Fonte:
http://www.verbeat.org/blogs/biajoni/arquivos/2006/07/a_sindrome_da_b.html

julho 26, 2006
a síndrome da biblioteca de babel

Na semana passada falei sobre como os filmes VHS estão
sumindo das locadoras. No lugar, bolachinhas frescas
de DVD. E os donos de locadoras, bem como boa parte
dos clientes, preferem sempre bolachinhas bem frescas;
não se encontram mais filmes antigos - e você deve
entender por "antigo" qualquer filme com mais de 2
anos. Os tempos estão passando bem mais rápido
atualmente. O fato é que recebi alguns e-mails dizendo
que "o futuro está na internet", onde se pode
encontrar qualquer filme. Basta você ter um computador
com boa memória e conexão de banda larga - e saber
entrar e usar os Bitorrent, Emule e quetais. Não é tão
simples assim.

Diferente do que você imagina, pouquíssima gente
possui computador no País. Em termos de Brasil, de
maneira geral, podemos dizer que menos de 10% da
população possui um aparelho em casa. No estado de São
Paulo acredita-se que o número ultrapasse os 30%; no
Rio de Janeiro, os 20%; em Minas Gerais, os 15%. Boa
parte desse pessoal que tem computador utiliza alguma
conexão de internet, mas apenas 20% têm em casa a
chamada "banda larga", ou seja, não chegamos a 2
milhões de usuários de equipamentos com capacidade
para "puxar" os filmes da internet. Boa parte desses
usuários acha mesmo que "ter o acesso" ao filme, poder
baixá-lo na internet, significa, de fato, apreciar a
obra; e aí estão dois pontos de distâncias
monstruosas. Se o camarada "baixa" um filme na
internet e assiste no monitorzinho, com o som daquelas
caixinhas pequenas que geralmente acompanham os PCs, e
acha que está bom assim, bem, ele não é um apreciador
de filmes. Ele precisaria ter um bom gravador,
encontrar o filme em bom estado na rede, para poder
assistir em uma TV decente, com um som decente. Mas se
o cidadão tem um bom computador, uma boa conexão e a
idéia de que tudo o que ele precisa, todos os filmes
do mundo, todas as músicas do mundo, estão ali ao seu
alcance naquele momento, isso dá a ele uma certa
sensação de conforto. Até a sensação de que não
precisa se preocupar em ver mais qualquer filme ou
escutar atentamente quaisquer músicas. Eu vou dar um
nome a isso: a Síndrome da Biblioteca de Babel. O nome
é uma homenagem ao escritor argentino Jorge Luis
Borges que tem um conto com esse título: "A Biblioteca
de Babel", onde o mundo era uma imensa biblioteca, uma
biblioteca infinita, onde não faria diferença ler
algum ou nenhum livro; nunca seria possível ler todos,
nem por várias e várias existências... Esse "conforto"
aparente que o "acesso" total gera pode criar também
uma apatia. Um amigo nomeou essa síndrome de "Toque de
Mídias", numa alusão ao Toque de Midas da mitologia:
tudo quanto é mídia que ele pega, não consegue
usufruir. É bem isso mesmo.

O exemplo é o que aconteceu com outro amigo: ele me
contou todo empolgado que já tinha conseguido "baixar"
mais de 48 mil músicas. E o que será que ele vai fazer
com todas essas canções? Botar para rodar no random do
player do computador enquanto ele navega por sites
bestinhas, procurando novas músicas? Será que ele vai
prestar atenção? Será que ele vai reconhecer e
diferenciar uma banda da outra? Teve algum critério
para "baixar" essas músicas?

A situação é diferente do que acontecia quando eu
juntava uma grana para comprar um disquinho de vinil
de vinte e poucos minutos de cada lado e botava aquilo
para rodar e sentava com o encarte, ficava prestando
atenção nas letras, etc... Conseguia comprar um ou
dois por mês - e dava a eles a atenção que eles
mereciam; passava o mês ouvindo aquilo. Nós éramos
todos baianos, o tempo passava de maneira diferente, a
gente prestava atenção aos filmes, às canções, aos
livrinhos que líamos - e isso era muito bom. Eu adoro
a tecnologia e procuro não ser saudosista. Só devemos
ficar espertos a tal Síndrome da Biblioteca de Babel.




                
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