Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/
MPB
Enfim, sós
Após 16 anos tocando juntos, o violonista Guinga e o clarinetista Paulo Sérgio
Santos lançam o primeiro CD em duo, Saudade do cordão
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Irlam Rocha Lima
Em meados da década de 1980, ao ouvir Paulo Sérgio Santos tocando em duo com
Raphael Rabello numa roda de choro, Guinga, vivamente impressionado, comentou:
“Tudo o que eu quero é fazer com este clarinetista, pela minha música, o que
eles estão fazendo pela música brasileira”. O sonho do violonista e compositor
carioca demorou um pouco a se tornar realidade. Mas, desde 1993, quando
estiveram lado a lado pela primeira vez, tirando som dos seus instrumentos,
nunca mais se separaram artisticamente. “Há 16 anos venho participando de todos
os projetos do Guinga, principalmente em estúdio. Só não tomei parte do
primeiro disco dele. Nos demais tenho estado presente, o que me deu um prazer
enorme”, comenta Paulo Sérgio.
Agora, finalmente, como desejava Guinga, eles estão juntos num sofisticado duo
que desaguou no CD Saudade do cordão, que acabam de lançar pela Biscoito Fino.
As 14 músicas gravadas — entre elas, as consagradas Por trás de Brás de Pina,
Cine Baronesa e Senhorinha — são todas de autoria de Guinga (a maioria com
parceiros) e já fizeram parte de outros trabalhos do compositor. Saci, que
ganhou letra de Paulo César Pinheiro, tem a participação de Lenine no vocal. O
Côco do côco e Destino Bocayuva (dedicada a Paulo Sérgio, criado no subúrbio de
Quintino), ainda não haviam sido gravadas por ele. E há duas inéditas, Porto da
madama e Saudade do cordão.
“Quase todas são músicas que já tocamos bastante em shows, ao longo de 16 anos
de harmoniosa convivência. Quando chegou a hora de gravar não houve
dificuldade. Ficamos durante 10 dias no estúdio do técnico de som Sérgio Lima
Neto, em Araras (região serrana do Rio de Janeiro) trabalhando na criação do
disco”, comenta o clarinetista. O mesmo local serviu de cenário para o DVD, que
tem cinco faixas a mais que o CD e traz nos extras um bate-papo com o crítico
musical Tárik de Souza, slideshow e minidocumentário sobre a clarineta.
Único remanescente da formação do Quinteto Villa-Lobos e músico ligado ao
choro, Paulo Sérgio Santos destaca o fato de Guinga tê-lo aproximado da música
popular brasileira contemporânea e o vê como um dos mais importantes
compositores brasileiros. “Ele é tão bom quanto Tom Jobim e Villa-Lobos. Não
deve nada a ninguém, no Brasil e no exterior”, afirma categórico.
Com o gênio da música brasileira, Paulo Sérgio vai se apresentar entre os
próximos dias 13 e 15, no Clube do Choro, pelo projeto Dorival para Sempre
Caymmi, quando autografam o Saudade do cordão. Guinga seguiu na quarta-feira
para a Itália, onde estará à frente de workshops no Conservatório de Roma e no
Conservatório da Toscana. Além disso, fará três shows e se encontrará com a
cantora Tosca, que gravará um disco só com músicas dele.
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Biscoito Fino/Divulgação
SAUDADE DO CORDÃO
CD (14 faixas) e DVD (19 faixas) de Guinga e Paulo Sérgio Santos, produzidos
por Mário de Aratanha. Lançamento Biscoito Fino. Preço médio: R$ 28,90 (CD) e
R$ 42,90 (DVD).
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CRÍTICA - ****
Emocionante diálogo
Rosualdo Rodrigues
Saudade do cordão é, de certa forma, previsível. O encontro de dois
instrumentistas de reconhecido virtuosismo em torno de um repertório de beleza
tão precisa — como são as criações de Guinga e parceiros aqui reunidas — só
poderia resultar no que se ouve ao longo das 14 faixas. A harmônica relação
entre precisão técnica e emoção conduz o diálogo entre clarinete e violão,
alçando uma música que, na falta de outro termo, poderia ser chamada de
popular, a elevado patamar de sofisticação. Embora carregadas de elementos de
brasilidade brejeira, as composições de Guinga são executadas por ele e Paulo
Sérgio Santos com um rigor camerístico, uma precisão quase hipnótica, levando o
ouvinte (não é exagero dizer) a um estado de êxtase. Talvez por isso soe fora
de lugar e desnecessário o vocal de Lenine em Saci, que, aliás, ganhou no
primeiro disco de Mônica Salmaso bela gravação, que tem muito mais a ver com o
clima geral de Saudade… A bateria de Jurim Moreira, ao contrário, é
perfeitamente integrada a esse clima e realça a beleza do encontro de clarinete
e violão com suas sutis intervenções.
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