http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u579837.shtml

11/06/2009 - 08h35
Comissão diz que turnê de Caetano Veloso não precisa de
incentivo

MARCIO AITH
da Folha de S.Paulo

A Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que analisa os
projetos aspirantes ao benefício da Lei Rouanet, negou autorização
para que os produtores do músico baiano Caetano Veloso captem
patrocínio para o novo trabalho do artista, o CD "Zii e Zie".

Em reunião do último dia 21 de maio, a comissão decidiu que o
projeto "Tour Caetano Veloso", no valor de R$ 2 milhões, não
precisa de incentivo por ser comercialmente viável. O projeto
prevê a realização de shows em 22 capitais.
13.abr.2009/Rafael Andrade/Folha Imagem
Comissão que analisa projetos aspirantes ao benefício da Rouanet
diz que turnê, no valor de R$ 2 milhões, não precisa de
incentivo
Comissão que analisa projetos aspirantes ao benefício da Rouanet
diz que turnê, no valor de R$ 2 milhões, não precisa de
incentivo

No entanto, é muito provável que essa decisão seja derrubada
nos próximos dias pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira.

Ao ministro cabe rever as decisões da CNIC. No ano passado, ele
derrubou o veto da comissão à turnê da cantora Maria
Bethânia, que pedia autorização para buscar R$ 1,8 milhão em
patrocínio.

Naquela ocasião, a CNIC rejeitou o show pelo mesmo motivo que nega
agora autorização para o show de Caetano: a receita de bilheteria
"tornaria desnecessária a utilização de incentivo fiscal na
realização do evento". Ferreira derrubou a decisão e viabilizou o
patrocínio de Bethânia, com dinheiro de renúncia fiscal.

Naquele episódio, como agora, o ministro dizia concordar com o
sentido da decisão do CNIC, mas não com a forma. Segundo Ferreira,
a Lei Rouanet não possui um critério específico para impedir o
patrocínio de espetáculos comercialmente viáveis. Para ele, a
orientação da CNIC seria justa, mas não legal.

Esta suposta omissão legal é justamente um dos motivos pelos quais
o ministro pretende reformar a Lei Rouanet.

A Folha apurou que Ferreira também foi alvo de forte pressão de
Paula Lavigne, ex-mulher e empresária de Caetano, para que a
decisão da CNIC fosse revertida.

Em debate anteontem, Ferreira referiu-se obliquamente à decisão da
CNIC no caso de Caetano. Disse que "estão tentando", sem sucesso,
usar o episódio para causar intriga entre ele e um conterrâneo
(Juca Ferreira e Caetano Veloso são baianos).

Questionado pela Folha sobre o tema, Caetano comentou, por e-mail:
"Não. Não há nenhum estremecimento entre mim e o ministro. Ele
foi assistir ao meu show em Brasília e conversamos bastante".


13/06/2009 - 09h08
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u580495.shtml
"Ministério não tem vocação para irmã Dulce", diz Juca
Ferreira

MARCIO AITH
da Folha de S.Paulo

"Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O
ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre
Teresa de Calcutá." Com essas palavras o ministro da Cultura, Juca
Ferreira, indicou à Folha que irá rever a decisão que proibiu
produtores do músico Caetano Veloso de captar patrocínio da Lei
Rouanet para divulgar o novo CD do artista, "Zii e Zie".

Em reunião em maio, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura
(CNIC) decidiu que o projeto, no valor de R$ 2 milhões, não
precisa da Rouanet por ser comercialmente viável.

A CNIC é um órgão colegiado que pertence ao Ministério da
Cultura. O ministro pode, a seu critério, rever as decisões da
comissão. Ferreira negou ter sofrido pressões da empresária
Paula Lavigne, ex-mulher e empresária de Caetano, para que a
decisão fosse revertida: "Ela não fez nenhum sauê, apenas ligou
para mim e perguntou qual critério tinha sido utilizado para Caetano
que ela não percebia que tinha sido usado para outras pessoas". Leia
a seguir a entrevista.

Folha - O sr. vai rever o veto a Caetano Veloso?

Juca Ferreira - A produção de Caetano entrou com o recurso, que vai
ser analisado pelo ministério. Estou acompanhando. Evito ao máximo
rever decisões da CNIC. Só quando ocorre um erro muito contundente
procuro chamá-los à razão.

Folha - Que erro foi esse?

Ferreira - O que houve é o seguinte. Não é possível aplicar
um critério para um artista e não aplicar para outro. A lei atual
não tem nenhum critério que diga que os artistas bem-sucedidos
não podem ter seus projetos aprovados, e nem a nova deverá ter. No
ano passado, quando eu intervim para aprovar o show da Maria Bethânia
[a CNIC também tinha negado acesso da cantora à Rouanet], já
tínhamos aprovado projetos da Ivete Sangalo, artista mais
bem-sucedida comercialmente em todos os tempos. Não podemos sair
discricionariamente decidindo, sem critérios legais.

Folha - A empresária Paula Lavigne pressionou-lhe para rever a
decisão sobre Caetano?

Ferreira - Ela não fez nenhum sauê, apenas ligou para mim e
perguntou qual critério tinha sido utilizado para Caetano que ela
não percebia que tinha sido usado para outras pessoas. Eu, da mesma
maneira que ela, também estranhei. Eu e Caetano nem tratamos do
assunto.

Folha - Sobre o que o senhor conversou com Caetano?

FERREIRA - Falamos de uma série de coisas, menos do projeto. Eles
[Caetano e Paula Lavigne] têm agido com uma delicadeza enorme. Eu
é que estou mobilizado porque esse assunto surge neste momento final
de discussão para a reforma da Lei Rouanet. Estamos ganhando a
opinião pública, trazendo os artistas para uma escala de
confiança maior. E não é justo que [a CNIC] tome essa
decisão. Podem estar querendo me atritar com Caetano. Estão
tentando arregimentar artistas consagrados contra a reforma.

Folha - O senhor diz que não há critério legal para negar o
projeto de Caetano Veloso. Se não existe critério, por que
musicais como "Peter Pan" e "Miss Saigon", e exposições como
"Leonardo da Vinci" e "Corpo Humano" foram negados?

Ferreira - Não vou aqui discutir casos. Frequentemente há erros,
eu tenho dito isso. É justamente a falta de critérios que cria
ambiente para julgamentos subjetivos. Um dos objetivos da reforma da lei
é adotar critérios previamente legitimados pela discussão
pública.

Folha - Não há uma contradição entre o espírito da reforma
da Lei Rouanet, baseada no uso de dinheiro público para quem precisa,
e a decisão de estender a lei a Caetano, um artista consagrado?

Ferreira - De modo algum. O show já está em turnê, cobrando um
preço. Seus produtores se dispuseram a reduzi-lo para pouco menos da
metade se for incorporado dinheiro público. Ao que parece, o ingresso
cairia para R$ 40 inteira, e R$ 20 meia. Isso possibilita a ampliação
de pessoas na plateia. Atende a uma demanda nossa, a de que um artista
bem-sucedido amplie seu público. Não é contraditório.
Queremos uma política cultural sólida, mas não faremos isso sem
os grandes artistas brasileiros.

A única coisa que apontamos é que, da maneira como a lei é
hoje, os artistas novos, de diversos Estados, não têm acesso à
lei. Não sou masoquista para trabalhar só com artistas
malsucedidos. O ministério não tem vocação de irmã Dulce nem
de Madre Teresa de Calcutá. Um artista conhecido pode ter dificuldade
de conseguir patrocínio para uma obra experimental, ou pode ser do
interesse público abaixar os preços de um espetáculo popular.
Deve-se avaliar economicamente cada projeto, o que hoje a lei sequer
prevê.

A discussão não está aí.

Folha - Qual é a discussão?

Ferreira - Mais de 20% dos recursos da lei vazam por meio de serviços
de "garantias", assim, com aspas, de aprovação de projetos no
Ministério e de captação em departamentos de marketing de
empresas. A sociedade não aguenta mais negociações por baixo da
mesa.


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