sem escala cromática. Comecei a tocar Asa Branca 
> [de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira] e Oh, Suzana [música do folclore 
> norte-americano] a ponto de enlouquecer a família. Estava começando uma 
> paixão, e a descoberta da musicalidade. Aos poucos, fui comparando minha 
> facilidade musical com outras pessoas e tive consciência de que eu seria 
> escravo daquela paixão. Pulando uns anos, estava eu no Pátio da Escola 
> Industrial de Pernambuco, quando um senhor falou: “Quem quiser entrar para a 
> orquestra da escola, faz fila ali!”. O senhor era Mario Câncio [1927-2008], 
> que foi aluno e depois regente da Orquestra Sinfônica de Recife. Minha 
> escravidão, voluntária e apaixonada, continuava.
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> Muitos alunos não conseguiram cantar afinado a escala de dó e foram 
> descartados, mas não esse seu amigo. Comecei, então, com o maestro Câncio um 
> prazeroso curso de solfejo [exercício para se aprender a ler notas] cantado. 
> Um tempo depois (essa história é bem conhecida), estava eu tentando tirar som 
> de uma requinta (pequeno clarinete em mi bemol.) e um outro aluno, o Demétrio 
> – justamente apelidado de Satanás – tinha colocado uma bolinha de papel 
> dentro do instrumento. Depois de um mês tentando, sem sucesso, tirar algum 
> som daquilo, pedi a Mario Câncio, quer era um tremendo fagotista. que tocasse 
> uma escala na requinta. Apitos, apitos, parecia que o maestro estava me 
> imitando. Até que descobrimos a “satânica” brincadeira. Demetrio Santos Lima 
> é hoje saxofonista da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e o 
> apelido continua o mesmo.
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> Sensações
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> Desde o começo, desde a gaitinha de boca, senti aquela sensação que 
> escraviza. É por ela que existem tantos músicos que não se preocupam com o 
> tal mercado de trabalho. Senti isso com as aulas de solfejo cantado, escritas 
> na hora, do maestro Mario Câncio. Prazer: isso é música. Por isso, eu falava 
> para os meus alunos uma frase que muitos acham estranha: “Só estudem quando 
> estiverem muito a fim!”. O pior que você faz é manipular sua música para ela 
> chegar até às pessoas. O publico quer saber o que está no seu coração, nada 
> mais!
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> Quarteto Novo
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> O músico Heraldo do Monte, que se apresentou, em março, nas unidades Carmo e 
> Pompeia.
> O Quarteto Novo começou como Trio Novo, organizado por Geraldo Vandré para 
> uma excursão pelo Brasil tocando para um desfile de moda da Rhodia baseado em 
> motivos brasileiros [em 1966]. Todos nós – menos o Hermeto Pascoal, que 
> entrou depois – em vez de pensarmos naquilo como um trabalho passageiro, que 
> acabaria com o fim do desfile, começamos a sentir que alguma coisa grande 
> estava surgindo. Durante a viagem, falávamos direto no Hermeto, para 
> completar o som. Assim foi. Fim das viagens, começo do Quarteto.
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> A gente queria criar uma linguagem de improvisação nova, baseada em motivos 
> brasileiros. Foi uma luta ficar livre da nossa formação, que era jazzística – 
> talvez pelo nosso trabalho de anos na noite – tocando esse gênero. Passamos 
> um ano ensaiando um repertório e um estilo. Evitávamos ouvir musica (aquele 
> negócio de pedir para o motorista do táxi desligar o radio etc.). Gravamos em 
> 1967, e não há nada gravado antes deste disco [cujo título era o nome do 
> grupo] que tenha coisas como uníssono de flauta e viola matuta, som com 
> acentuações de caveira de burro e improvisos com sotaque e escalas do 
> nordeste do Brasil.
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> Sempre digo que tem duas coisas especialmente importantes sobre o Quarteto: 
> primeiro que ele mudou o trajeto da vida dos envolvidos, nenhum de nós tem 
> dúvida disso; segundo que o Quarteto não tinha líder, por isso os arranjos 
> eram coletivos. Quando todos decoravam um trecho, alguém surgia com uma ideia 
> melhor e o trabalho recomeçava do zero! Às vezes, ouço alguém dizer que o 
> Quarteto era de um de nós apenas. Mas não é nada disso! As composições não 
> são, de fato, de quem está recebendo royalty por elas. Houve uma reunião para 
> fazer essa distribuição. As composições são de direito, não de fato.
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> A idéia da viola
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> Durante o boom da industria fonográfica, eu fui um studio man [em 1956]. Um 
> dia típico meu começava às nove da manhã comigo tocando um trecho flamenco de 
> 10 segundos no violão – que soava absolutamente falso – para um jingle de 
> alguma marca. Às 14h, estava acompanhando uma gravação de Waldik Soriano (que 
> estava sempre bêbado). Às 20h, passava para o cavaco para um grupo de samba. 
> Às vezes, emendava a madrugada com o dia seguinte. Às sextas-feiras estava eu 
> de guitarra na orquestra da TV Tupi, tocando os arranjos maravilhosos de Luiz 
> Arruda Paes. Nessa época também fazia muitos shows com o Zimbo Trio, Grupo 
> Medusa etc. Na época que eu tive que tocar viola [em meados dos anos 1960] o 
> instrumento não era visto com respeito. Havia um jeito “bossa nova-jazz” de 
> ser nas rodas de músicos urbanos e eu era um deles. Um músico urbano, com os 
> mesmos sentimentos dos meus colegas. Na viagem da Rhodia, eu tocava viola 
> porque sabia que logo acabaria o trabalho e voltaria a ser quem eu era, um 
> musico bossa nova-jazz. Quando começou o papo do Quarteto, durante a viagem, 
> tive muitas noites de insônia para aceitar a ideia da viola. Quando eu 
> finalmente aceitei, o trabalho mental e sentimental estava feito: sem deixar 
> de ser bossa nova-jazz, eu era também um violeiro!
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> E como não sei tocar sem prazer, meu gosto [por música] foi ficando cada vez 
> mais largo. Só que meu gosto largo e sem preconceito, mas tem uma restrição: 
> musica mal feita, fora da métrica, com harmonia que choca com a melodia e 
> vice-versa. Você não precisa ler musica, mas tem que ter um ouvido que acenda 
> luz vermelha em caso de erros, não é?
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> Personalidade
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> Minha personalidade é SPCT, (sempre pronto para o caos total.) E ela foi 
> formada na minha infancia, no bairro da Mustardinha, pobre e feliz. A 
> diferença é que não tenho medo de voltar para aquela condição. Isso faz com 
> que, aos 74 anos – e sem nenhum remédio – eu tenha uma pressão arterial de 11 
> por 7. Isso explica também meu desprezo pelo status, por como vai a musica 
> instrumental, essas coisas. Mas, por outro lado, isso não faz de mim um mal 
> profissional, pelo contrário. Digo muito não, mas quando digo sim, chego 
> antes da hora, para não preocupar ninguém.
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> “Minha personalidade é SPCT, (sempre pronto para o caos total.) E ela foi 
> formada na minha infância, no bairro da Mustardinha, pobre e feliz. A 
> diferença é que não tenho medo de voltar para aquela condição”
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