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A ÉTICA DO POETA MENTIROSO



*Por Rafael Duarte* *

Há dois domingos, o Novo Jornal, veículo para o qual trabalho, publicou uma
reportagem minha sobre o Beco da Lama. Embora abrangente, com espaço para
freqüentadores, moradores, proprietários dos botecos e personagens que
habitam aquele pedaço do Centro Histórico, o foco da matéria era a criação
da Bamba, entidade recém-fundada por um grupo de freqüentadores do Beco, e
sua relação com a Samba, sociedade organizada na mesma região há 15 anos. As
duas convergem, pelo menos na teoria, para a luta em defesa do Centro
Histórico e, por conta disso, a polêmica foi levantada em cima das razões de
se criar uma nova entidade para o mesmo fim. A reportagem cumpriu seu papel
de trazer à tona várias questões envolvendo as duas entidades e jogou luz à
divisão política que existe, hoje, na região do Beco da Lama.

 Era óbvio, como toda polêmica, que a matéria geraria reações diversas tanto
a favor como contra. E foi assim. No entanto, nenhuma delas foi tão ardilosa
e desqualificante como a acusação a mim imposta pelo poeta e diretor da
Bamba, Plínio Sanderson. Baseado em ‘achismos’ e ‘ilações’ mentirosas, o
rapaz me incutiu a pecha de antiético por entender do texto que, segundo
ele, eu entrevistei o presidente da Samba, Augusto Lula antes e depois de
falar com Dunga, o diretor da Bamba. Na imaginação criada e divulgada de
forma leviana por Plínio Sanderson, o repórter atuou como leva-e-traz para
beneficiar a Samba.

 Pois bem. Depois de ler e reler os ataques divulgados por email por
Sanderson, que chegaram a mim através de um amigo porque mesmo tendo meu
endereço eletrônico o rapaz não me enviou o texto, me lembrei do jornalismo
mau-caráter praticado pela revista Veja, “a única revista americana escrita
em português”, segundo o jornalista José Arbex Júnior.  Na falta do que
dizer para atacar e acusar seus opositores, a Veja costuma se valer do mesmo
artifício usado agora por Plínio Sanderson: a criação de factóides,
mentiras.

 E explico. Na semana da festa que celebrou a criação da Bamba, o jornalista
Alexandro Gurgel publicou, no blog que assina grandeponto.blogspot.com.br  uma
entrevista com Dunga sobre as razões da criação da Bamba. No texto, em
formato ping-pong de perguntas e respostas, o diretor da Bamba critica a
gestão da Samba e diz rigorosamente tudo aquilo que repetiu a mim, quase uma
semana depois. Num jornal, como o senhor Sanderson deveria saber, há uma
etapa chamada edição e, no final das contas, acabou ficando de fora algumas
coisas, além é claro dos ataques pessoais de ambos os lados. E não foram
poucos.

 Portanto, Augusto Lula, quando entrevistado na única vez em que nos falamos
na semana da reportagem, antes de Dunga, respondeu as perguntas fazendo
referência aos ataques direcionados a gestão dele pelo diretor da Bamba e
tornado público por Alexandro Gurgel através do blog ‘Grande Ponto’. Mas
ainda assim fica uma dúvida: ou a relação de Plínio Sanderson com os blogs é
apenas ‘poética’ ou o diretor da Bamba não acredita no sucesso do blog de
seu amigo.  Alguém precisa comunicar ao poeta Sanderson o que se fala e o
que se diz sobre a entidade que ele dirige com um grupo de amigos sob pena
de cair no ridículo de inventar fatos para atacar quem quer que seja.


 Desde que o ministro do STF, Gilmar Mendes, decidiu acabar com a
obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, muita gente
entendeu o ato como se a porteira estivesse escancarada para quem quisesse
se arvorar no ofício. Alguns passaram a acreditar na possibilidade da
concretização de um sonho ou desejo frustrado de se tornar profissional sem
precisar passar pelos bancos das universidades; outros viram um espaço novo
para a picaretagem pura e simples. Pouquíssimos, no entanto, atentaram para
o fato de que, mesmo com toda a abertura possível, a prática jornalística
decente e responsável deve obedecer a alguns critérios básicos que, ao
servir para a profissão, servem igualmente para qualquer situação da vida: a
checagem da informação e a pluralidade dos discursos que nada mais é, no
jargão jornalístico, que ‘ouvir os dois lados da história’. Nenhum desses
dois preceitos e princípios básicos foi respeitado pelo senhor Plínio
Sanderson. Não é à toa que temos conceitos distintos sobre ética.



**Rafael Duarte é Jornalista diplomado DRT 1250*

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