Ainda existem críticas de pensamentos de sobrevôos de algumas pessoas que não conhecem com profundidade o universo encantador e criativo do mundo do repente...ainda existem aqueles que afirmam com toda convicção de que a poesia rimada e metrifica prende a criação do poeta...ainda existem "conceitos" pejorativos tipo "poesia popular", como se a mesma fosse feita de analfabetos para analfabetos. A poesia abaixo é digna de qualquer antologia dos chamados poetas clássicos. Infelizmente a poesia dos repentistas ou dos poetas cantadores ainda é vista de maneira mecância e fria por algumas pessoas que se acham conhecedoras da poesia na sua verdadeira essência. Os decassílabos abaixo desconstroem qualquer preconceito mecanicsita e de pouco conhecimento sobre poesia e sua criação. Se fossem feitos através da escrita, já seriam uma criação de magnitude incrivel pelo conteúdo lírico, bucólico e poético sobre o sertão nordestindo. E feita de improviso? É o fenômeno do repente por meio de uma criação que assombra e impressiona quem tem o prazer de ouvir e sentir dois grades poetas menestréis no auge da inspiração. Abraços Poeta Gilmar Leite
JÓIAS RARAS DO REPENTE DOS NONATOS, VERDADEIRA OBRA PRIMA DA POESIA: Em dezembro: o sol lindo, clima quente; Em janeiro: o vilão da seca morre, Um rosário de pingo d'água escorre No pescoço do rio formando enchente. A mãe terra despida, de repente, Um tecido de flor faz seu pijama Cururu na lagoa escolhe a cama, Pra fazer sem sabão bolha de espuma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama. O relâmpago se acende pra dá show Camponês sem castelo vira rei Quando a voz do trovão diz: eu cheguei! O fantasma da fome diz: já vou! Abra a boca de um silo que lacrou Enche a cuia e não pesa em quilograma Põe na cova, com um mês tem folha e grama Quem plantou grão por grão colhe de ruma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama Chove dez, quinze dias todo mês Qu'a goteira da casa enche os canecos Com excesso de água os açudecos Ameaçam romper-se de uma vez O capim cresce a ponto que uma rês Sem curvar o pescoço alcança a grama E quanto mais o bezerro suga a mama Mas o peito com leite se avoluma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama Do buraco as formigas vem pra fora Os besouros, terreiro nenhum cabe. Quando o céu engravida a nuvem sabe Que vai da luz de chuva a qualquer hora Um lençol de neblina envolve a flora Mexe a gruta um pirão de areia e lama A montanha esfumaça sem ter chama Dá até pra pensar que a terra fuma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama Contra a fome a fartura é um escudo Que não pega zinabre nem ferrugem O baixio coberto de babugem Mais parece um tapete de veludo Quem nos tempos da seca topou tudo Vendo a chuva mudando o panorama Vai dizer ao patrão findou-se o drama Nunca mais planto roça de três ruma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama Vê-se o raio cobrir-se de centelha O terreno rochoso fica mole A garganta da bica toma um gole Quando a flecha da chuva alveja as telhas Produz mais a indústria das abelhas Pelo céu nevoeiro de esparrama Quem tem casa de taipa se reclama Se a parede entortar só Deus apruma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama Quando o vento da chuva não vem manso Quem tem medo de vento um pranto joga Na traquéia do rio a cheia afoga Um balseiro no meio de um remanso, Berra um bode assombrado, nada um ganso E se tremendo com o frio um boi se "acama" E a enchente barrenta com de Brahma O que encontra arrumado, desarruma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama No período que a chuva não se some Fauna e flora se salvam dos maus tratos O carão adivinho ganha status A peitica agourenta perde o nome O trator da fartura enterra a fome A ferida da seca desinflama E o terreno que a flor não embalsama Nem precisa adubar que Deus estruma O nordeste se enfeita e se perfuma Quanto o pranto da nuvem se derrama Nordestino que larga o rancho seu E a morar no sudeste se obriga Quando chega em São Paulo a mulher liga Homem volte pra casa que choveu! Ele mais saudosista do que eu Reafirma que vem num telegrama Quem nasceu no nordeste ao sertão ama E em são Paulo... Nem morto se acostuma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama De encapelo uma torre se levanta Pra que o povo na roça não se queixe Engolindo água nova nada o peixe Sem limite de altura cresce a planta Dando graças a Deus o pássaro canta Parecendo um artista de programa Vendo a chuva lavar o último grama De poeira existente em sua pluma O nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama. (Os Nonatos, 6º Desafio Nordestino de Violeiros).
