Fernando,
A validade de um estudo como esse estaria diretamente associada à sua
usabilidade, se o dito cujo fosse de caráter prático. Mas não é.
O estudo é... um estudo de estatística, nada mais.
Não é atual (se baseia em dados estatísticos de quatro ou cinco anos)
e isso é uma eternidade nos dias de hoje. Não conclui direito — os
autores dão uma espécie de mea culpa na 'conclusão'... (eu nunca vi
isso!). Não recomenda nada especificamente e, ainda por cima, provoca
uma reversão de expectativas pessimamente explorada pela mídia.
Como escrevi lá na Educarus, talvez com uma ironia sutil, mas com pH
bem baixo, o estudo leva em conta a Escola como fixa, imutável. Ora,
se a Escola é fixa, a probabilidade de qualquer tremor tecnológico
ser prejudicial ao seu status quo é naturalmente muito grande.
Aproveitando-se disso, e procurando "chifre em cabeça de cavalo",
descobe-se que pobre que usa computador....
A ojeriza ao projeto OLPC demonstrada por um dos autores do estudo,
numa entrevista à Fapesp, me faz pensar que o estudo teve o propósito
de 'marcar presença' negativa, tipo "sou contra, e daí?",
aproveitando-se da respeitabilidade da revista SciELO e da própria
Unicamp.
On Feb 18, 2008, at 2:51 PM, Fernando Norte wrote:
Olá Paulo, Alexandre e demais participantes da lista,
Ainda não tive oportunidade de ler o resultado da pesquisa/tese/
artigo seja lá o que fizeram. Eu lancei aqui foi mais uma notícia
de alarde sobre a discussão.
Se o estudo é válido, eu não sei. O que eu acho absurdo é um estudo
sobre como um computador mal pensado/usado prejudica a educação
virar uma arma para criticas ao XO.
Lendo os comentários no site do Educarus, que reproduziu o post do
Jaime Balbino (se não me falha a memória foi você Jaime que fez os
melhores momentos ao vivo do pregão do governo aqui na lista),
principalmente a reprodução de uma entrevista com a professora Léa
Fagundes que pra mim coloca uma pedra nesse assunto. XO e o OLPC
não é projetinho de ONG para inclusão digital tosca.Comparar o XO e
o projeto do OLPC com os mesmos PCs recondicionados para projetos
de inclusão digital que ensina favelados a colocar fotos no Orkut
(e nada mais) é no mínimo patético para não ofender mais a nossa
imprensa.
Mesmo sem ler o resultado acho que a pesquisa por si só seja válida
para avaliar o rendimento dessas tentativas. Se é pra fazer volume
de dados e servir para 'N' conclusões não precisa entrar no aspecto
social, política, moral etc. Ainda. Quando for avaliar outros
impactos, comece por aí. Porque segundo os jornais, os próprios
pesquisadores levantaram isso do rendimento, mas as respostas do
porque diminuiem ficam em cima do achismo, assim como nós.
Abraços,
--
Fernando G. Norte
BHte - MG
cel: +55 31 9119 8814
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Em 14/02/08, Paulo Drummond <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Voc6e tem razão; talvez não haja um único fator. Talvez o estudo
merecesse algumas considerações a esse respeito. Mas o que me
entristece é que o estudo enviesa demais sobre a tecnologia,
deixando os problemas sociais com pouco ou nenhum peso no contexto.
A mídia, por sua vez, é implacável, e praticamente rotula o
resultado estudo como uma tragédia social anunciada, portanto
ajudando em absolutamente nada a solucionar o problema maior.
Por isso é que eu chamei (no peabirus) o artigo de "Raso e
inconseqüente".
On Feb 14, 2008, at 10:42 PM, alexandre van de sande wrote:
Já li alguns posts da peabirus quando voce mandou anteriormente.
Concordo que o sistema de ensino precisa mudar e se atualizar e
que não deve ser tomado como imutável. Da mesma forma concordamos
os dois, acho, que o computador não deve ser tratado como um
eletrodomestico qualquer, com uso já definido. A cada ano e cada
geracao a funcao da computacao se reinventa.
Mas fico curioso em saber realmente qual o fator que fez na
pesquisa a populacao com acesso a computadores regularmente ficar
pior na avaliacao. Como o proprio estudo aponta, é possivel que
hajam outros fatores de confusao (a populacao que trabalha jovem
tambem coincide com a populacao com acesso a informatica). Valeria
um contra estudo para avaliar esses addos.
On 14/02/2008, at 21:47, Paulo Drummond wrote:
O estudo é sério e a conclusão é coerente. É sério porque levou a
sério as estatísticas e estudou-as seriamente. E é coerente,
porque olha sistematicamente para o umbigo das estatísticas
seriamente estudadas. Mas ele ajuda em alguma coisa para mudar o
triste status quo? Lendo e relendo, você acha que ele contribui
para que alguém possa fazer alguma coisa por:
— alunos pobres?
— computadores nas escolas?
— padrões de aprendizagem?
— políticas públicas?
O problema, Alexandre, é que a essência do estudo leva em conta
tão somente o mal (ou o bem) que um computador pode causar no
desempenho escolar de alunos, pobres ou não, mas em nenhum
momento toca seriamente na Escola em si; na Educação em si.
O estudo trata o computador como um 'gadget' que, segundo as
estatísticas-base, é um bem durável, tal qual uma geladeira, uma
televisão ou um aparelho de dvd. E infere que os alunos pobres —
que tem acesso / usam computador sistematicamente — tem
desempenho pior que os alunos não-pobres que também o fazem.
O erro é tecnológico ou é societal?
Para o estudo, a Escola-Instituição (ou a Educação em geral)
sequer é comentada, que dirá criticada. A Escola é tomada como
âncora, sem parâmetros. Fixa. Irreajustável. Então, presumo eu, o
estudo trata a Escola como certa nos seus métodos e o computador
passa a ser ser caracterizado como vilão, podendo ser um
instrumento que, nas mãos de alunos pobres, só lhes causa mal.
A Escola-instituição preserva os mesmos padrões de ensino de
séculos, mudando marginalmente aqui e alí. À Escola interessa
muito pouco mudar radicalmente esses padrões, porque isso
provocaria uma grande inconveniência organizacional e
administrativa, sem contar as inúmeras reações contrárias por
parte do professorado mais conservador. Mudanças culturais são
demoradas, sofridas até. Mas enquanto não acontecer uma grande
mudança na Escola, os computadores continuarão a ser a 'bola da
vez'.
Recomendo a leitura dos dois posts mais recentes em Educarus.
abs,
On Feb 14, 2008, at 8:45 PM, alexandre van de sande wrote:
De certa forma acredito que o estudo é sério e a conclusão
coerente. Um problema similar acontece com pesquisas de opinião
com produtos novos, quando o público rejeita um produto que lhes
é apresentado pois eles o julgam comparando com os hábitos
tecnologicos que eles já tem (pra que alguem vai querer um
aprelho onde guardar 5000 musicas? pesquisas mostram que estao
felizes com os 45 minutos de fita que seus walkmans guardam).
Lançar um produto novo no mercado as vezes significa ter fé em
suas próprias convicções.
Em resumo eu acredito que o computador é uma ferramenta muito
subutilizada. Se hoje formos ver para o que as crianças usam o
computador, 90% é usar orkut e msn. Muito disso se dá em função
da interface atual (que nao estimula colaboracao nem descoberta
de novos programas) e dos programas pré instalados na máquina
(ferramentas de produtividade e browser) e por isso eu acredito
muito não só no XO mas no sugar como ferramenta.
E é bom lembrar que educação não se dá apenas distribuindo
maquinas, mas com programas educacionais que estimulem a
criatividade e o bom uso de computadores e com professores que
inspirem os alunos.
On 14/02/2008, at 19:35, Paulo Drummond wrote:
Fernando e colegas de lista,
Mais uma vez, os sábios de plantão, coadjuvados pela imprensa
marromeno, publicam algo que vai de encontro (contra, mesmo!)
ao temos dito e repetido à exaustão nesta lista. Infelizmente,
ainda são muito poucos os que se dão conta da necessidade de
uma reforma radical na Educação. Não é o computador nem a
pobreza que estão errados: é a Educação que com suas
metodologias mofadas que não muda há séculos.
Leiam o comentário no blog do Jaime Balbino e o post que
publiquei no forum Educarus sobre o mesmo tema.
abs,
Paulo
On Feb 14, 2008, at 12:34 PM, Fernando Norte wrote:
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL298847-6174,00-
COMPUTADOR+SABOTA+DESEMPENHO+ESCOLAR+DIZ+PESQUISA.html
Computador sabota desempenho escolar, diz pesquisa
Pior desempenho aparece quando máquina é usada para tarefas
escolares.
Pesquisa da Unicamp dá alerta para programas de inclusão digital.
"Idéias como a de dar um laptop para cada criança parecem
péssima opção, principalmente considerando que ele piora o
desempenho escolar entre as crianças mais pobres. Corremos o
risco de transformar a inclusão digital em uma exclusão
educacional", afirmou Wainer. Ainda em 2008, o governo planeja
distribuir 150 mil computadores portáteis em 300 escolas
públicas brasileiras".
Fonte: G1 do GROBO!
A IMPRENSA é uma maravilha mesmo. Pega uma pesquisa feita nos
resultados de projetos TOSCOS e generalizam para tudo.
A pesquisa é interessante e mostra que apenas jogar
computadores para as pessoas é uma péssima idéia. Acredito sem
pesquisa e apenas convivência de que as pessoas estão
acostumadas a copiar e colar sem ler direito o que tem na
internet.
Não vou comentar mais nada sobre isso acreditando ser de senso
comum nessa lista as vantagens do projeto EDUCACIONAL do
OLPC / XO em detrimento do mercado de laptops para estudantes
do governo federal.
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