Ele 

Cláudia MagalhãesEle foi, aos poucos, abrindo o seu enorme baú de vergonhas. 
Vinícius era o seu nome. Conheço-o desde a mais tenra idade. Crescemos juntos. 
No início, eu o achava destemido, inteligente, ousado, mas, com o passar dos 
anos, ele foi se revelando um ser repugnante, capaz das piores baixezas para 
conseguir o que queria. Aos 22 anos, nos formamos em jornalismo e começamos a 
trabalhar na redação do jornal de um amigo em comum. Apesar dos vexames que ele 
me causava, não conseguia me afastar dele. Sentia, por Vinícius, medo e 
fascínio, uma espécie de obsessão. Com o início do trabalho no jornal, vi a 
adolescência ir embora. Deslocado, no meio daqueles homens mais velhos, eu me 
refugiava, cada vez mais, em sua companhia. Saíamos todas as noites, depois do 
trabalho, para beber. Ele foi se afogando, rapidamente, na bebida. Confesso, 
que sempre senti uma forte atração pelo lado escuro da vida. Mas, depois da 
falsa alegria, só me restava uma forte depressão. Apesar disso, não saberia o 
que fazer da minha vida sem Vinícius. Tinha medo da solidão, de ser consumido 
pela ternura e amor que existiam em mim.Até que conheci Márcia, meu grande 
amor. Imediatamente, me afastei do meu amigo e comecei uma vida nova. Ela me 
devolveu o sono tranqüilo e o dia. Apagou as nuvens cinzas do meu céu e pintou 
um arco-íris. Ela me trouxe a poesia. Depois de dois meses de namoro, nos 
casamos. Todas as noites, ela apagava as luzes da nossa pequena varanda e 
dizia: É na escuridão que melhor enxergamos as estrelas. Mas, existem homens 
que têm medo do escuro e, principalmente, de céu. Eu era um deles.Eu e 
Vinícius, aos poucos, reatamos a nossa amizade. A partir daí, começou o meu 
inferno. Todas as noites, eu via a minha vida se arrastando de bar em bar e 
escorrendo pelos copos. Passei a chegar, cada vez mais, tarde em casa, causando 
tristeza e desgosto à minha amada. A minha vida profissional começou a ruir. 
Sempre colocando o meu nome em jogo, ele começou a desrespeitar o nosso chefe, 
a furar as entrevistas marcadas e a chegar bêbado no trabalho. Fomos demitidos. 
O desgraçado exercia um forte poder sobre mim. Influenciado por ele, virei mais 
uma vítima da piedade e compaixão das pessoas. A que ponto, meus amigos, um 
homem pode chegar! Metíamos-nos em brigas, importunávamos as pessoas, lambíamos 
o chão, impregnando a nossa língua com toda a sujeira do mundo. Até que 
aconteceu o pior.Um dia, cheguei em casa e encontrei Márcia sentada na cama, 
acuada, com o corpo cheio de hematomas. Os seus olhos estavam assustadoramente 
inchados e o seu lábio inferior tinha um corte profundo. Quando ela me viu o 
seu rosto perdeu a cor. Disse-me, gritando aos prantos, que ele, o maldito 
Vinícius, bêbado, entrou no apartamento, feito um louco, dizendo palavras 
obscenas e movido pelas piores danações do mundo, a violentou. Cão dos 
infernos! Excremento do mundo! Ah, meus amigos, senti, naquele momento, a dor 
de mil facadas no peito! Perdi os sentidos. Quando acordei, ela já havia 
partido. Ela se foi e toda a beleza deixou de existir. Ela levou a pureza e a 
alegria. Levou a poesia de Shakespeare, o lirismo de Camões e o encanto das 
músicas. Ela foi embora arrastando o tempo, o perfume e todas as cores. Apagou 
as linhas das minhas mãos, deixando somente uma enorme tristeza. Ela se foi e, 
nas primeiras horas de abandono, multipliquei por mil os meus recalques.Eu 
queria me vingar! Acabar, definitivamente, com aquele lixo! Reuni todas as 
minhas forças e fui ao encontro do maldito. Encontrei-o sujo, bêbado, fedido. 
Levei o canalha para o famoso bar da linha do trem, do outro lado da cidade, 
conhecido por ser freqüentado por marginais da pior espécie. Estava lotado. 
Pedimos uma garrafa de cachaça e começamos a beber. Incentivado por mim, não 
demorou, para o desgraçado arrumar confusão. Falando alto, começou a provocar o 
sujeito da mesa ao lado.- O que você está olhando? Quer levar porrada, seu 
merda?Imediatamente, o sujeito pegou uma faca e ficou encarando Vinícius.- 
Venha, seu corno filho da puta! Covarde!O sujeito enfiou a faca na barriga 
dele, que parecia possuído pelo demônio.-Ah! Ah! Ah! É só isso o que você sabe 
fazer, seu frouxo?Foi tão grotesca a reação que o sujeito se intimidou por 
alguns segundos.- Ora, pelo amor de Deus! Faça o que tem que fazer, 
depressa!Feito um animal selvagem, o sujeito desferiu-lhe várias facadas, Até 
restar-lhe somente um fiapo de vida.Apesar da dor, eu mantinha um sorriso de 
satisfação, de vitória. Com o corpo banhado em sangue, eu agüentava firme. 
Logo, logo, viria a recompensa. Ali, imóvel, eu aspirava o cheiro da morte. 
Feito um urubu aguardando carniça, eu vi a vida fugindo de mim em vermelho. A 
luz foi sumindo aos poucos. É na escuridão que melhor enxergamos as estrelas, 
pensei. Meu nome, Vinícius. Derrotei o meu maior inimigo: eu! 
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