Sobre o assunto "possess�o do dem�nio" vou enviar um texto que por ser
longo, ter� de ir em v�rias partes. Por favor, leiam com aten��o antes de
come�arem a comentar e contestar e sobretudo, esperem que os textos cheguem
todos e leiam-nos por ordem num�rica.

Vamos hoje estudar as chamadas possess�es. N�o corresponde � ci�ncia
argumentar contra ou a favor da exist�ncia dessa criatura do �mbito
sobrenatural - anjo rebelde, dem�nio, diabo, Satan�s, Belzebu, etc.
O que me proponho questionar, � se, aqueles factos historicamente bem
comprovados, podem ou n�o ser atribu�dos a essa criatura que chamaremos
dem�nio.
Juan Baptista Van Helmont, respondendo �s cr�ticas que um jesu�ta tinha
formulado sobre Paracelso e em que atribu�a ao dem�nio as curas magn�ticas,
disse que "os te�logos devem ocupar-se das coisas divinas e os naturalistas
das coisas da natureza, porque a natureza n�o escolheu os te�logos como seus
int�rpretes, mas sim os seus filhos, os f�sicos".
A pretendida historicidade da possess�o, nessa interpreta��o, � defendida
com base quase exclusivamente b�blica e � preciso que a analisemos. Sei que
a B�blia � um livro de religi�o, isto �, doutrina religiosa revelada e que
s� ao te�logo compete a an�lise da dita doutrina. No entanto, ela foi
materialmente redigida por homens, mesmo aceitando o seu car�cter de livro
revelado por Deus.
O ve�culo da linguagem utilizado, � plenamente humano e, como tal,
cientificamente analis�vel, � luz da filologia, da cr�tica hist�rica e
liter�ria e da interpreta��o � luz da Ci�ncia.

Pressuponho a historicidade de certos factos relatados na B�blia, que
precisamente por serem factos hist�ricos e reais, imp�em o seu estudo � luz
da Ci�ncia, que � o estudo da realidade objectiva.
E � justo utilizar os conhecimentos que temos agora, por exemplo, acerca dos
transtornos psicossom�ticos e dos fen�menos parapsicol�gicos, para analisar
as chamadas interven��es demon�acas.
Voltamos ao princ�pio exeg�tico que n�o se pode explicar sobrenaturalmente o
que se explica naturalmente. Se de repente eu vejo junto de mim uma nota de
mil escudos, antes de atribuir o facto a um milagre de Santa Rita de C�ssia,
padroeira dos imposs�veis, tenho de a procurar quem a perdeu. Temos de
separar o verdadeiro Milagre com letra mai�scula, da milagreria sem
consist�ncia. Por respeito do Milagre.

MENTALIDADE IMPERANTE:
Doen�a era igual a castigo de Deus.
Podemos dizer que as Escrituras consideravam a cura das doen�as,
praticamente monop�lio divino (Deuteron�mio, 32, 39 - �xodo, 15, 26) e
chegava a ser considerado falta de f�, recorrer aos servi�os m�dicos antes
da ora��o. Em Paralip�menos, 16, 20, o cronista diz-nos isso mesmo acerca da
doen�a de Asa, rei de Jud�, que "na sua doen�a n�o procurou Yav�, mas sim os
m�dicos".

Um s�culo depois, Jesus Ben Sir�, apresenta-nos o que ele considera o
procedimento correcto em caso de doen�a (Eclesi�stico, 39, 9 - 15): -
"primeiro roga ao Senhor e Ele te curar�"; depois "oferece incenso e a
obla��o... imola v�timas" e por fim, "chama o m�dico... tem ocasi�es em que
acerta". N�o pode duvidar-se da rela��o entre pecado e doen�a: "O que peca
contra o seu Criador, cair� nas m�os do m�dico".
No s�c.III D.C., ainda os rabinos sustentavam que era imposs�vel a cura duma
doen�a, sem se perdoarem primeiro os pecados.

IDEIA DE DEM�NIO:
Falaremos de quem na �poca pensavam que era o dem�nio, n�o hoje. Judeus
foram sujeitos a povos que adoravam �dolos cru�is e gerou-se o medo.
Identificou-se o mal com esses �dolos.
As primeiras atitudes em rela��o aos transtornos da personalidade, surgiram
do primitivo conceito de animismo, quer dizer, da cren�a de que o mundo
material estava controlado por esp�ritos, deuses e outros seres
sobrenaturais.

Este animismo primitivo acontece em hoje de povos de religi�o, cren�a e
mentalidade simples. Tal como o homem primitivo acreditava que os ventos
sopravam, as torrentes flu�am e as �rvores cresciam gra�as aos esp�ritos que
os habitavam, ainda hoje em �frica, na Austr�lia, no Brasil (orix�s), em
Portugal.
A demonologia da Mesopot�mia, descrita na literatura sum�ria, exerceu
profunda influ�ncia nos hebreus do AT e atrav�s dos caldeus, penetrou no
mundo grego.
Aqui, as doen�as, mortes e desastres naturais, eram atribu�das � influ�ncia
dos dem�nios, cujo n�mero quase que n�o tinha limite e a fim de os combater,
era preciso que o feiticeiro conhecesse o nome do dem�nio.
Daqui vieram os 3 dem�nios da noite, os 7 dem�nios malignos, frequentes nos
encantamentos.
Da literatura e arte tiramos o seu car�cter e apar�ncia f�sica: peludos,
escamas, p�s de cabra, cauda, chifres... viv�ncia no deserto, cemit�rios,
lugares imundos...
No antigo Egipto havia todo um ritual complicado no templo para o tratamento
das possess�es: c�nticos, hinos melodiosos, diversas cerim�nias religiosas.
Em alguns templos cobriam-se os pacientes de ervas perfumadas, a fim de
apaziguar os esp�ritos.
Ao estudar-mos a B�blia, logo chama a aten��o que no AT n�o h� nenhum caso
de possess�o do dem�nio. No livro de Job, n�o � um dem�nio que ataca, mas um
arcanjo com o pleno consentimento de Deus.

No livro de Tobias, os "dem�nios" que atacam os maridos de Sara, s�o,
segundo os exegetas, a personifica��o dos deuses sanguin�rios dos povos a
quem os judeus estavam submetidos. Estes eram monote�stas e viviam rodeados
de povos polite�stas. Os sacrif�cios exigidos por esses deuses, perturbavam
os judeus. Segundo os exegetas, este n�o � um livro hist�rico, mas sim um
livro circunstancial e necess�rio. Era preciso demonstrar aos judeus que, se
os outros povos tinham deuses (a quem foram dados os nomes de dem�nios), o
deles, era muito mais poderoso que todos os outros.
Mas sem querer entrar no �mbito da discuss�o exeg�tica, temos ainda a
opini�o de m�dicos que atribuem a morte dos sete maridos de Sara a uma
conhecida doen�a ven�rea que a mulher transmite, mas n�o padece. Chamo a
aten��o para o n�mero sete, de conhecido significado cabal�stico.

Pois bem, a partir da penetra��o no juda�smo da ideia da responsabilidade
demon�aca por todo o mal, foi-se institucionalizando o convencimento de que
s� o uso adequado da ci�ncia dos anjos era o melhor para controlar os
dem�nios.
Assunto t�o importante, n�o poderia ser deixado nas m�os de qualquer um e
n�o tardou em converter-se numa arte reservada aos iniciados, que manejavam
f�rmulas arcanas, transmitidas em livros esot�ricos que s� aqueles eleitos
poderiam conseguir e entender.
Fl�vio Josefo refere-se a Salom�o que comp�s salmos e encantamentos para
curar possessos ( "Antiquitates Judaicae" - 8, 44 - 45).
Refere tamb�m o rito praticado diante de Vespasiano, por Eleazar, que era
ess�nio (8, 46-48) - Usava um anel que tinha debaixo do selo uma raiz
prescrita por Salom�o.

E a ideia de dem�nio respons�vel, vinha tamb�m dos persas que atribu�am,
sobretudo as doen�as mentais aos dem�nios e os tentavam expulsar com ora��es
e ra�zes.
Fl�vio Josefo n�o fala em dem�nios, mas sim em esp�ritos de homens malvados.



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Maria Luisa Albuquerque
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