14/12/2008 por wonden madruga
Mário de Andrade Está fazendo amanhã, 15, oitenta anos que Mário de Andrade
andou por Natal. É verdade que o escritor estivera no ano anterior, começo do
segundo semestre de 1927. Mas foi uma passagem rápida, um dia só, vinha
descendo do Norte, retornando de longa viagem de navio pela Amazônia. Chegou
por aqui, no dia 7 de agosto, após desapear em Fortaleza e tirar um fino em
Areia Branca. No seu livro O Turista Aprendiz, Mário de Andrade anotou: Em
Areia Branca, porto de Mossoró. Quatro vapores cargueiros, barcaças... Trinta e
duas jangadas revoando branquinhas, pousando de pouso em pouco na água picada.
Não se desce, estamos muito longe da praia. (...)
Natal encantou o grande escritor paulista, figura maior da Semana de Arte
Moderna, de 22 Em seu diario, Mário de Andrade escreveu no dia 7 de agosto de
1927:
- E a entrada linda de Natal pelas doze horas. Manso o Potenji. Forte do Reis
Magos a bombordo. Estamos enfim no Rio Grande do Norte, propriedade do meu
amigo Luís da Câmara Cascudo, quem será? São dezenas de barquinhos se
aproximando do Baempendi. Nisto vejo um rapaz gesticulando imensamente,
exatíssimo no estilo das cartas de Cascudinho, era ele. E era mesmo.
É exatamente assim que está registrado no diário do criador de Macunaíma (que
ainda não havia sido escrito). Conta ainda que deu uma volta por Areia Preta,
praia maravilhosa, encontrou-se com o poeta Jorge Fernandes, tomou uma
cerveja no restaurantinho (Era o Majestic) e jantou na Escola Domestica, sem
discursos. O prefeito de Natal era Omar OGrady, que foi recebê-lo no caís.
A segunda viagem, a de dezembro de 1998, é a que se conta de vera. Apesar da
tutano da memória e do significado que essa viagem representou para a
literatura e a cultura popular do Rio Grande do Norte, a passagem dos 80 da
visita de Mário de Andrade mereceu apenas um singela lembrança da parte da
UFRN, montando uma exposição no Museu Câmara Cascudo. Foi totalmente esquecida
pelos órgãos culturais do Estado e do Município. Natal deve ter sido, depois do
Rio de Janeiro, a cidade brasileira onde Mário de Andrade mais demorou numa
viagem. O autor de Paulicéia Desvairada passou 43 dias por aqui, incluindo aí
algumas entradas pelo interior, principalmente Goianinha (Engenho Bom Jardim,
onde aconteceu o seu encontro com Chico Antônio) e ao sertão do Seridó e às
salinas de Macau, passando por Assu e, mais adiante subindo à Serra de Martins.
Na volta, Acari, Santa Cruz, Macaíba. Viu a seca e sofreu. Mário anotou 1.105
quilômetros,
viajando de automóvel pelos caminhos poeirentos do Rio Grande do Norte.
Mário de Andrade deixou Natal na manhã do dia 27 de janeiro de 1929 viajando
com destino a Paraíba. Foi de carro. Aqui chegou vindo de trem, depois de
pernoite em Guarabira (PB) na manhã do dia 15 de dezembro de 1928. Está anotado
no seu diário: Natal, 15 de dezembro, 22 horas: Me deito depois desse primeiro
dia de Natal. Estou que nem posso dormir de felicidade. Me estiro na cama e o
vento vem, bate em mim cantando feito coqueiro. Por aqui chamam de coqueiro o
cantador de cocos (...)
Mais avante, escreve:
- O vento de Natal é mano dele (do coqueiro). Moro no bairro alto do Tirol,
ruas largas, abertas... A erudição me lembra as praças da primeira Florença
renascente, destinadas aos cantastorie, onde eles dedilhavam o alaúde, a
trompa marinha cantando sem mais fim. Aqui também. O vento canta, os
passarinhos, a gente do povo passando. O homem que leva e traz as vacas daqui
de perto, não trabalha sem aboiar...
Mário de Andrade foi hóspede de Luís da Câmara Cascudo, na casa do seu pai, o
coronel Cascudo, ocupando quase um quarteirão do Tirol, pegando as ruas
Jundiaí e Apodi e as avenidas Rodrigo Alves e Campos Sales. Em seu livro de
memórias, O Tempo e Eu, Cascudo descreve a casa do Tirol:
- Em fins de 1913, meu Pai comprou ao arquiteto Herculano Ramos, por 20.000$, a
Vila Amélia, no Tirol, região de chácaras entre as avenidas Campos Sales e
Rodrigues Alves, Apodi ao fundo e à frente a Jundiaí, onde tinha o no. 93. Meu
Pai murou-a de balaustres, instalou-se confortavelmente, com a mobília que
pertencera ao senador Pedro Velho, de jacarandá entalhado, sofás imensos e
cadeirões fofos, dignos das saias-balão, para a sala de entrada. Sala de
visitas pintada a óleo, com grinaldas e florões, pelo espanhol Rafael Fuster,
pintor, barítono e artista teatral, encalhado em Natal. (...) Pérgola, do
terraço ao portão na Jundiaí. Luz elétrica, telefone e a carrocinha do gelo
fazia entrega matinal. Tetos forrados em fundo de masseira. Lustres de cristal.
Dois salões de jantar. Nove criados. Moinho de vento, catavento, como se
dizia, girando aos alísios, garantindo água encanada. Grande banheiro
resplandecente. Mosaicos
belgas em toda a extensão residencial. No saguão, iluminado pelos janelões de
reixas, abria-se a primitiva biblioteca de Herculano Ramos (...)
Mário de Andrade passou aqui as festas doo Natal, viu a passagem do Ano Novo e
as festas dos Reis Magos, festa de reis. Ele conta assim:
Noite de Natal - A população de desloca pras alturas do Tirol e da Solidão,
bairros vizinhos. Os bondes, os autos, as dondocas (ônibus) vêm cheios. Gente
de branco, gente de encarnado, de azul, moças bonitas, soldadinhos, no geral
gente chata, de pele bronzeada, cabelo liso acastanhado, boas dentaduras se
rindo, pouca mulataria.
- A capela de Santa Terezinha inda não possui telhas e aproveitaram a noite de
Jesus pra uma quermesse branda (...) Junto das barracas do América e do A.B.C.,
clubes de futebol, a rapaziada faz um sarceiro gostoso, cantando cocos (...)
Guardado da rua, no sítio (chacra) do coronel Cascudo, as meninas bailam no
Pastoril. São umas deliciosas de canhatãs, descompanhadas de piano e violino,
com tanta graça, tanta desenvoltura no gesto que o futuro da pátria aqui está
(...) Umas defendem o cordão encarnado. Outras o azul. No meio a Diana,
caçadora sem nenhuma Grécia, celebra com gostosura o nascimento de Jesus,
menina linda, graça esplêndida, estrelinha nos cabelos, pandeiro prateado na
mão. Não tem dúvida que o espetáculo é um bocado biblothèque rose, porém
agrada os meios passeios.
- Me afasto um bocado e já estou na Solidão. Dou de cara com a Chegança
dançando na porta dum... importante, de certo... O cordão está alinhadíssimo, a
moraima de encarnado, os cristãos, vestidos de marujos numa brancura polida
relumeando. Gente pobríssima que gastou o que tinha pra aparecer assim. O
capitão mar de guerra é um embarcadiço já vivido, respeitável. (...) A dança
é longa demais. Um esforço muscular que dura três, quatro horas. Me retiro
tonto de comoção quando o coro conta que quem venceu definitivamente os mouros
foi o duque de Caxias. São 24 horas quase...
Natal tinha coisa de 30 mil habitantes.
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