Na casa do samba
'O novo espetáculo consagra um aspecto marcante do samba: a capacidade de falar 
de tudo'
28 de agosto de 2010 | 0h 00
 

Neil Lopes & Samba - O Estado de S.Paulo
 

Visualizem os prezados leitores um luxuoso musical, num moderno e prestigiado 
palco contemplando em seu repertório alguns dos mais belos sambas dos antigos 
carnavais, como, por exemplo, A Fonte Secou, Me Deixa em Paz, Tenha Pena de 
Mim, Tristeza, Se É Pecado Sambar, etc., interpretados por um timaço de 
talentosos artistas, secundados por uma competente e bem timbrada orquestra.



Por outro lado, imaginem, agora, um desfile de escolas de samba igualmente 
luxuoso em que se tematizem coisas como a Companhia Vale do Rio Doce, o 
aquecimento global, o mosquito da dengue, a trajetória do grupo Mamonas 
Assassinas, o petróleo do pré-sal, etc., etc., etc.

 

Imaginaram? Visualizaram? Pois saibam que espetáculos não exatamente com os 
mesmos conteúdos, mas dentro desses dois universos, estão sendo apresentados ou 
idealizados no amplo universo onde correm sinuosos os diversos propósitos e 
habilidades do samba, esse ser amplamente diversificado.

 

O belo e emocionante musical chama-se É Com Esse Que Eu Vou (título de um 
célebre samba de 1947) e está em cartaz num grande teatro da zona sul carioca.

 

Idealizado e escrito por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral, além de dirigido 
por Cláudio Botelho e Charles Moeller, dupla VIP dos palcos brasileiros, ele 
veio na esteira do grande sucesso de Sassaricando, uma espécie de antologia da 
marchinha carnavalesca. Mas se esse era o elogio da picardia e do humor 
sarcástico dos antigos carnavais, o novo espetáculo consagra um aspecto 
marcante do samba, que é a capacidade de falar de tudo, inclusive de coisas 
tristes, mas com molho, balanço e suingue sempre contagiantes. E foi nesse 
território que se consagraram autores como Wilson Batista, Geraldo Pereira, Zé 
da Zilda, Monsueto e tantos outros.

 

Quanto ao estranho desfile mencionado lá em cima, com todos aqueles temas 
esquisitos, saibam os leitores que muita coisa ali já foi levada para a 
referencial Avenida Sapucaí; e outros tantos estão ainda por vir, o que motivou 
um contundente artigo, recentemente publicado na imprensa do Rio, no qual o 
autor, Luiz Antonio Simas, professor de História, diz sobre a safra de enredos 
para 2011, o seguinte: "A tendência, cada vez mais irreversível, é pela 
realização em larga escala de enredos patrocinados ou de fácil apelo popular, 
versando em grande parte sobre assuntos tão ligados ao universo das escolas de 
samba quanto uma peregrinação ao Santo Sepulcro" (artigo O besteirol na 
avenida, O Globo, 14/8/2010).

 

Diante dessas duas realidades, somos forçados a voltar a uma questão já 
levantada neste espaço: samba e escola de samba não são a mesma coisa, assim 
como o gênero-mãe de nossa música popular não é apenas um tipo de música de 
carnaval.

 

Pois a atual modalidade conhecida como "escola de samba" nasceu do samba, sim, 
inclusive como um tipo de movimento associativo que procurava legitimar a 
participação negra no carnaval. Mas hoje é apenas uma forma de espetáculo, 
muitas vezes grandiosa e surpreendente, contudo passível também dos descaminhos 
apontados no artigo do professor Simas.

 

Em meio a essa reflexão, chega-nos a notícia de que o Iphan, Instituto do 
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional vai instalar, num antigo palacete do 
centro do Rio, a Casa do Samba, um centro cultural musical.

 

A notícia é ótima, claro! Mas é preciso pensar no alcance do projeto.

 

De nossa parte, e fazendo eco ao discurso da "circulação da cultura", próprio 
da fala do atual governo, achamos que, preliminarmente, é preciso que se saiba 
qual o samba que vai morar sob o teto do Iphan. Será o da "avenida" ou o dos 
botecos? Será aquele que os programadores não sabem se colocam no escaninho da 
MPB ou da bossa nova, só porque compostos por músicos da elite econômica do 
País? Ou aquele que se reverencia só porque foi feito antes de 1960? Será o dos 
fundos de quintal e dos antigos terreiros? Ou será esse romântico pop, meio 
brega, que já seduz até antropólogos famosos?

 

Quem é do samba, sabe a casa que lhe convém.

 



NEI LOPES É CANTOR, COMPOSITOR E AUTOR DE LIVROS COMO PARTIDO ALTO - SAMBA DE 
BAMBA (2005) 


Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100828/not_imp601540,0.php    
                                  
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