Boa tarde a todos. Obrigada pelo belíssimo e emocionante texto.Sou argentina e 
moro em Mar del Plata, onde ensino idioma portugues.Nas sextas-feiras, dou aula 
de fonética para os alunos da carreira de  Canto e Música Popular, onde una das 
especializaçoes possíveis é a bossa-nova. Além da pronúncia, por respeito a a 
musica do Brasil e também por gosto pessoal, dedicamos sempre um tempo, durante 
as aulas, para aprender e pesquisar acerca da história dos generos, das cançoes 
e dos músicos.Na última sexta-feira, antes do início das férias de inverno, 
assistimos ao filme "Brasileirinho" e os alunos, que nao conheciam Paulo Moura, 
ficaram maravilhados.

Agora, no próximo encontro chegarei com a triste notícia e acho que vou levar a 
história que recebi da Tribuna para partilhar com eles.

Em outubro, haverá na nossa cidade uma festa de "Arte, Cultura e Identidade 
Latinoamericana" onde daremos uma aula aberta  e apresentaremos um trabalho que 
estamos fazendo sobre o que o choro, o samba e o tango tem como origem comum. 
Se alguém conhecer uma cançao ou texto sobre o assunto para recomendar,  serao 
bem-vindos.

Desculpem a falta de acentos  (meu computador está com alguns probleminhas).

Cordialmente.

Laura


 


From: [email protected]
To: [email protected]
Date: Tue, 3 Aug 2010 23:56:20 -0300
Subject: [S-C] RES: Uma homenagem a Paulo Moura





Que bela história, cada um vai fazendo a trilha sonora de sua vida. Obrigado 
pelo link !
 
 
Estêvão

 


De: [email protected] 
[mailto:[email protected]] Em nome de Mauricio Martins
Enviada em: terça-feira, 3 de agosto de 2010 16:12
Para: Tribuna samba e choro; Rogério Martins
Assunto: [S-C] Uma homenagem a Paulo Moura






 
Pessoal, encaminho belo texto sobre Paulo Moura postado no blog Marginal 
Conservador,
Abraços, Maurício Martins
 
por Rogério Martins
Essa música me lembra uma história: Doce de coco, ou Uma homenagem a Paulo 
Moura 


Eu devia ter uns 11 ou 12 anos, não tenho mais certeza. Mas foi mais ou menos 
nesta época que meus pais se mudaram. Continuamos no mesmo bairro, Ramos, mas 
um pouco mais distante de minha escola, onde eu terminava o antigo 2º grau. 
Naquele ano eu comecei a voltar pra casa, após a escola, por um novo caminho, 
com alguns companheiros de turma na maioria das vezes, sozinho outras tantas. 
Saía da escola lá pelo meio-dia e no caminho passava por outra "escola", ou 
melhor, a quadra da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Pertinho da 
escola de samba, havia uma casa da qual eu sempre que passava em frente 
diminuía os passos. Da rua, dava pra escutar perfeitamente o som que vinha de 
dentro: um som de um instrumento de sopro - um saxofone?, uma clarineta? eu não 
sabia. A pessoa que tocava aquele instrumento estava nitidamente praticando, 
ensaiando com afinco para mais tarde tocar para a plateia de dançarinos de uma 
gafieira ou para os bolsos mais afortunados presentes em uma casa mais sóbria, 
como o Teatro Municipal.

Somente mais tarde eu fui descobrir quem era a pessoa que soprava elegantemente 
aquele instrumento, e que me fazia diminuir os passos para ouvir mais um 
pouquinho de sua arte. Tratava-se de Paulo Moura, no curto período em que o 
genial músico morou no meu bairro, no começo dos anos 1980. 

Creio que foi minha mãe que me contou da presença daquele músico que eu pouco 
conhecia. Mas a certeza de que havia um músico respeitado no meu bairro me 
fazia querer conhecer um pouco mais do trabalho dele. Algum tempo depois, uma 
de minhas tias, que adorava comemorar aniversários de forma diferente, avisou à 
família que iria comemorar naquele ano na Lapa. O local escolhido era o Circo 
Voador, onde todo domingo havia a "Domingueira Voadora", com o maestro Severino 
Araújo comandando a Orquestra Tabajara num baile bastante concorrido. Paulo 
Moura não estava lá, mas a grandeza do naipe de metais da orquestra me fez 
lembrar daquele tempo passado.

Mais tarde meu pai apareceu em casa com um disco de gafieira de Paulo Moura. Eu 
já era adolescente e, através de meu pai, um grande fã de músicas de 
orquestras, bossa nova e MPB, comecei a ficar mais eclético e expandir meu 
gosto. Uma música do disco me agradava muito. Era a primeira faixa, o fox 
"Mulher", de autoria de Custódio Mesquita e Sadi Cabral, um grande sucesso dos 
anos 40. Os dois ou três primeiros minutos da gravação resumiam-se a um 
magnífico solo de clarineta de Moura, para somente depois entrar a voz do 
crooner. Perdi a conta de quantas vezes escutei aquela gravação. Outra canção 
que eu adorava ouvir do disco era o choro "Doce de coco", um choro simplesmente 
lindo. 

Sim, eu sei, não são histórias brilhantes, nem muito originais. Mas resolvi 
contá-las depois que ouvi a notícia da morte de Paulo Moura, aos 77 anos, na 
clínica em que estava internado para se tratar de um câncer. Aquele homem que 
sem o saber alegrou meus retornos pra casa após a escola em meus tempos de 
garoto, se foi para sempre. Fico imaginando quem, como eu, não sorriu, dançou, 
amou, brigou, conversou ao som de um solo de sax ou clarineta de Paulo Moura. 
Quantos casais não se formaram depois de dançarem enlevados um fox-trot tocado 
por Paulo? Quantos brasileiros subitamente e sem o perceberem deixaram-se 
seduzir pelos sublimes arranjos da música instrumental dos discos do maestro, 
naquelas belas canções sem palavras? Quantos ignoram até hoje que o talento de 
Paulo Moura esteve presente em quase todos os grandes momentos de nossa música 
nas últimas décadas? 

No ano passado, dei de presente ao meu pai o disco "Dois panos para manga", o 
belo encontro musical de Paulo Moura e João Donato, apenas piano e clarineta em 
versões instrumentais para clássicos brasileiros e americanos. Escutamos juntos 
o CD em casa e no carro. Não havia dúvidas: aquele menino que nascera em São 
Paulo na década de 1930 e que por algum tempo morara em nosso bairro era 
realmente genial.

Paulo Moura se foi no começo desta semana. Morreu sereno e tranquilo como 
sempre foi. Li nos obituários de sua morte que ninguém jamais se lembrara de 
tê-lo visto levantar a voz com algum músico ou esbravejar com alguém. Era de 
uma elegância ímpar, nos gestos e no instrumento. Pouco antes de morrer, Wagner 
Tiso e vários músicos amigos de Paulo o visitaram na clínica São Vicente, nde 
estava internado. Ali, já bastante fragilizado, Paulo pegou a clarineta e 
soprou por uma última vez "Doce de coco". 

Hoje em dia só passo por aquela rua de carro, apressado entre o trabalho e a 
casa onde moro. A casa onde Paulo Moura morou ainda está lá. Sei que nunca mais 
ouvirei o som daqueles sopros musicais vindos lá de dentro. Mas a lembrança 
daquelas caminhadas de volta pra casa e do lento diminuir de passos apenas para 
ouvir o músico, ficarão comigo para sempre.

Adeus, Paulo Moura. 


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