"O FEITIçO DE NOEL", ARTIGO DE ZUZA HOMEM DE MELLO, NO VALOR
ECONôMICO DE HOJE, 12 DE FEVEREIRO, ESTá ABAIXO TRANSCRITO.
CAIO TIBURCIO


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 VALOR ECONÔMICO
  São Paulo, 12 de Fevereiro
 CAPA: NO CENTENáRIO DO POETA DA VILA, UM DOS COMPOSITORES MAIS
ORIGINAIS QUE A MúSICA BRASILEIRA Já CONHECEU, LIVROS, DISCOS E
SHOWS REVISITAM SUA VIDA E OBRA. NA SEGUNDA, DESFILE NA SAPUCAí
INAUGURA ONDA DE CELEBRAçõES, QUE SE ENCERRA EM DEZEMBRO, COM FESTA
NA ABL.
O FEITIçO DE NOEL

 Por Zuza Homem de Mello, para o valor, de São Paulo
 12/02/2010 
        O que causa espanto na obra de Noel Rosa não é apenas o colossal
avanço que ela deu às letras da canção brasileira. É fato que
não há como comparar as crônicas primorosas e rimadas do
cotidiano, contidas em seus imaginosos versos musicados, com as
tentativas de ressaltar com ingenuidade um ou outro episódio
meramente curioso, que é o que existia nos sambas de seus
antecessores. Nem há, por outro lado, como cotejar esse mesmo
repertório anterior a Noel com o de suas canções sobre as
vicissitudes da paixão, valorizadas por originais toques de ironia,
que estabeleceram padrão elevado na música popular. A partir de
Noel altera-se o nível de exigência para o que viesse a ser criado
por seus contemporâneos e por autores posteriores. 

        Também causa espanto, e agora na vida de Noel, o desconcertante
enredo com episódios insólitos, hilariantes e tragicômicos que
delinearam sua breve existência, causa espanto a trajetória desse
artista da classe média carioca descuidado com os atos da rotina, o
que lhe custou a própria vida. 

        O mais espantoso, porém, é que essa obra, de aproximadamente 260
canções que atravessaram os anos sem que muitas tenham envelhecido,
foi elaborada num espaço de tempo inacreditavelmente curto, apenas
sete anos. Uma pesquisa na música popular universal provavelmente
revelaria não haver outro caso de uma relação semelhante. Sem
esquecer que essa produção, com dezenas de obras-primas, foi
elaborada por esse prodígio da nossa música entre seus 20 e 26
anos. Com efeito, teoricamente surgiam a cada ano mais que 30
canções inéditas, algumas delas criadas rapidamente nas mais
inesperadas situações. 

        Certa vez, Noel foi apresentado pela dona de uma festa no bairro da
Tijuca à moça que havia namorado tempos antes. Ao lado de seu novo
namorado, para surpresa do ex, ela tentou encobrir o romance anterior
assim se expressando: "Prazer em conhecê-lo". Noel ficou zonzo,
jururu num canto, abandonando a festa com seus amigos logo depois.
Foram diretamente a um bar do centro e, num papel que pede ao
garçom, escreveu apressadamente a letra de "Prazer em Conhecê-lo": 

        "Quantas vezes nós sorrimos sem vontade/ com o ódio a transbordar
no coração/ por um simples dever da sociedade/ no momento de uma
apresentação./ Se eu soubesse que em tal festa te encontrava/ não
iria desmanchar o teu prazer/ porque, se lá não fosse, eu não
lembrava/ de um passado que tanto nos fez sofrer (...) frente a
frente/ naquele instante, mais frios do que gelo/ mas, sorrindo,
apertaste minha mão/ dizendo então/ tenho muito prazer em
conhecê-lo (...) que mais prazer/ eu teria em não te conhecer." 

        O caso ilustra a facilidade de Noel em tirar partido de uma
situação por ele vivida horas antes não só para descrevê-la com
admirável forma rítmica e rimada, mas ainda acrescida de uma
reflexão final que se enlaça com a melodia criada, nesse caso com a
colaboração de Custódio Mesquita. Tão frequentes eram tais
arremates em suas letras, semelhantes às conclusões de fábulas de
La Fontaine, que Noel seria futuramente apelidado de o filósofo do
samba ("Ninguém aprende samba no colégio (...) quem suportar uma
paixão/ sentirá que o samba então/ nasce do coração"). 

        Como seus contemporâneos compositores - sobretudo Lamartine Babo,
Ary Barroso e João de Barro - Noel confiava no que ocorria em seu
dia a dia, em sua cidade ou até no exterior a fim de colher
inspiração para as marchinhas de Carnaval, as emboladas, os
foxtrotes, as valsas e, principalmente, para o gênero em que se
tornou mestre, o samba, em andamentos diferentes. Numa ponta, os
tipicamente batucados (alguns em parceria com Ismael Silva, iletrado
musicalmente, porém um dos bambas criadores da seminal batida
denominada de "samba do Estácio") e, na outra, os sambas lentos de
caráter lírico (alguns em parceria com Vadico, pianista/arranjador
paulista com sólida formação musical e compositor de harmonias
refinadas para suas envolventes melodias). Muitos desses últimos se
constituiriam no que seria, anos depois de sua morte, reconhecido
como o samba-canção. É o que confere a Noel Rosa a condição de
verdadeiro precursor. 

        É bem possível que esse pioneirismo estilístico, essa
inventividade em tantos elementos de uma composição, seja a razão
de Noel não ter tido o sucesso merecido em vida. Seu comportamento
desregrado entregue à boemia atuando como artista de rádio nas
incipientes emissoras da época e varando madrugadas pelos bares e
cabarés cariocas deram-lhe em vida um estigma que superou sua
atuação como compositor. Aliás, como afirmou o jornalista João
Máximo, profundo conhecedor da matéria, "Noel Rosa pode não ter
sido o melhor compositor popular de seu tempo, mas foi o mais
importante". Máximo lança, agora, o livro "O Morro e o Asfalto no
Rio de Janeiro de Noel Rosa" (Editora Aprazível, 204 págs., R$
140,00). 

        Noel implantou um novo estilo na música popular, o estilo que
acabou vingando na obra de grande parte dos mais conhecidos
compositores brasileiros: o do samba urbano, com melodias requintadas
e novos motivos poéticos. Seus versos ora coloquiais, ora críticos,
ora líricos, ora humorísticos, ora satíricos e muitas vezes
filosóficos, moldam esse estilo. Há composições sob a forma
epistolar ("Cordiais Saudações"), há rimas surpreendentes (pinote
com foxtrote, chute com vermute, orquestra com Palestra), há rimas
internas (grito tão aflito, gerente impertinente), referências de
época (cerveja Brahma, Gandhi, o telefone 344333), de local
(Piedade, Cascadura, Penha), gírias (dar um beiço, funil), há
expressões que se consagraram (com que roupa?), há artifícios
curiosíssimos, como o gaguejar de um personagem ("Gago Apaixonado"),
brincadeiras gramaticais (Picilone) e anatômicas (Coração) e
naturalmente existem as emocionantes citações sobre o bairro em que
nasceu, viveu e morreu: "São Paulo dá café/ Minas dá leite/ mas a
Vila Isabel dá samba". 

        Não foi senão mais de dez anos após sua morte aos 26 de idade que
a maturidade da obra de Noel começou a ser reconhecida em sua
magnitude. Deveu-se a uma iniciativa inédita na fonografia
brasileira a partir da gravadora Continental dirigida por João de
Barro, de quem fora parceiro. Em plena fase dos discos de 78
rotações, embalados individualmente em envelopes pardos e de
mínimo interesse gráfico, foi produzido em setembro de 1950 um
álbum em capa dura com a ilustração, assinada por Di Cavalcanti,
de um seresteiro tocando violão e textos internos de Lúcio Rangel e
Fernando Lobo contendo três discos. As orquestrações foram
caprichosamente elaboradas por Radamés Gnattali e a interpretação
entregue à mais indicada para cantá-las, sua amiga Aracy de
Almeida.  

        O timbre anasalado e a inflexão evocativa da voz de Aracy (cuja
intimidade com a obra de Noel vinha desde 1935 com a gravação de 14
de suas composições) deram uma vida que poucos imaginavam existir
nos sambas-canção que dominavam o repertório - "Feitiço da Vila",
"Último Desejo", "Não Tem Tradução" e "X do Problema" com
acompanhamento de cordas e flauta - e nos outros dois sambas -
"Palpite Infeliz" e "Conversa de Botequim", com Aracy escorada pelo
Quarteto Continental, na verdade o Quarteto de Radamés com ele
(piano), Zé Menezes (guitarra), Luciano Perrone (bateria) e Vidal
(contrabaixo). 

        Uma vez reativada, a chama da obra de Noel provou ter mais gás do
que se supunha, e esse produto exemplar provou como uma gravadora
pode ter peso nos rumos da música popular de um país quando
dirigida por quem é da música. O samba-canção se expandiria
notavelmente no período que o historiador Jairo Severiano reconhece
como da modernidade. 

        Os direitos de autor duram por 70 anos contados de 1º de janeiro do
ano subsequente à sua morte. Portanto, no caso de Noel Rosa, até 1º
de janeiro de 2008. Nem por isso deixaram de ser produzidas várias
antologias nos formatos de LP e CD muito antes que a obra de Noel
caísse no domínio público. 

        A etiqueta carioca Rádio estreou no mercado fonográfico em 1953
com o long-playing de 10 polegadas "Poeta da Vila" contendo oito
composições suas em arranjo de Aldo Taranto e cantadas por Marília
Batista, sua intérprete quando ele vivia. 

        Provavelmente entusiasmada com o êxito do álbum de Aracy, a
EMI-Odeon lançou ainda nos anos 50 o esplêndido LP "Noel Rosa e Sua
Turma da Vila" com gravações anteriores em que ele cantava meia
dúzia de seus sambas ("João Ninguém", "Onde Está a Honestidade",
entre outros). Um precioso documento, já que a voz do autor veio a
público em vinil pela primeira vez. Por meio de sua etiqueta mais
popular (Imperial) foi compilado, em 1971, outro LP contendo 12
gravações também reconstituídas das originais, interpretadas pelo
próprio Noel, entre as quais "Conversa de Botequim", "Com Que Roupa"
e "Cordiais Saudações". Mesmo não sendo considerado grande
intérprete, numa época em que os compositores eram ignorados e as
músicas, vinculadas aos cantores, Noel canta mais solto e com mais
graça que grandes cartazes do rádio e do disco de então. Pode-se
constatar ter sido ele próprio o grande intérprete de sua obra. 

        Quatro anos depois, a Continental lançou também um vinil: outras
seis gravações com o autor cantando novamente com sua voz diminuta
no lado A da compilação incluída na série "Ídolos MPB",
organizada por J.L. Ferrete. 

        Em 1966, Maria Bethânia lançou o compacto "Bethânia Canta Noel",
que seria estendido como parte de um LP de 12 polegadas. 

        Nos anos 80, a gravadora Eldorado entrou em cena por meio da
atuação de seu diretor Aluízio Falcão com dois álbuns originais.
O de 1983, "Inédito e Desconhecido", tem a chancela dos produtores
João Máximo e Carlos Dider (Caola), autores da mais completa
biografia sobre o compositor, "Noel Rosa, uma Biografia", lançada em
1980. Violonista e cantor do conjunto Coisas Nossas, Caola é um fino
intérprete do repertório noeliano. O projeto seguinte foi a
primeira gravação completa da opereta "A Noiva do Condutor", tendo
Marília Pêra e Grande Othelo como intérpretes principais. 

        O grupo vocal MPB4 gravou com capricho o LP "Feitiço Carioca" e, na
mesma década, um álbum com 26 músicas divididas entre gravações
originais dos anos 30 e novas versões com cantores como Paulinho da
Viola e João Nogueira (dois de seus mais destacados intérpretes)
foi o valioso brinde distribuído em 1982 pela Fenab do Banco do
Brasil. 

        Em 1991, Almir Chediak produziu o "Songbook ", a que se seguiu um
álbum duplo, ainda em vinil, com 22 canções gravadas na época por
um elenco de estrelas como Tom Jobim, Gilberto Gil, Gal Costa, João
Bosco, Djavan e Chico Buarque, citado no início da carreira como um
novo Noel. 

        Na era do CD, há igualmente vários destaques. O primeiro é de
1995, o singelo "Sem Tostão... A Crise não É Boato", reunindo a
cantora Cristina Buarque e o violonista Henrique Cazes, que, numa
gravação ao vivo, prestaram um emocionante tributo a Noel Rosa
entremeando os sambas com divertidas histórias sobre as aventuras do
autor. O cantor Zé Renato, uma das mais lindas vozes brasileiras,
dedicou-lhe o CD "Filosofia". Em 1996, foi lançado "Coisas Nossas",
com nomes de menor projeção que o "Songbook" e resultado
heterogêneo. No ano seguinte, um dos mais curiosos CDs dedicados a
Noel. Poucos imaginavam que alguém como Johnny Alf pudesse se
identificar com sua obra, que ele gravou em competentes arranjos do
pianista Leandro Braga. 

        Quem também se debruçou surpreendentemente sobre Noel Rosa foi o
compositor Ivan Lins numa caprichada produção de dois CDs
intitulados curiosamente "Vivanoellins", associando num "jeux de
mots" seu nome a "Viva Noel". Ivan Lins registrou sozinho ou com
convidados nada menos que 36 canções em arranjos que, mesmo fugindo
ao convencional, têm o mérito de não ferir o espírito da obra. 

        O mais importante documento gravado no formato CD é "Noel pela
Primeira Vez", a coleção de 14 CDs com 229 composições de Noel
Rosa em suas versões originais, lançadas em 2000 pela gravadora
Velas com apoio da Funarte, numa idealização de Omar Jubran. Um
verdadeiro monumento à obra do compositor, referência obrigatória
para qualquer trabalho em torno dele. 

        Com tão bem-intencionadas antologias, a obra de Noel Rosa foi
preservada depois de sua morte por meio dessas novas gravações das
numerosas canções compostas nos sete breves anos em que viveu bem
mais para a boemia e o samba do que para si. 

        Após tentar desesperadamente se curar da tuberculose, ele passou
acamado num quarto da casa materna seus últimos quatro meses. Noel
morreu em 4 de maio de 1937. A vida tumultuada e a obra perdurável
constituíram um prato cheio para espetáculos teatrais, um
curta-metragem de Rogério Sganzerla e o filme "Poeta da Vila"
(2009), dirigido por Ricardo van Steen. 

        Cabe agora indagar: além de Aracy de Almeida, quem terá sido uma
grande intérprete contemporânea de Noel Rosa, já que nenhum cantor
conseguiu superar as gravações por ele deixadas? Alguém bem pouco
conhecida que teve o CD "Noel por Ione" lançado em 2000 pela
gravadora Dabliú numa produção de Ronaldo Rayol. Trata-se da
cantora Ione Papas, baiana que canta em barzinhos de São Paulo. A
enxuta capa branca abriga um disco respeitoso e emocionante com pelo
menos quatro pérolas: "Você só... Mente", "No Baile da
Flor-de-Lis", "Quando o Samba Acabou" e "Coração". Nenhuma cantora
contemporânea conseguiu reviver o clima espirituoso, alegre,
trágico, irônico, elegante e lírico contido nas 15 canções desse
CD. 

        Ouvir Noel Rosa é o bastante para se convencer da existência em
sua obra de canções tão vivas que parecem ter sido compostas
justamente no ano de seu centenário. 

        
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