Carta Maior: A direita, enfim, achou o seu candidato
                
                        
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                Veja o editorial publicado hoje (28) no site da Carta Maior 
(www.cartamaior.com.br):

“A questão”, ponderou Alice, “é saber se o senhor pode fazer as palavras 
dizerem tantas coisas diferentes”.

“A questão”, replicou Humpty Dumpty, “é saber quem é que manda. É só isso”.

Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas (cap.6).
As declarações do ex-governador de São
Paulo e pré-candidato do PSDB à presidência da República, José Serra,
acusando o governo boliviano de ser “cúmplice de traficantes”, além de
levianas e irresponsáveis, podem acabar se voltando contra o próprio
autor. Pela lógica da argumentação de Serra, não seria possível a
exportação de cocaína a partir da Bolívia sem a conivência e/ou
participação das autoridades daquele país. Bem, se é assim, alguém
poderia dizer também que Serra é cúmplice do PCC (Primeiro Comando da
Capital), da violência e do tráfico de drogas em São Paulo. “Você acha
que toda violência e tráfico de drogas em São Paulo seria possível se o
governo de lá não fosse cúmplice?” – poderia perguntar alguém,
parafraseando Serra.
Neste mesmo contexto, cabe lembrar ainda
as declarações do traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadia,
preso em 2007 no Brasil, que, em um depoimento à Justiça Federal em São
Paulo, disse: “Para acabar com o tráfico de drogas em São Paulo, basta
fechar o Denarc (Departamento Estadual de Investigações sobre
Narcóticos)”. As denúncias de um traficante valem o que ele vale. Neste
caso valeram, ao menos, o interesse da Justiça Federal em investigar a
possibilidade de ligação entre o tráfico de drogas e a corrupção
policial, possibilidade esta que parece não habitar o horizonte de
Serra. O pré-candidato foi governador de São Paulo, mas afirma não ter
nada a ver com isso. A culpa é da Bolívia.
Há método na aparente loucura do
pré-candidato do PSDB. O fato de ter repetido as acusações levianas
contra o governo de um país vizinho – e amigo, sim – do Brasil mostra
que Serra acredita que pode ganhar votos com elas. Trata-se de um
comportamento que revela traços interessantes da personalidade do
pré-candidato e da estratégia de sua candidatura. Em primeiro lugar,
mostra uma curiosa seletividade geográfica: em sua diatribe contra
governos latino-americanos, Serra esqueceu de acusar a Colômbia como
“cúmplice do narcotráfico”. Esquecimento, na verdade, que expõe mais
ainda o caráter leviano da estratégia. Trata-se, simplesmente, de
atacar governos considerados “amigos” do governo brasileiro.
Em segundo lugar, mostra uma postura
irresponsável do pré-candidato, tomando a palavra aí em seu sentido
literal, a saber, aquele que não responde por seus atos. Antes de
apontar o dedo acusador para o governo de um país vizinho, Serra
poderia visitar algumas ruas localizadas no centro velho de São Paulo
que foram tomadas por traficantes e dependentes de drogas. Serra já
ouviu falar da Cracolândia? Junto com a administração Kassab, um
governo amigo como gosta de dizer, fez alguma coisa para resolver o
problema? Imagine, Sr. Serra, 200 pessoas sob o efeito do crack
gritando sob a sua janela, numa madrugada interminável … Surreal? Na
Cracolância é normal. E isso ocorre na sua cidade, não na Bolívia.
Ocorre na capital do Estado onde o senhor foi eleito para governar e
trabalhar para resolver, entre outros, esse tipo de problema. Mas é
mais fácil, claro, acusar outro país pelo problema, ainda mais se esse
outro país for governado por um índio.
E aí aparece o terceiro e mais perverso
traço da estratégia de Serra: um racismo mal dissimulado. Quem decide
apostar na estratégia do vale-tudo para ganhar um voto não hesita em
dialogar com toda sorte de preconceito existente em nossa sociedade.
Acusar o governo de Evo Morales de ser cúmplice do tráfico, além de
ignorar criminosamente os esforços feitos atualmente pelo governo
boliviano para combater o tráfico, aposta na força do preconceito
contra Evo Morales, que já se manifestou várias vezes na imprensa
brasileira por ocasião das disputas envolvendo o gás boliviano.
Apostando neste imaginário perverso, acusar um índio boliviano de ser
cúmplice do tráfico de drogas parece ser “mais negócio” do que acusar
um branco de classe média que sabe usar boas gravatas. Alguém com
Álvaro Uribe, por exemplo…
E, em quarto, mas não menos importante
lugar, as declarações do pré-candidato tucano indicam um retrocesso de
proporções gigantescas na política externa brasileira, caso fosse
eleito presidente da República. Mais uma vez aqui, há método na loucura
tucana. Não é por acaso que essas declarações surgem no exato momento
em que o Brasil desponta como um ator de peso na política global,
defendendo o caminho do diálogo e da negociação ao invés da via das
armas, da destruição e da morte. Como assinala José Luís Fiori em
artigo publicado nesta página:
A mensagem foi clara: o Brasil quer ser
uma potencia global e usará sua influência para ajudar a moldar o
mundo, além de suas fronteiras. E o sucesso do Acordo já consagrou uma
nova posição de autonomia do Brasil, com relação aos Estados Unidos,
Inglaterra e França (…) O jornal O Globo foi quem acertou em cheio, ao
prever – com perfeita lucidez – na véspera do Acordo, que o sucesso da
mediação do presidente Lula com o Irã projetaria o Brasil,
definitivamente, no cenário mundial. O que de fato aconteceu,
estabelecendo uma descontinuidade definitiva com relação à política
externa do governo FHC, que foi, ao mesmo tempo, provinciana e
deslumbrada, e submissa aos juízos e decisões estratégicas das grandes
potências.
As últimas linhas do texto de Fiori
resumem o que está por trás da estratégia de Serra de chamar o Mercosul
de “farsa”, de acusar o governo da Bolívia de cumplicidade com o
tráfico, de criticar a iniciativa do governo brasileiro em ajudar a
evitar uma nova guerra no Oriente Médio. Curiosa e tristemente, essa
estratégia, entre outros lamentáveis problemas, sofre de um atraso
histórico dramático. Para azar de Serra e sorte do Brasil e do mundo, a
doutrina Bush chegou ao fim. No dia 27 de maio, o governo dos EUA
anunciou sua nova doutrina de segurança nacional que abandonou o
conceito de “guerra preventiva” como elemento definidor da estratégia
da política externa norte-americana. Algum assessor com um mínimo de
lucidez e informação bem que poderia avisar ao pré-candidato tucano das

mudanças que estão em curso no mundo, especialmente do final da era
Bush. Mas se ele decidiu abraçar por inteiro a agenda da direita no
Brasil, na América Latina e nos Estados Unidos, faz sentido lutar pela
restauração da velha ordem. Pode-se dizer, então, que, enfim, a direita
achou um candidato à presidência do Brasil.


      

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