Serrão, 
 
Sempre que ouço falar nessa história da passagem de Mário de Andrade lembro de 
como é difícil para um artista popular ser reconhecido aqui no Brasil. O caso 
de Chico Antônio é emblemático, muito parecido com o do Cartola, no Rio de 
Janeiro. Por aqui, depois do Mário, o "coqueiro" foi esquecido até por Cascudo. 
Viveu no ostracismo durante um bom tempo. E morreria assim, se não fosse 
Deífilo Gurgel, que decidiu mapear os personagens e manifestações populares do 
RN em 1979 e "achou" Chico Antônio em Pedro Velho. Ou seja, o cara teve que ser 
"descoberto" duas vezes!!! A mesma coisa aconteceu com o Cartola. Depois de 
fundar a Mangueira e de uma primeira fase boa, até certo ponto, foi esquecido 
por todos. Até aparecer o Sérgio Porto e encontrá-lo lavando carro, se não me 
engano, em Ipanema. Aí todo mundo sabe o que rolou depois. A história da 
cultura do RN deve o reconhecimento a Chico Antônio à Mário de Andrade e 
Deífilo. Nasceu desse trabalho, por exemplo, o belíssimo disco gravado por 
Khrystal em homenagem ao "coqueiro" há dois anos e, se o poder público se 
entusiasmasse um pouquinho que fosse em difundir e divulgar essa cultura, a 
gente poderia sonhar com uma geração que ao menos conhecesse quem realmente fez 
história nessa terra.    
 
Abs,
 
Rafael Duarte  
 
 


To: [email protected]: [email protected]: Mon, 15 Dec 
2008 05:58:21 -0800Subject: [becodalama] Mário de Andrade em Natal





14/12/2008  por wonden madruga 
Mário de Andrade Está fazendo amanhã, 15, oitenta anos que Mário de Andrade 
andou por Natal. É verdade que o escritor  estivera  no ano anterior, começo do 
segundo semestre de 1927. Mas foi uma passagem rápida, um dia só, vinha 
descendo do Norte, retornando de  longa viagem de navio pela Amazônia. Chegou 
por aqui, no dia 7 de agosto, após desapear em Fortaleza e tirar um fino em 
Areia Branca. No seu livro O Turista Aprendiz, Mário de Andrade anotou: “Em 
Areia Branca, porto de Mossoró. Quatro vapores cargueiros, barcaças... Trinta e 
duas jangadas revoando branquinhas, pousando de pouso em pouco na água picada. 
Não se desce, estamos muito longe da praia. (...)Natal encantou o grande 
escritor paulista, figura maior da Semana de Arte Moderna, de 22 Em seu diario, 
 Mário de Andrade escreveu no dia 7 de agosto de 1927:- E a entrada linda de 
Natal pelas doze horas. Manso o Potenji. Forte do Reis Magos a bombordo. 
Estamos enfim no Rio Grande do Norte, propriedade do meu amigo Luís da Câmara 
Cascudo, quem será? São dezenas de barquinhos se aproximando do Baempendi. 
Nisto vejo um rapaz gesticulando imensamente, exatíssimo no estilo das cartas 
de Cascudinho, era ele. E era mesmo”.É exatamente assim que está registrado no 
diário do criador de Macunaíma (que ainda não havia sido escrito).  Conta ainda 
que deu uma volta por Areia Preta, “praia maravilhosa”, encontrou-se com o 
poeta Jorge Fernandes, tomou uma cerveja “no restaurantinho” (Era o Majestic) e 
jantou na Escola Domestica, “sem discursos”. O prefeito de Natal era Omar 
O’Grady, que foi recebê-lo no caís. A segunda viagem, a de dezembro de 1998, é 
a que se conta de vera. Apesar da tutano da memória  e do significado que essa 
viagem representou para  a literatura e a cultura popular do Rio Grande do 
Norte, a passagem dos 80 da visita de Mário de Andrade mereceu apenas um 
singela lembrança da parte da UFRN, montando uma exposição no Museu Câmara 
Cascudo. Foi totalmente esquecida pelos órgãos culturais do Estado e do 
Município. Natal deve ter sido, depois do Rio de Janeiro, a cidade brasileira 
onde Mário de Andrade mais demorou numa viagem. O autor de “Paulicéia 
Desvairada” passou 43 dias por aqui, incluindo aí algumas entradas pelo 
interior, principalmente Goianinha (Engenho Bom Jardim, onde aconteceu o seu 
encontro com Chico Antônio) e ao sertão do Seridó e às salinas de Macau, 
passando por Assu e, mais adiante subindo à Serra de Martins. Na volta, Acari, 
Santa Cruz, Macaíba. Viu a seca e sofreu. Mário anotou 1.105 quilômetros, 
viajando de automóvel pelos caminhos poeirentos do Rio Grande do Norte.Mário de 
Andrade deixou Natal na manhã do dia 27 de janeiro de 1929 viajando com destino 
a Paraíba. Foi de carro. Aqui chegou vindo de trem, depois de pernoite em 
Guarabira (PB) na manhã do dia 15 de dezembro de 1928. Está anotado no seu 
diário: “Natal, 15 de dezembro, 22 horas: Me deito depois desse primeiro dia de 
Natal. Estou que nem posso dormir de felicidade. Me estiro na cama e o vento 
vem, bate em mim cantando feito coqueiro. Por aqui chamam de “coqueiro” o 
cantador de “cocos” (...)Mais avante, escreve:- O vento de Natal é mano dele 
(do coqueiro). Moro no bairro alto do Tirol, ruas largas, abertas... A erudição 
me lembra as praças da primeira Florença renascente, destinadas aos 
“cantastorie”, onde eles dedilhavam o alaúde, a trompa marinha cantando sem 
mais fim. Aqui também. O vento canta, os passarinhos, a gente do povo passando. 
O homem que leva e traz as vacas daqui de perto, não trabalha sem 
aboiar...”Mário de Andrade foi hóspede de Luís da Câmara Cascudo, na casa do 
seu pai, o coronel Cascudo,  ocupando quase um quarteirão do Tirol, pegando as 
ruas Jundiaí e Apodi e as avenidas Rodrigo Alves e Campos Sales. Em seu livro 
de memórias, O Tempo e Eu, Cascudo descreve a casa do Tirol:- Em fins de 1913, 
meu Pai comprou ao arquiteto Herculano Ramos, por 20.000$, a “Vila Amélia”, no 
Tirol, região de chácaras entre as avenidas Campos Sales e Rodrigues Alves, 
Apodi ao fundo e à frente a Jundiaí, onde tinha o no. 93. Meu Pai murou-a de 
balaustres, instalou-se confortavelmente, com a mobília que pertencera ao 
senador Pedro Velho, de jacarandá entalhado, sofás imensos e cadeirões fofos, 
dignos das saias-balão, para a sala de entrada. Sala de visitas pintada a óleo, 
com grinaldas e florões, pelo espanhol Rafael Fuster, pintor, barítono e 
artista teatral, encalhado em Natal. (...) Pérgola, do terraço ao portão na 
Jundiaí. Luz elétrica, telefone e a carrocinha do gelo fazia entrega matinal. 
Tetos forrados em fundo de masseira. Lustres de cristal. Dois salões de jantar. 
Nove criados. Moinho de vento, “catavento”, como se dizia, girando aos alísios, 
garantindo água encanada. Grande banheiro resplandecente. Mosaicos belgas em 
toda a extensão residencial. No saguão, iluminado pelos janelões de reixas, 
abria-se a primitiva biblioteca de Herculano Ramos (...)Mário de Andrade passou 
aqui as festas doo Natal, viu a passagem do Ano Novo e as festas dos Reis 
Magos,  “festa de reis”.  Ele conta assim:“Noite de Natal - A população de 
desloca pras alturas do Tirol e da Solidão, bairros vizinhos. Os bondes, os 
autos, as “dondocas” (ônibus) vêm cheios. Gente de branco, gente de encarnado, 
de azul, moças bonitas, soldadinhos, no geral gente chata, de pele bronzeada, 
cabelo liso acastanhado, boas dentaduras se rindo, pouca mulataria.- A capela 
de Santa Terezinha inda não possui telhas e aproveitaram a noite de Jesus pra 
uma quermesse branda (...) Junto das barracas do América e do A.B.C., clubes de 
futebol, a rapaziada faz um sarceiro gostoso, cantando cocos (...) Guardado da 
rua, no “sítio” (chacra) do coronel Cascudo, as meninas bailam no Pastoril. São 
umas deliciosas de canhatãs, descompanhadas de piano e violino, com tanta 
graça, tanta desenvoltura no gesto que o futuro da pátria aqui está (...) Umas 
defendem o cordão encarnado. Outras o azul. No meio a Diana, caçadora sem 
nenhuma Grécia, celebra com gostosura o nascimento de Jesus, menina linda, 
graça esplêndida, estrelinha nos cabelos, pandeiro prateado na mão. Não tem 
dúvida que o espetáculo é um bocado “biblothèque rose”, porém agrada os meios 
passeios.- Me afasto um bocado e já estou na Solidão. Dou de cara com a 
Chegança dançando na porta dum... importante, de certo... O cordão está 
alinhadíssimo, a moraima de encarnado, os cristãos, vestidos de marujos numa 
brancura polida relumeando. Gente pobríssima que gastou o que tinha pra 
aparecer assim. O capitão “mar de guerra” é um embarcadiço já vivido, 
respeitável. (...) A dança é longa demais. Um esforço muscular que dura três, 
quatro horas. Me retiro tonto de comoção quando o coro conta que quem venceu 
definitivamente os mouros foi o duque de Caxias. São 24 horas quase...” Natal 
tinha coisa de 30 mil habitantes. 

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