Matéria do competente jornalista Irlam Rocha Lima abre o caderno
"Diversão & Arte" do jornal Correio Braziliense de hoje, 06  de
janeiro.
 O tema é o mestre Pernambuco do Pandeiro, um dos pilares do
chorinho em Brasília.
 O texto está transcrito em seguida.
 Caio Tiburcio

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    CORREIO BRAZILIENSE
 Brasília, quarta-feira, 06 de janeiro de 2010 
 Mestre, para ele, é pouco
 Aos 85 anos, Pernambuco do Pandeiro, um dos criadores do Clube do
Choro, continua em plena atividade
    *Irlam Rocha Lima 
    *
 Uma lenda da música popular brasileira vive, anonimamente, num
modesto apartamento da 410 Sul. Morador em Brasília desde 1959,
Inácio Pinheiro Sobrinho, conhecido e reconhecido nacionalmente como
Pernambuco do Pandeiro, teve seus tempos de glória na era de ouro do
rádio, quando integrou os mais famosos conjuntos regionais, sob a
batuta de maestros famosos como Radamés Gnattali, Severino Araújo,
Guio de Moraes, Francisco Mignone e Eleazar de Carvalho. 
 Pernambuco acompanhou os maiores astros e estrelas da época, nomes
como Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas,
Nelson Gonçalves, Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira, Ângela Maria,
Isaurinha Garcia e as irmãs Dircinha e Linda Batista. Ele próprio
teve o seu conjunto, que, em 1955, acolheu um acordeonista
recém-chegado ao Rio de Janeiro, vindo de Recife, chamado Hermeto
Pascoal. 
 Duas décadas depois, morando na capital, o pandeirista viria a ser
um dos pilares do Clube do Choro, nos primeiros anos de
funcionamento. Atualmente, aos 85 anos, mantém-se — como sempre
— em atividade frenética, criando novos grupos e marcando
presença numa roda de choro todas as tarde de sábado, na QI 13 do
Lago Norte, ponto de encontro de veteranos instrumentistas. 
 Nascido em Gravatá de Bezerro (PE), em 1924, antes de completar um
ano, o menino Inácio mudou-se com a família para Lagoa de Roça
(PB), onde ficou até o começo da adolescência. Junto com a mãe e
dois irmãos, foram de navio para o Rio. “Fomos morar no Morro de
São Carlos e depois no Morro de Santo Antônio. Aos 14 anos, ganhei
meu primeiro instrumento, um cavaquinho, presente da minha irmã.
Logo aprendi a tocar e passei a frequentar a roda de choro na casa do
professor Waldemar, no Catumbi, e lá conheci o Pixinguinha, já uma
figura respeitabilíssima”, recorda-se. 
 Apaixonado por passarinhos, Pernambuco trocou o cavaquinho por um
casal de canários da terra. “Eu era engraxate e sem o cavaquinho
vivia triste. Aí meu irmão mais velho, que era barbeiro, me deu um
pandeiro, ganhado de uma dívida. Com menos de um mês já estava
tocando bem, e passei a acompanhar os instrumentistas da gafieira
Flor do Abacate, no Largo do Machado”, lembra. 
 Regionais
 Oficialmente, a carreira do músico teve início aos 15 anos, depois
de ser aprovado no programa de calouros Na hora do pato, comandado por
Heber de Bôscoli e Iara Sales, na rádio Mayrink Veiga. “Depois de
me classificar em primeiro lugar no programa, fui convidado para
tocar no regional de César Faria (pai de Paulinho da Viola), na
Rádio Ipanema, em 1942; e depois no regional de Claudionor Cruz, na
Rádio Globo. Passei, também, pelos regionais de Abel Ferreira e de
Canhoto. Até que em 1949 criei meu próprio regional, já na Rádio
Mauá. Ali trabalhei até 1959. Em 1955 mandei buscar no Recife o
Hermeto Pascoal, a quem já conhecia, para substituir Edinho do
Acordeon.” 
 Com o seu conjunto, ou sozinho, Pernambuco, durante vários anos,
acompanhou em gravações ou em apresentações ao vivo, os maiores
nomes do rádio, na fase áurea. “Além de estar ao lado de
artistas nas rádios, em shows e estúdios, tocava em dancing,
gafieiras e em festas, tanto no Rio como em outras cidades. “Em
Belo Horizonte, certa vez, Juscelino Kubitschek, então governador de
Minas Gerais, me ouviu e gostou. Já presidente, no Rio, passei a
tocar em festas na casa dele”, revela. 
 Brasília estava sendo construída quando, em 1959, JK o convidou
para morar na cidade. “O presidente chegou para mim e perguntou:
‘Escute, Pernambuquinho, você tem coragem de ir comigo para
Brasília?’. Aí disse que o pedido dele era uma ordem. Vim para
ser músico da Rádio Nacional, mas não deu muito certo e aí fui
fichado na Novacap, da qual sou aposentado”, conta. 
 Sem parar com a atividade musical, ele criou o grupo Pernambuco do
Pandeiro, suas Mulatas e seus Batuqueiros, que, entre a segunda
metade da década de 1960 e segunda de 1970, animou lugares como o
Clube Previdenciário, Fina Flor do Samba (Centro Comercial Gilberto
Salomão) e Casarão do Samba (que existia próximo ao Brasília
Palace Hotel). “Ali, por volta de 1974, o jornalista Raimundo de
Brito começou a promover uma roda de choro no apartamento dele na
105 Sul. Foi lá que conheci o clarinetista Celso Cruz, de quem me
tornei amigo, e me reencontrei com Waldir Azevedo, dos tempos do Rio.
Waldir veio com Dona Olinda morar em Brasília, acompanhando uma
filha.” 
 Foi a Pernambuco que Waldir recorreu quando resolveu formar um
regional. “Foram várias as formações até que chegasse a que
contava comigo, Hamilton Costa e Carlinhos Sete Cordas (violões),
Eli do Cavaco e Valdeci (percussão). Aconteceram muitas rodas de
choro na casa do Waldir, shows na capital e em outras cidades, além
de gravação de dois discos. Estivemos com o Waldir até o final da
vida dele”, lembra, emocionado. 
 O Clube do Choro é um capítulo importante na memória de
Pernambuco do Pandeiro. Ele, um dos fundadores, busca deixar claro
que, embora o movimento para a criação da entidade tenha ocorrido
no apartamento da flautista Odete Ernest Dias, a ideia partiu de
Celso Cruz. “Ele começou a falar disso quando as reuniões no
apartamento do Raimundo de Brito começaram a ficar muito
concorridas.” 
 Gente boa
 Um dos pontos altos das apresentações do recém-criado Clube do
Choro era o duo do pandeirista com o flautista Bide da Flauta,
interpretando o choro Urubu malandro (Pixinguinha, Loro e João de
Barro). “Pelas rodas passou muita gente boa. Dos veteranos, havia
nomes como Bide, Eli, Dedé do Violão, Dudu Sete Cordas, Nilo Costa,
Tio, Avena de Castro, que foi o primeiro presidente, e Francisco de
Assis, que viria depois a assumir o comando. 
 Entre os mais jovens tinha o atual presidente do Clube, Reco do
Bandolim, e os meninos do Dois de Ouro, Fernando César e Hamilton de
Holanda. Aliás, o nome do grupo foi dado por mim”, diz, orgulhoso,
o eterno mestre do pandeiro, que, depois de uma longa temporada em
Uberaba (MG), voltou a morar em Brasília há três anos. 

http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_1.htm
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