José Luis, mudei de idéia sobre o caso Simonal, apague tudo o que lhe disse
antes.
abs.
Eduardo Martins
*Sobre o caso Simonal
Depois que o Paulo Vanzolini declarou que Simonal se gabava de ser
dedo-duro, os produtores do filme “Ninguém Sabe o Duro Que Dei” (segundo
Jânio de Freitas, falta a palavra 'dedo' aí nesse título), deram uma
resposta. Eles retrucaram ao Vanzolini citando Chico Anysio: que apareça
alguém mostrando que foi preso por ação do Simonal.
Ora, para quem viveu e sofreu a ditadura, isso é uma bobagem. Nem todo mundo
que delatou está registrado. Não era de esperar, mesmo, que Simonal
integrasse os quadros do Dops, no sentido de ser um informante assalariado.
Ele era tão ou mais famoso que o Roberto Carlos. Acho mesmo que fazia mais
barulho do que RC. Se foi informante, era um que escolheu essa condição, sem
paga.
Mas o grande pecado do filme e de toda a imprensa que usa o episódio Simonal
para investir contra uma fantasmagórica "esquerda" ou a "falta de coragem da
classe artística" é não citar os fatos.
Eis os fatos. No julgamento civil (é bom citar esse adjetivo, já que o país
estava sob uma ditadura militar), Simonal levou como suas testemunhas de
defesa um oficial do I Exército e um policial do
Dops. O primeiro disse que o cantor era "colaborador das Forças Armadas". O
outro declarou, com todas as letras, que Simonal era informante do Dops.
Pior ainda: que Simonal fornecera "informações positivas sobre colegas
subversivos" (Ruy Castro, em texto citado mais abaixo). Ou seja: era um
informante de resultados: não apenas dava o serviço como tudo se comprovava.
Em outras palavras, isso significa que o esperto Simona queria usar o peso
dos "homens" para livrar a cara do processo em que se envolveu, sob a
acusação de seqüestro e tortura de seu
ex-contador. Ou, em outra suposição, os "homens" o instruíram a assumir essa
postura para salvar a pele deles, policiais, já que usaram o Dops para
assuntos "estranhos ao serviço". Eles e o
cantor fizeram uma tremenda trapalhada, indefensável perante os chefes da
repressão.
A manobra não deu certo. Primeiro, porque Simonal foi condenado a cinco anos
de prisão. Está bem, cumpriu somente alguns dias, mas foi condenado. Depois,
porque, com isso, tornou públicas suas relações altamente questionáveis com
torturadores e afins. Além disso, assim confessou publicamente, e em juízo,
que era dedo-duro. Meteu-se numa sinuca de bico. O lado popular
(trabalhadores, intelectuais, estudantes, artistas etc.) naturalmente
repudiava os delatores. E o lado que ele escolheu não lhe serviria muito a
partir de então. Os "homens" não poderiam forçar os produtores de
espetáculos a contratá-lo, se o público não estava mais a fim de ouvir um
dedo-duro. Além disso, a confusão perpetrada no Dops também não interessava
à repressão.
Simonal ficou sozinho no meio da rua.
A notícia do que rolou no processo saiu nos jornais. Então o Pasquim -
publicação de humor e crítica à ditadura - começou a tirar sarro do Simonal,
com charges centradas em sua condição
de dedo-duro. Alguns falam que o Pasquim "acusou sem provas". Provas? Mas o
sujeito, ele mesmo, não se gabava de ser dedo-duro? Os amigos dele não foram
lá e confirmaram suas bravatas?
***
Mas temos de considerar as trágicas ironias dos regimes de exceção. Até
aceito que Simonal não fosse exatamente um dedo-duro. Era um cara com idéias
do lúmpen-proletariado, deslumbrado pelo poder. Poder, poder. E como os
fardados e os torturadores eram os senhores da situação, ele - o grande
vencedor das platéias, dono de contratos milionários de publicidade com a
Shell - também se sentia um deles. Eis por que se jactava de estar com os
homens. O cara não tinha a menor consciência social.
Nesse delírio de poder, ele cultivava "aquelas" amizades e resolveu dar uma
lição no contador, a quem acusava de desfalque. Os amigos dele levaram o
contador para "acertar as contas" no Dops. Torturaram o homem. Ameaçaram
pegar a família dele. Forçaram-no a confessar o roubo.
Eles pensaram que, com o poder que tinham, iria tudo ficar por isso mesmo.
Só que a mulher do contador - um viva às mulheres! - praticamente forçou-o a
dar queixa na polícia. Aí começou o fim do Simonal.
Com o processo civil que se formou, os jornais divulgaram os fatos. Afinal,
o homem era hiperfamoso. Como a coisa fugiu do controle, é provável que os
amigos - para livrar a própria cara e a do Simonal -, devem ter orientado o
cantor a dizer que era informante. O tonto topou e levou testemunhas
"idôneas" para provar isso. Pior ainda: numa comprovação "inequívoca" de que
era mesmo informante, disse que o contador era "subversivo". O objetivo
disso seria justificar a fato de o sujeito ter sido levado para as
dependências da polícia política - não podia ser para resolver uma questão
pessoal.
***
Mesmo com a hipótese de Simonal não ter sido exatamente um dedo-duro, as
coisas não ficam "limpas" para ele.
Além disso, levanto uma hipótese - que ninguém nunca levantou. Está bem: o
cara ficou com a mão na cumbuca ao declarar em juízo que era dedo-duro. Mais
uma vez, admitindo que ele não fosse, é claro que ele não poderia negar isso
durante a ditadura. No entanto, depois de 1985, ele teve plenas condições de
contar tudo. Não o fez. Ficou, o tempo todo, dizendo que não era dedo-duro.
E só. Nunca revisitou os fatos, esclarecendo-os.
Se ele realmente estivesse interessado em livrar-se da pecha de dedo-duro,
teria feito isso, entrando nos detalhes. Seria o papel dele fazer um
detalhado mea-culpa, reconhecendo que na época era um parvo, não percebia o
que estava acontecendo e não percebeu sequer que tudo aquilo poderia
prejudicá-lo seriamente.
Então diria: de fato, fiz isso, isso e isso. Dei a entender que teria feito
isso, isso e aquilo. Mas essas outras coisas a mim atribuídas não eram
verdadeiras, por isso, isso e isso. Ou seja: ele já estava tão queimado que
só o tim-tim-por-tim-tim poderia ajudá-lo em alguma coisa.
Mas ele nunca fez isso. Em favor dele, pode-se lembrar que, depois de 1985,
talvez ele já estivesse muito prejudicado pelo álcool, que afinal o levaria
à morte, e não tinha coordenação para defender-se.
De todo modo, ele não se defendeu convenientemente.
Tenho aqui nas mãos o volume (livreto e disco) da "Coleção Folha" 50 Anos de
Bossa Nova - Wilson Simonal. O texto do livreto é de Ruy Castro. Eis dois
trechos do jornalista e biógrafo:
- Simonal apresentou-se para se defender e, talvez para se garantir,
confessou-se "de direita", partidário dos militares no poder.
- Seu nome desapareceu da mídia, suas platéias idem e quase todos os amigos
também. Exceções: Miéle e Bôscoli, Elis Regina, Nelson Motta, Carlinhos
Lyra, Caetano Veloso, Laurinha e Abelardo Figueiredo, poucos mais. Eles
"sabiam" que Simonal era inocente - não podiam imaginá-lo roubando tempo de
sua sarabanda de shows, louras e carros para fiscalizar a ideologia de
colegas, assunto de que, de resto, não entendia nada. Mas esses amigos se
queixam de que nem a eles Simonal se explicou direito.
Ou seja, Simonal poderia ter:
1. contado a esses amigos o que realmente aconteceu;
2. contado em detalhes aos filhos;
3. convocado a imprensa e contado tudo, alegando sua inocência;
4. pedido a ajuda de alguns dos amigos influentes e escrito um livro;
5. gravado um áudio ou vídeo caseiro contando tudo;
6. admitido os próprios erros, gravando uma fita e determinando que só
poderia ser executada X anos após sua morte.
Ele nunca fez nada disso. Apenas repetiu que era inocente. Certa vez foi ao
Jô Soares e, ao tratar do assunto, comportou-se como quem tinha algo a
esconder, e não a esclarecer.
Tudo que não fosse a verdade detalhada só jogaria contra o cantor. Sempre
soaria como: "o cara tem culpa no cartório", tem algo a esconder.
Em suma, discordo respeitosamente dos filhos dele quando propõem que o
assunto Simonal se deve reduzir ao grande artista que ele foi. Se eu fosse
filho dele, talvez também fizesse as mesmas coisas em favor da memória de
meu pai. Mas fatos são fatos. Obter da OAB um documento dizendo que não há
registro de alguém ter sido preso por delação de Simonal - isso não basta
para salvar a reputação do cantor. Muita gente entregou pessoas à repressão
sem que isso ficasse registrado nos documentos da ditadura. Documentos esses
que até hoje não são conhecidos na sua integridade, sem contar o que os
militares, decretadamente, destruíram.
Com isso, discordo também dos produtores do filme.
Aliás, há outra gravíssima consideração a fazer: Simonal foi a única pessoa,
em toda a história da ditadura militar (1964-1985), a revelar publicamente
que era dedo-duro. Isso é terrível, mesmo que não seja verdade.
O cantor foi vítima de sua própria arrogância e falta de consciência social
e também, claro, da ditadura. Num momento de democracia, esse imbróglio
(admitindo que ele não era, pura e simplesmente, um delator) não poderia ter
acontecido.
Agora, a imprensa trata do assunto como se 1971 fosse 2009. Sem a
perspectiva histórica, é impossível entender essas coisas. Lembre-se, por
exemplo, que o simples fato de acusar falsamente o contador de subversivo
poderia levar à morte do acusado. Em 1975, Vladimir Herzog, jornalista, com
emprego e endereço conhecidos, entrou voluntariamente
no Dops de São Paulo para atender a uma intimação. Não sobreviveu para ver
nascer o dia seguinte.
Artigo de Carlos Machado, poeta e jornalista, exclusivo para o blog DG.
..............
O documentário sobre Wilson Simonal não acontece ao acaso. Integra um
contexto de desconstituição da esquerda, especialmente aquela que pegou em
armas para defender a volta da democracia, ainda que formal e incompleta. Se
juntarmos a essa constatação quase acaciana o fato de que uma ex-militante
dessa esquerda se prepara para disputar a presidência da República – com
chances efetivas – ano próximo, então o coquetel de veneno anticomunista
estará completo.
De lambuja, o filme ainda pretende dar uma chinelada na chamada “classe
artística” e nos intelectuais engajados que teriam permitido a “condenação
de um inocente” (tadinho!) como Wilson Simonal.
O documentário é peça de artilharia com o qual a direita faz a disputa pela
chamada “verdade histórica”.
Por isso, fiquemos atentos: 1964 ainda não terminou.
Redator: Cristóvão Feil - Data: 9.6.09
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