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Assunto: [conselhonacionalmndh] DIPLOMACIA DO BRASIL
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Data: Domingo, 30 de Maio de 2010, 11:49

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DER SPIEGEL 29/05/2010

Lula salta para a primeira divisão da diplomacia mundial

 

Erich Follath e Jens Glüsing

 

Transpirando autoconfiança, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva 
está elevando o status global do seu país ao protagonizar um número cada vez 
maior de iniciativas na área de política internacional. Na mais recente dessas 
ações, ele convenceu o Irã a concordar com um polêmico acordo nuclear. Poderia 
este acordo proporcionar uma oportunidade para que sejam evitadas sanções e 
guerra?

Ele foi acusado de ser muitas coisas no passado, incluindo um comunista, um 
proletário grosseiro e um alcoólatra. Mas a época dessas acusações acabou há 
muito tempo. À medida que o Brasil cresce para tornar-se uma nova potência 
econômica, a reputação do presidente brasileiro cresce de forma meteórica. Hoje 
em dia muita gente vê o presidente como um herói do hemisfério sul e um 
importante contrapeso em relação a Washington, Bruxelas e Pequim. A revista de 
notícias norte-americana “Time” foi além, duas semanas atrás, ao afirmar que 
ele é “o líder político mais influente do mundo”, colocando-o à frente até 
mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. No Brasil, muita gente vê 
em Lula da Silva um candidato ao Prêmio Nobel da Paz.

Nova estratégia de segurança dos EUA admite peso do Brasil no mundo

A Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos, anunciada nesta quinta-feira 
(27) pela Casa Branca, elogia as políticas econômicas e sociais do Brasil, 
reconhece o país como guardião de “patrimônio ambiental único” e dá as 
“boas-vindas” à influência de Brasília no mundo.

E agora este homem, Luiz Inácio da Silva, 64, apelidado de “Lula”, que passou a 
infância em um cortiço como filho de pais analfabetos, conseguiu mais outra 
vitória política no exterior. Em uma reunião que foi uma verdadeira maratona 
política, ele negociou um acordo nuclear com a liderança iraniana. Na última 
segunda-feira, ele apareceu triunfante ao lado do primeiro-ministro turco Recep 
Tayyip Erdogan e do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Os três líderes 
chegaram a um acordo que eles acreditam que retirará da agenda internacional as 
previstas sanções da Organização da Nações Unidas (ONU) contra o Irã devido ao 
possível programa de armas nucleares do país. O Ocidente, que vinha fazendo 
pressões pela adoção de medidas punitivas mais duras contra o Irã, pareceu ter 
sido feito de bobo, e até ter sido pego de surpresa.

Mas o contra-ataque de Washington veio no dia seguinte, abrindo um novo 
capítulo nesta acalorada disputa nuclear, na qual Pequim, em especial, há muito 
vem resistindo a adotar uma abordagem mais dura. A secretária de Estado 
norte-americana Hillary Clinton anunciou: “Nós chegamos a um acordo baseado em 
medidas fortes com a cooperação tanto da Rússia quanto da China”. O texto 
relativo às sanções planejadas contra o Irã foi enviado a todos os membros do 
Conselho de Segurança da ONU, incluindo o Brasil e a Turquia. Os dois países 
são membros eleitos para ocuparem durante dois anos esse conselho que têm 15 
integrantes, e que precisa aceitar uma resolução com pelo menos nove votos para 
que esta possa ser implementada.

Os Estados Unidos mostram-se irredutíveis quanto às sanções

Clinton agradeceu especificamente a Lula pelos seus “esforços sinceros”. Mas a 
sua expressão indicava claramente que ela viu os esforços de lula mais como um 
impedimento do que como uma ajuda. “Nós estamos procurando o apoio da 
comunidade internacional a uma resolução composta de sanções fortes que, 
segundo o nosso ponto de vista, constituir-se-ão em uma mensagem muito clara a 
respeito daquilo que se espera do Irã”, afirmou Hillary Clinton.

Mas a abordagem menos confrontativa de Lula nesta disputa nuclear não seria 
muito mais promissora? Seria tão fácil assim desacelerar o “Lula Superstar”, 
que conta com o apoio da Turquia, um país membro da Organização do Tratado do 
Atlântico Norte (Otan)? Quem quer que tenha acompanhado a carreira de Lula 
achará difícil acreditar nisso. Este homem sempre superou todas as 
resistências, e todos os cenários desfavoráveis com os quais se defrontou.

O pai dele abandonou a família quando Lula era bem novo, e a mãe mudou-se com 
os oito filhos do nordeste do Brasil para o sul industrializado, onde ela 
esperava aumentar as chances de sucesso da família. Lula só aprendeu a ler e a 
escrever aos dez anos de idade. Quando criança, ele ajudou a sustentar a 
família trabalhando como engraxate e vendedor de frutas, e também como operário 
de uma fábrica de tintas. Ele acabou conseguindo fazer um curso de torneiro 
mecânico. Quando Lula tinha 25 anos de idade, a mulher dele, Maria, e o seu 
filho ainda não nascido morreram porque a família não tinha condições de pagar 
por atendimento médico adequado.

Lula tornou-se politicamente ativo quando era jovem, ao ingressar em um 
sindicato e organizar greves ilegais na época da ditadura militar. Ele foi 
preso várias vezes na década de oitenta. Insatisfeito com os esquerdistas 
clássicos, ele fundou o seu próprio Partido dos Trabalhadores, que gradualmente 
transformou-se de um partido marxista em uma agremiação social-democrata. Ele 
concorreu três vezes, sem sucesso, à presidência, até que, na quarta vez, 
venceu a eleição presidencial de 2002 com uma vantagem significante sobre o seu 
adversário. Foram os indivíduos mais pobres que, em um país de extremos 
contrastes econômicos, depositaram as suas esperanças no carismático líder 
trabalhista. Quando Lula venceu a eleição, os indivíduos extremamente ricos, 
temendo que os seus bens fossem desapropriados, mantiveram os seus aviões a 
jato particulares abastecidos, prontos para decolar.

O herói dos pobres distanciou-se de revoluções

Mas aqueles que esperavam ou que temiam uma revolução no Brasil ficaram 
surpresos. Após tomar posse, Lula levou alguns dos membros do seu gabinete a 
uma favela, e lançou um programa de grande escala chamado “Fome Zero” para 
aliviar os sofrimentos dos desprivilegiados. Mas ele não assustou os mercados. 
Aumentos dos preços das commodities e uma política econômica moderna que 
enfatizou os investimentos estrangeiros, a educação nacional e recursos para 
treinamento ajudaram Lula a se reeleger em 2006.

O mandato dele termina em dezembro, e Lula não poderá disputar novamente a 
reeleição. Ele colocou a casa em ordem e cultivou uma potencial sucessora. Mas 
o presidente autoconfiante deseja evidentemente deixar também um legado 
político: ele considera uma missão sua transformar o Brasil, com a sua 
população de 196 milhões de habitantes, em uma grande potência mundial, bem 
como assegurar uma cadeira permanente para o seu país no Conselho de Segurança 
da ONU.

Lula reconheceu que manter boas relações com Washington, Londres e Moscou é 
algo que ajuda o Brasil a tentar alcançar essa meta. Mas ele sabe também que 
vínculos fortes com países como a China e a Índia, bem como o Oriente Médio e 
os países africanos, poderiam ser ainda mais importantes. Ele se considera um 
homem do “sul”, e um líder dos pobres e desfavorecidos. E, é claro, ele também 
reconhece as mudanças que estão ocorrendo. No ano passado, por exemplo, a 
República Popular da China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro 
comercial do Brasil pela primeira vez na história.

Lula é o único chefe de Estado que participou tanto do exclusivo Fórum 
Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, quanto do Fórum Social Mundial, que 
criticou a globalização, na cidade de Porto Alegre, no Brasil. Ele é um 
viajante infatigável, tendo visitado 25 países só na África, muitos países 
asiáticos e quase todos as nações da América Latina – levando sempre consigo 
uma delegação econômica. Lula prega incansavelmente a sua crença em um mundo 
multipolar. E, como Lula é um orador carismático e um “autêntico” líder 
trabalhista, multidões em todo o mundo o saúdam como se ele fosse um pop star. 
Na reunião de cúpula do G20 em 2009, em Londres, o presidente dos Estados 
Unidos, Barack Obama, que aparentemente é um fã de Lula, afirmou: “Eu adoro 
esse cara”.

No entanto, Obama não pode mais ter certeza de que Lula é de fato “o seu cara 
de confiança”. O brasileiro está ficando cada vez mais autoconfiante à medida 
que se distancia de Washington e, às vezes, chega até a buscar a confrontação 
com os norte-americanos.

Autoconfiança cada vez maior

O caso de Honduras é um exemplo dessa tendência. Os Estados Unidos, que sempre 
viram a América Central como o seu quintal, ficaram perplexos quando Lula 
concedeu abrigo ao presidente deposto Manual Zelaya na Embaixada do Brasil em 
Tegucigalpa no ano passado e exigiu que tivesse uma voz no processo para 
solucionar o conflito. Ao recusar-se a reconhecer o novo presidente, Brasília 
se opôs ostensivamente a Obama.

Depois disso, as coisas aconteceram muito rapidamente. Lula viajou a Cuba, onde 
reuniu-se com Raul e Fidel Castro e pediu um fim imediato do embargo econômico 
norte-americano à ilha. Para a alegria dos seus anfitriões, ele comparou os 
críticos do regime que sofrem nas prisões de Havana a criminosos comuns. Lula 
também fez questão de aparecer junto ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que 
não poupa críticas a Washington e que está amordaçando cada vez mais a imprensa 
no seu país. Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Lula definiu o líder 
autocrático como “o melhor presidente da Venezuela em cem anos”.

E quando recebeu Ahmadinejad em Brasília alguns meses atrás, Lula cumprimentou 
o presidente iraniano pela sua suposta vitória eleitoral impecável e comparou o 
movimento oposicionista iraniano a torcedores de futebol frustrados. Ele 
afirmou que o Brasil também não permitiria que ninguém interferisse com o seu 
programa nuclear “obviamente pacífico”.

Apesar dessa aproximação, muita gente manifestou ceticismo quando Lula seguiu 
para Teerã a fim de negociar um acordo nuclear com a liderança iraniana, 
especialmente depois que os iranianos não demonstraram quase nenhuma disposição 
para ceder nos meses anteriores. Em uma entrevista coletiva à imprensa com 
Lula, o presidente russo Dmitry Medvedev disse que a probabilidade de um acordo 
mediado pelo Brasil seria de no máximo 30%. Lula retrucou, dizendo: “Eu diria 
que as chances são de 99%”. Lá estava novamente em evidência o ego pronunciado 
do astro político em ascensão. “Ele acredita ser um trabalhador milagroso que é 
capaz de obter sucesso onde outros fracassaram”, diz Michael Shifter, um 
especialista norte-americano em América Latina.

Vitória inédita ou fracasso?

Neste momento, só existem indícios circunstanciais de que uma “vitória inédita” 
foi alcançada em Teerã após 17 horas de negociações. É também possível que a 
reunião tenha sido, na verdade, aquilo que o jornal alemão “Frankfurter 
Allgemeine Zeitung” classificou como um “fracasso”, ou apenas mais uma forma 
encontrada pelos iranianos, que em outras ocasiões foram frequentemente 
evasivos, para novamente paralisarem as iniciativas internacionais contra o seu 
programa nuclear.

Autoridades da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Viena 
afirmaram cautelosamente que qualquer fato novo no sentido de que se chegue a 
um acordo nuclear se constitui em um progresso. Os inspetores da AIEA são 
responsáveis por inspecionar as instalações nucleares de todo o mundo em nome 
da ONU. Eles recentemente descobriram mais indícios de um programa iraniano 
ilegal de armas nucleares e pediram a Teerã que cooperasse mais. A avaliação 
dos especialistas da agência, cuja comunicação com Teerã nunca foi interrompida 
e que jamais afirmaram algo que não fossem capazes de provar, terá agora muito 
peso. O fato de os iranianos só se disporem a apresentar o texto do acordo à 
AIEA “em uma semana” gerou dúvidas.

Os governos ocidentais têm manifestado muito ceticismo, e a resolução da ONU 
que Hillary Clinton tornou pública pouco depois do acordo de Teerã 
aparentemente deixou os israelenses preocupados. Alguns membros do governo de 
linha dura do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estão criticando 
abertamente o acordo como sendo uma artimanha para aliviar a pressão 
internacional que é exercida sobre Teerã. O ministro israelense do comércio 
Benjamin Ben-Elieser afirma que Teerã está aparentemente “tentando novamente 
ludibriar o mundo inteiro”.

O acordo proporciona uma brecha ao Irã

O instituto norte-americano ISIS, que sempre defendeu uma solução negociada e 
que acredita que a “opção militar” para resolver a questão nuclear iraniana é 
impensável, fez uma análise inteligente do acordo Lula-Ahmadinejad-Erdogan. Na 
análise, os especialistas nucleares independentes do instituto divulgaram as 
suas preocupações e observaram os pontos fracos do texto do acordo que foi 
revelado até o momento.

Os iranianos só concordam em enviar 1.200 quilogramas do seu urânio de baixo 
teor de enriquecimento à Turquia, para receberem em troca combustível para o 
seu reator de pesquisas em Teerã. As dimensões do acordo correspondem àquelas 
de um outro acordo proposto pela AIEA em outubro do ano passado, segundo o qual 
mais de três quartos do urânio produzido no Irã seriam mandados para fora do 
país, fazendo desta forma com que a fabricação de uma bomba atômica se tornasse 
impossível. A ideia era que isso fosse uma medida fomentadora de confiança para 
proporcionar espaço para negociações.

No entanto, o acordo atual ignora o fato de que o Irã, após ter colocado em 
funcionamento as suas centrífugas em Natanz, aparentemente já conta com mais de 
2.300 quilogramas de urânio. Em outras palavras, o acordo possibilitaria que 
Teerã ficasse com quase a metade desse material, que é um ingrediente básico 
para uma bomba nuclear, de forma que o Irã ainda contasse com matéria prima 
suficiente para atingir a “capacidade mínima” de fabricação de armas nucleares.

O acordo também proporciona uma brecha a Teerã: ele concede à liderança 
iraniana o direito de pegar o seu urânio de volta da Turquia se, na sua 
opinião, qualquer cláusula do texto oficial “não for cumprida”. E o mais 
importante é que o acordo não exige que Teerã suspenda o processo de 
enriquecimento de urânio. “Nós nem sonharíamos em fazer isso”, declarou uma 
autoridade iraniana. Mas é isso precisamente que a ONU exigiu inequivocamente 
com aquilo que a esta altura já são três rodadas de sanções.

Essas objeções todas não preocupam Lula. Ele demonstrou que não pode mais ser 
ignorado no cenário internacional. Na última terça-feira, os amigos do 
presidente brasileiro elogiavam os seus esforços no sentido de fomentar a paz 
durante a reunião de cúpula América Latina-União Europeia em Madri. A 
participação do presidente tinha como objetivo demonstrar que a “lula” possui 
vários braços. Ele provou que é capaz de nadar na companhia de grandes tubarões.

Por trás dos bastidores, o Lula Superstar gosta de falar sobre como obrigou os 
diplomatas brasileiros a abandonarem a “síndrome de vira-latas”, o seu termo 
para designar o profundamente arraigado complexo de inferioridade que os 
brasileiros demonstravam até recentemente em relação aos norte-americanos e aos 
europeus.

O fato ocorreu em 2003, na primeira aparição internacional importante de Lula, 
na reunião de cúpula do G8, em Evian, na França. Um grupo de pessoas estava 
sentado no saguão do hotel onde ocorria a conferência, aguardando o então 
presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Quando os norte-americanos 
finalmente entraram no recinto, todos se levantaram – menos Lula, que ordenou 
ao seu ministro das Relações Exteriores que também permanecesse sentado. “Eu 
não participarei desta subserviência”, declarou o presidente brasileiro. 
“Afinal, ninguém se levantou quando eu entrei”.

Tradução: UOL

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/05/29/lula-salta-para-a-primeira-divisao-da-diplomacia-mundial.jhtm
 

 

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