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Construindo um conceito de Radicalização
Democrática<http://www.estrategiaeanalise.com.br/ler02.php?idsecao=e8f5052b88f4fae04d7907bf58ac7778&&idtitulo=5c2335bd4398a8bd6934a7278dbfb63a>

15 de junho de 2009, da terra de Sepé e Languiru, por Bruno Lima Rocha


Com o texto abaixo, além dos artigos de conjuntura, focados na análise
política, farei minha contribuição naquilo que dá base analítica. Assim, aos
poucos vou expondo a base conceitual da teoria política que fundamenta
minhas análises das realidades.

Neste artigo abordo a proposta e o debate de uma concepção de democracia
como forma social de ampliação de direitos. O tema passa necessariamente por
discutir como se dá a criação de um conceito de processo para a
radicalização democrática aplicável na acumulação de forças onde atua uma ou
mais organizações políticas como um motor de atuação do movimento popular.
Isto é, peleando de dentro da democracia liberal para avançar na democracia
social. Deixo exposto aqui que esse é o modo de se organizar politicamente
que defendo, teorizo e modestamente também pratico como
militante.<http://www.estrategiaeanalise.com.br/ler02.php?idsecao=e8f5052b88f4fae04d7907bf58ac7778&&idtitulo=5c2335bd4398a8bd6934a7278dbfb63a>

Entendo que, para radicalizar a democracia, é necessário escolher onde se
quer estar e atuar. Sem elencar as arenas corretas e prioritárias, é
impossível acumular forças para o empoderamento dos sujeitos sociais.
Entendo que sujeitos sociais são os setores de classe a ser organizados
pelos agentes sociais. Essa função de minoria ativa – os agentes - também é
apontada como necessária. Os sujeitos sociais têm de ser alvo de trabalho e
relação, visando organizar-se cotidianamente. Vale ressaltar também que isso
se faz de dentro, como parte de um povo em movimento, e não de fora como uma
suposta elite esclarecida. Já o ordenamento de tempos e ações é urgente.
Isto porque, na ausência de um planejamento próprio, o poder de agenda é
imposto pelas arenas institucionais consagradas e midiatizadas. Ou seja, a
agenda de luta é pautada por reagir às ações impostas e não de avançar em
projetos de interesse coletivo.

Voltando ao conceito de democracia, o problema é de ordem teórica. Com a
falta de uma teoria democrática que contemple o processo político de
empoderamento dos sujeitos sociais organizados coletivamente na forma de
movimentos populares, os passos destes movimentos sempre serão reativos e
não proativos. Assim sendo, perde o sentido uma Organização Política que
supere o papel de intermediação-representação e se proponha a servir de
motor e força estratégica deste mesmo processo. A proposta deste texto é
expor, a partir de uma leitura rápida de uma idéia sintética, do porque a
teoria política praticada na América Latina, em geral, permanece submissa
aos parâmetros das idéias impostas pela ciência política praticada sob as
bases do neoinstitucionalismo, corrente de pensamento que é o braço político
do neoliberalismo.

Reconheço e vejo como urgente o estabelecimento de um debate no interior das
esquerdas sociais, de definir um projeto político que contemple a democracia
em sua radicalidade, a diversidade de idéias no campo da esquerda, do poder
popular como forma de organização social não-estatista e da garantia e
avanço dos direitos fundamentais da maioria dos latino-americanos. Para isso
é preciso debater como seria um processo de acumulação de forças visando à
construção deste projeto político por fora e muitas vezes em contra a
jogatina eleitoral da democracia de mercado (liberal, representativa,
delegativa, ritualística sem conteúdo).

Na defesa e busca de um novo paradigma; de um novo ponto de vista e
interpretação

Neste texto afirmo que a idéia de política vive uma crise, e que
especificamente, falta teoria para a democracia radical. Como se sabe, sem
teoria de câmbio, não há a menor possibilidade de transformar a nada.
Entendo a teoria como um conjunto de idéias-guia, de conceitos operacionais
e de um discurso articulado e coerente. Mas, que este conceito precisa ser
testado e praticado. Esta é a diferença fundamental de teoria para fantasia.


Infelizmente, as teorias democráticas referenciadas na América Latina têm de
exercer uma constante luta intelectual para ser reconhecidas por seus pares.
Isto não é novidade, nem no universo das ciências humanas do Continente, e
tampouco no intestino de uma parte da esquerda que é tão eurocêntrica e
colonizada em sua essência como as transnacionais as quais combatemos. Vou
além, ouso afirmar que a luta de idéias e de conceitos-chave é algo tão
agressivo como uma batalha campal. Rodolfo Walsh, jornalista e mártir da
Argentina, dizia praticar o “violento ofício de escrever”; Michel Foucault
afirma que a “ciência é algo dolorido e o estudo é também sofrimento”. Vejo
a batalha teórica-epistemológica como parte de nossa longa marcha de mais de
500 anos para nos constituirmos.

No caso de uma Organização Política, a opção por variáveis
macro-explicativas em detrimento de outras, é da natureza da ação. Preferir
algo é ferir, é dizer “isto vai” “aquilo não vai”. Parto do princípio que o
fazer político está submetido à dimensão ideológica e que isto é
constitutivo, passando longe de qualquer bobagem de “falsa consciência” ou
“espelho invertido da realidade”. A dimensão ontológica está para a ciência
como a ideológica está para a teoria empírica do fazer política. Esta se
apresenta na motivação da teoria e da ação, e ao analisar as realidades
aparentes (porque são várias ao invés de uma), implica necessariamente nas
escolhas feitas, nas ferramentas de análise elencadas como válidas e no uso
de um corpo conceitual que seja coerente com os pressupostos teóricos, os
métodos de trabalho e o suporte ideológico dos próprios ativistas e
militantes.

Estas características, da relação entre ideologia, idéias-guia (doutrina) e
teoria não contêm nenhuma contradição ou conflito inerente. Sou contra toda
e qualquer idéia de cientificismo, e considero absurda uma noção de que
exista uma consciência própria de cada classe ou sujeito social. Isso
simplesmente não existe. A consciência se forja de acordo com as
identidades, as opções, as lutas vividas, e pelo tipo de aprendizado
político-pedagógico que um setor ou conjunto de setores oprimidos tenham
passado e sofrido. Os valores essenciais da liberdade, da diversidade, da
igualdade de direitos e condições básicas de vida, necessitam de uma teoria
política que jogue para acumular forças no rumo de uma democracia política
de base libertária. Este regime político, o do federalismo de base popular e
democrática, deve ser sustentado por um modelo de desenvolvimento e
conseqüente modo de produção sustentável, auto-gestionário e voltado para
atender as maiorias.

Internalizar o projeto social é vetar o fetiche do consumo como realização

Tudo o exposto acima também implica que os militantes produzam uma cultura
para seu desenvolvimento na mudança social proposta. Ou seja, que estas
minorias sejam permeáveis ao que passa ao seu redor, mas ao mesmo tempo,
consigam agregar uma série de valores solidários, remando contra a maré das
sociedades de consumo desenfreado e das relações superficiais. Passa também
por determinadas mudanças de comportamento cotidiano, internalização do
projeto de longo prazo e a convicção no estilo de trabalho (processo e
comportamento militante, calcados na modéstia e na tenacidade). Um processo
de democracia radical deve apontar para outras formas de poder, tendo como
condição de existência que sua direção seja de baixo para cima e não o
inverso. Desse abaixo e esse acima, não significa hierarquia, mas sim
instâncias organizativas sociais, construídas pelos que estão na base da
pirâmide social.
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