Fonte:
http://www.idelberavelar.com/archives/2006/07/a_sindrome_da_biblioteca_de_babel_e_a_sindrome_de_robinson_crusoe.php
A Síndrome da Biblioteca de Babel e a Síndrome de
Robinson Crusoé
O Biajoni fez um excelente post sobre o que ele chama
de Síndrome da Biblioteca de Babel: a desvalorização
dos conteúdos que em velocidade e profusão inauditas
são veiculados na internet. O exemplo do Bia é a
música. Ele se lembra de suas experiências (que foram
as minhas também) de economizar uma grana suada para
comprar um bolachão de vinte e poucos minutos de cada
lado e escutá-lo um mês inteiro: a grana para o
próximo disco só pingaria no mês seguinte. Desolado,
ele compara essa atenção ao artefato cultural com a
euforia meio vazia de um amigo seu que hoje celebra
ter baixado 48.000 músicas! Com toda a razão, o Bia
se pergunta quantas dessas músicas o amigo ouvirá com
um mínimo de atenção.
Os efeitos da síndrome de Biblioteca da Babel são
implacáveis e atingem especialmente a circulação de
música popular. Baixa-se e apaga-se música de tal
maneira que as novas gerações não mantêm nem mesmo a
relação com o disco: no reino do MP3 as canções
existem soltas, fragmentadas mesmo os arquivos com
terminação .rar, que compilam discos inteiros, com
freqüência sofrem recortes de cada usuário depois de
baixados. O garoto hoje ouve a canção sem saber de que
disco ela saiu, o que para os velhos puristas fãs de
música popular teria sido uma heresia inaceitável.
O problema é que, no frigir dos ovos, eu prefiro viver
num mundo onde se pode baixar 40.000 canções em alguns
dias do que num mundo onde eu compre um bolachão de 45
minutos por mês. A relação deste último comprador com
o produto que ele adquiria era mais atenta? Sem
dúvida. Mas era uma atenção movida pela escassez
compulsória. Havia também aquele momento horrível o
Bia se lembrará de exemplos em que o bolachão
comprado com a grana suada era uma porcaria. Na
profusão, cabe a cada um nadar ou afogar-se: eu,
particularmente, confio no meu tino para organizar o
redemoinho de informações. Prefiro, digamos, achar que
é possível nadar do que me queixar que há água demais
na piscina.
Vejam bem, não digo que o Bia está errado: ele está
certíssimo. Mas há um risco e o post do Bia está
atento a esse perigo de que ao combater a Síndrome
da Biblioteca de Babel, caia-se em outra síndrome, que
eu chamo Síndrome de Robinson Crusoé: a tendência de
achar que em algum momento do passado a relação com a
cultura, com a música, com o sexo ou com qualquer
outra coisa foi mais pura, autêntica ou verdadeira. Em
geral essa percepção é só uma ilusão retrospectiva. No
fim dos anos 90, ainda havia gente, dentro do campo de
estudos de música popular, que insistia que só se
poderia escrever sobre música munido de vinil e um
toca-discos de 2.000 dólares. Hoje esses saudosistas
já desapareceram, ou estão fazendo luto pela morte do
CD. Estão sempre a reboque da história. Levada ao
limite, a Síndrome de Robinson Crusoé pode alimentar
toda sorte de pessimismos reacionários desses que
insistem que tudo o que é produzido pela
contemporaneidade não presta.
Foi uma coincidência ter lido o post do Bia ontem:
meus dois iPods (15 GB e 20 GB) lotaram. Tive que
apagar arquivos para fazer lugar para a nova música
que chegava, bem consciente de que aquilo que fosse
apagado ali jamais seria ouvido de novo, mesmo eu
tendo os CDs em casa: é que já não me lembro qual foi
a última vez que toquei um CD. O que foi apagado?
Cortei três sinfonias de Beethoven (na antológica
gravação de Karajan) para que coubessem dois discos do
Sonic Youth quem precisa ter as nove sinfonias de
Beethoven, não é mesmo, Milton Ribeiro?
Outro mergulho recente meu na Síndrome da Biblioteca
de Babel foi finalmente ter organizado meus feeds no
bloglines, que andam em 150, entre blogs brasileiros,
americanos, argentinos, revistas e jornais do mundo
inteiro (para ler o Biscoito em RSS, cole no seu
agregador este link para ler só posts ou este link
para ler tanto os posts como os comentários). Depois
de passar algumas horas lendo artigos que há algum
tempo eu teria gastado anos para reunir, terminei me
convencendo de vez: é importante, sim, estar atento
aos efeitos diluidores da Síndrome da Biblioteca de
Babel, mas é mais importante ainda não ceder aos
clichês da Síndrome de Robinson Crusoé.
Senão, corre-se o risco de não se encontrar, entre as
48.000 músicas, aquelas pérolas que sempre estarão lá,
e pelas quais em outras eras teríamos pago, com gosto,
o preço de um vinil importado.
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