Eu, Marechal e Laurindo

Dirley Fernandes

O bloco já tinha deixado o Largo São Francisco da Prainha e eu desfilava,
como foi minha constante nesse carnaval superlotado, para o lado inverso.
Qual não foi minha alegria ao deparar com o glorioso Marechal, rei do
convescote e oficial da noite nos melhores botecos da cidade, em plena
Sacadura Cabral. Comentamos nossas respectivamente boas aparências,
surpreendentes para quem pega tanto sereno, e nos sentamos no bar mais
próximo com alguns outros amigos pra falarmos dos assuntos válidos: batuques
e cabrochas. Foi quando avistamos, na avenida, um velho sambista, passando
sorridente, anônimo e garboso entre os foliões digito-emergentes que tinham
consultado no Globo o roteiro da festa naquela quinta-feira. Era ele, o
lendário, o nunca assaz cantado Cabo Laurindo, de boina de combate e fita
vermelha, camisa de seda verde, calça de linho branco e sapato bicolor. Era
uma visão de efeito, senhores.

Convidei Laurindo a sentar-se conosco, ao que ele acedeu com sua tradicional
fidalguia, tendo dispensado a cerveja Itaipava que tomávamos e pedido ao
garçom uma dose de Dudu (conhaque + vinho quinado Dubar, como todos sabem).
Feitas as apresentações, com as honrarias que merece tão ilustre figura do
Carnaval carioca — já cantada por nomes como Zé da Zilda, Herivelto Martins,
Wilson Batista e Haroldo Lobo —, um dos bebensais, versado em Noel Rosa,
espantou-se.

— Mas esse é o Laurindo da "Triste Cuíca"?

— Sim. E do "Comício em Mangueira", disse eu que, como bom comunista
sem-vergonha, já queria lembrar as posições políticas do bravo sambista.

— Mas esse Laurindo do Noel não é o mesmo do Wilson Batista. E não discuta
comigo porque eu escrevi uma tese sobre o Noel — redargüiu o Gato-Mestre do
samba. (E são tantos)!

— É, sim — disse eu, sem muitos argumentos, mas com absoluta convicção de
que ele estava mais por fora do que mão de afogado. E me voltando para
Laurindo, com um gracejo:

— Não era, tenente?

— Cabo... — corrigiu ele, com um sorriso benévolo — Quem nasce pra vintém
nunca chega a tostão... — E ficou rindo e dando bicadinhas em seu traçado.

— Claro que o Laurindo da Zizica era o mesmo Cabo Laurindo — corroborou
Marechal, ele também conhecido do bravo sambista de longa data.

— Não — insistiu o Gato-Mestre — O Laurindo, gostoso da Zizica, morreu em
1936. Olha pela letra do Noel.

E pôs-se a cantar, com olhos esbugalhados:

Parecia um boi mugindo
Aquela triste cuíca
Tocada pelo Laurindo
O gostoso da Zizica

Ele não deu a Zizica
A menor satisfação
E foi guardar a cuíca
Na casa da Conceição

Diferente o samba fica
Sem ter a triste cuíca
Que gemia feito um boi...

A Zizica está sorrindo
Esconderam o Laurindo
Mas não se sabe onde foi

“Triste Cuíca” (Hervê Cordovil – Noel Rosa)

Laurindo ouviu o samba com expressão triste, que denotava tanto o cansaço do
velho homem do samba como quanto a recordação daquele episódio lhe era
amarga. Depois, suspirou profundamente, olhou-me já com um sorrisinho
maroto, levantou-se e se dirigiu ao gerente do Flor da Sacadura, que o
saudou com honras de chefe-de-estado e trouxe do reservado uma cuíca com
adesivo da verde-e-rosa.

Quando a cuíca de Laurindo soou no Centro do Rio, o Carnaval começou e toda
a mesa tirou o chapéu, ciente de que estava diante de um dos grandes do
samba. E Laurindo não fez por menos, emendando com o samba que Herivelto
Martins fez em sua homenagem no longínquo ano de 1943:

Laurindo sobe o morro gritando
Não acabou a Praça Onze, não acabou
Vamos esquentar nossos tamborins
Procura a porta-bandeira
E põe a turma em fileira
E marca ensaio pra quarta-feira

E quando a escola de samba chegou
Na Praça Onze não encontrou
Mais ninguém não sambou

Laurindo pega o apito
Apita a evolução
Mas toda a escola de samba
Largou a bateria no chão
E foi-se embora cantando

E daí a pirâmide foi aumentando, aumentando

“Laurindo” (Herivelto Martins)

Quando Laurindo acabou de cantar, a mesa fez um brinde em homenagem ao bravo
mangueirense, mestre da harmonia da escola nos tempos em que a Mangueira
resistia bravamente aos sete anos de glória da Portela (1941-1947). Uma das
cabrochas quis saber o que era a tal pirâmide. E Laurindo explicou.

— Minha filha, era o esforço de guerra. O Brasil tinha declarado guerra ao
Eixo. E a Mangueira se fez presente pela Pátria. Deixamos nossos
instrumentos lá, o povo carioca inteiro fez doações. O metal foi aproveitado
para construir armas e ferramentas para combater o fascismo.

O Gato-Mestre não se conformava. Queria saber era como o Laurindo tinha
escapado do bote dos parentes da Zizica.

— Eu soube que o Brancura e o Pepe foram te buscar.

— Não, esses eram meus companheiros de batucada, da antiga Balança. Eu era
respeitado, garoto. Foram uns vagabundos desclassificados da Favela. Me
pegaram quando eu tava saindo de uma curimba no Peu.

— Peu? — deu bandeira o Gato-Mestre.

— Senador Pompeu — atalhou Marechal.

— Me levaram pra Favela. Mas chegou lá, a Estela, baiana muito considerada,
viu aquilo. Eu na frente, eles três com um trabuco e duas navalhas... Aí,
ela estrilou. A gente tinha um chamego antigo... Ela gritou: "Larga desse
filho de Deus. Deixa ele na paz de Oxalá”. Eles deram bobeira e eu dei no
rapa. Sumi no mundo, que voltar pra Vila era espeto.

— Foi pra onde? — perguntei.

— Fui me esconder na Divinéia, na casa do meu companheiro da Praça 15, do
tempo da estiva, o João Cândido.

— O Almirante Negro — esclareceu Marechal para o parvo Gato-Mestre.

— Ele era um homem que lutava pela justiça, por seu povo. Um crioulo gaúcho
de raça, que maltrataram muito. Mas depois ele começou a andar com os
galinhas verdes, que enganaram o homem. E eu fui procurar um amigo meu que
era cambono, como eu, e com quem eu tinha aprontado muito em outros
carnavais.

— Cartola! — atalhou Marechal.

— É, ô sambista bom... Foi ele que me ensinou de harmonia. E eu fiquei
cuidando também da harmonia da escola. E era muito amigo também do Carlos,
que era afilhado do português dono do morro, moço muito culto, fazia cada
discurso bonito. Mas só dava Portela! Aí, veio a guerra, né? Fui lutar
contra os teutônicos.

— Tu já não era velho pra isso? — perguntou o Gato-Mestre.

— Dei um jeito. Tinha uns companheiros infiltrados lá no Inferno Verde
(Regimento Sampaio) que me arranjaram documentos. Quem ajeitou tudo mesmo,
hoje posso dizer, foi o irmão do Nelson, que era policial. O Nelson também
foi polícia, mas pediu baixa.

— Nelson Sargento?

— Não, o Nelson do Cavaquinho. Esse aí ainda era garoto nesse tempo, enteado
do Alfredo, meu amigo da Ala dos Periquitos.

— E como foi a guerra?

— Servi no front. Passei muito frio. Fui do Pelotão de Choque, do sargento
Wolff, que morreu metralhado. Um herói de verdade... Depois, tive desgosto,
porque muita gente falou que a gente foi passear na Itália. Eu sei o frio
que passei, com os alemães metralhando a gente da casamata do Monte Castelo
e aquela comida de lata. Até hoje essa mão não me mexe direito. A gente
cumpriu nosso papel no sangue.

— Mas você foi recebido na volta com festa, pelo menos... E ainda teve o
Geraldo Pereira aqui, que fez seu papel no cinema (“Berlim na batucada”, de
Luiz de Barros, 1944). Logo o Geraldo, tão considerado na Mangueira. E a sua
cara, aliás — lembrei, para levantar o astral do mestre — Laurindo já estava
virando lenda!

— Ô... e seu Geraldo era valente. Ninguém mexia. As irmãs moravam lá no
Buraco Quente e todo mundo respeitava. É... Quando eu voltei, foi uma festa.
A escola me recebeu com discurso de seu Carlos. Tinha gente da Favela, o
pessoal da Portela todo de gravata, a turma da Tijuca, o pessoal da
estiva... Seu Zé Espinguela, já doentinho, mandou tocar tambor três noites,
que juntou gente. E Jorge Goulart cantou um samba que o Wilson e o Haroldo
fizeram para mim.

Laurindo voltou
Coberto de glórias
Trazendo garboso no peito
A cruz da vitória

Oi, Salgueiro, Mangueira
Estácio e Matriz estão agindo
Para homenagear
O bravo Cabo Laurindo

As duas divisas que ele ganhou mereceu
Conheço os princípios
Que Laurindo sempre defendeu
Amigo da verdade, defensor da igualdade
Dizem que lá no morro vai haver transformação
Camarada Laurindo, estamos a sua disposição

— De Laurindo a Cabo Laurindo e agora já tinha virado Camarada Laurindo,
“amigo da verdade, defensor da igualdade... ˜ — me animei.

— É, meu filho. A gente tava na luta contra os fascistas lá fora e para
libertar o povo brasileiro aqui dentro. É como o Wilson Batista cantou no
"Comício em Mangueira", também falando da minha volta.

E emendou, cantando com emoção, ao som da cuíca e de nossas palmas:

Houve um comício em Mangueira,
Compadre Laurindo falou
Toda a escola de samba aplaudiu, é.
Toda a escola de samba chorou.

Eu não sou herói,
Era comovente a sua voz
Heróis são aqueles que tombaram por nós

Houve missa campal, bandeira a meio pau.
Toda a escola de samba rezou.
Laurindo então lembrou os nomes
Dos sambistas que tombaram.

Mangueira tomou parte na Vitória,
Mangueira mais uma vez é História."

— Coisa linda... Mas teve gente na Mangueira que não gostou muito da sua
volta, né? — provoquei o militar.

— É, tem gente que quer desmerecer. A inveja é uma merda, né, filho?

— O Zé com Fome — lembrou Marechal.

O cabo riu, sacudindo os ombros e pedindo uma segunda dose.

— Nada, rapaz, esse não... Foi brincadeira daquele malandro,que na época já
tava com a Zilda, já era o Zé da Zilda. Fez pra me provocar e pra mexer com
o Wilson, que é de Niterói. Mas formiga miúda não morde meu pé não. A gente
bebeu muitas na Adega Palas e riu do samba dele, principalmente da parte que
o safado diz que eu "vi a cobra fumando".

— Como era esse samba? — perguntou o gato cada vez menos mestre.

Marechal, apesar de imperiano, lembrou os versos...

Conversa, Laurindo, peço que não leve a mal
Você não foi onde estava o rival
Anda dizendo que lutou como um herói
E no entanto nem saiu de Niterói
Aproveitou a nossa vitória
E assim conseguiu o seu nome na História

Agora eu vejo você dizendo que viu a cobra fumando
lá na linha de frente
Nem eu nem você fizemos nada
Ficamos na retaguarda
Aplaudindo a nossa gente

Conversa, Laurindo ...

E o sambista ria, como só se ri no Carnaval...

— E aí, Laurindo, depois você organizou o povo lá em Mangueira pra exigir
melhores condiçôes de vida... Nesse tempo não tinha água, mal tinha luz... —
lembrei.

— Eu tentei, filho. Mas, sabe como o brasileiro é, né? Depois, cansei um
pouco. O Herivelto até fez um samba triste, mas bonito à beça, falando
disso, que a Aracy gravou em 1946, o primeiro Carnaval depois da guerra.

Às três da manhã
Ele guardou o apito e foi-se deitar
Não bebeu, não sambou
Não bebeu, mas brigou
Pra se desabafar

No Carnaval da vitória
Ele esperava uma coisa que o povo não fez
Ele apitou e animou
Fez tanta miséria
Mas ninguém se guiou

Hoje existe um sambista magoado
Um apito guardado
E um coração ferido
Foi pracinha e voltou com glória
Queria tomar parte no Carnaval da vitória

- É duro, mestre... Depois disso, o senhor sumiu, né?

— É que, depois, teve aquela confusão toda e o Partido ficou ilegal, né? E
eu caí na clandestinidade. Passei até um tempo escondido em São Paulo pra
vocês verem como eu tava apartado do samba. Mas fui voltando pra zona boa
aos poucos; a malandragem me respeita. Por aqui na área do porto, eu tenho
guarita; sou amigo dos amigos, da velha guarda da estiva. E agora dá
licença, filhos, que eu vou andando que devagar também é pressa. Já são onze
e tem uma roda de jongo pra eu ir lá na Pedra do Sal e tão me esperando pra
organizar a coisa. Sabe como é né? Tô velho, mas ainda sou o "barão das
cabrochas".

E riu de balançar o ombro e fez mais um brinde. Depois, muito sério,
advertiu:

— Vocês só não contem pra Zizica lá do Pau da Bandeira que eu estava por
aqui, ok? E nem pra polícia.

E saiu tocando sua cuíca, que mugia como um boi, para os lados da Praça
Mauá, dizendo que via a gente no Bola. Pouco depois, ouvimos o famoso apito
soando pros lados do Largo do João da Baiana. Marechal, já meio de banda e
muito emocionado, saiu à sorrelfa e foi curtir seu carnaval ao som do Hino
do Bangu no Trapiche Gamboa. Eu dei o braço à minha porta-bandeira e me
abracei com a cidade até a quarta-feira de cinzas.
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