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…Mas, às vezes, invenção — Estas "sementes ocultas de outras sementes", "sementes de sementes" (semina seminum) imaginava Santo Agostinho que seriam a origem de certos fenômenos providenciais, sendo simplesmente utilizadas por Deus. Ou pelos anjos, ou pelos demônios…, ou pelos homens! O que desnorteou a Santo Agostinho foi precisamente esta dificuldade de explicar, não só os prodígios que então se atribuíam aos demônios (?), senão também os fenômenos parapsicológicos realizados pelos magos, feiticeiros, curandeiros… Pensava o santo que se deviam ao maior conhecimento da natureza, à utilização dos semina seminum. Assim concretamente os magos do faraó simplesmente "conheceriam as sementes secretas ocultas nas coisas"18. Algo muito parecido repetiram muitos racionalistas ao longo da história. Até hoje. Acho muito significativo que Maimônides (1138-1204), talvez o maior sábio entre os judeus medievais, defendia que pela Bíblia, pela tradição judaica e pela razão, milagres só poderia haver como efeito… de algo idêntico às "sementes de sementes" agostinianas. Estavam incluídas na natureza desde a criação do mundo. Deus já criou o mundo com essas "sementes" que iriam surgindo nos momentos fixados pela Sua vontade19. — Não é preciso dizer que a interessante teoria, aplicada ao verdadeiro conceito de milagre, está errada. Nada há que prove, nos fatos considerados milagres, as "sementes de sementes". A parapsicologia insiste em que a natureza tem suas leis. Isto é científico. E entre as leis da natureza, nos fenômenos supranormais ou chamados milagres, jamais se encontraram essas curiosas sementes… S. subjetivas. As características do fenômeno supranormal S. completamente diferentes. O milagre é outra coisa. O próprio Santo Agostinho abandonará mais tarde essa generalização, ou exclusivismo, da divina providência, substituindo tal teoria pelo verdadeiro conceito de milagre (e dos fatos especialmente providenciais), como vimos. … E outras vezes realidade — Mas há fenômenos na "natureza" (até o ponto em que esses fatos possam considerar-se naturais) aos quais se aplica exatamente essa imagem ou metáfora das "sementes de sementes". Por exemplo a ressurreição do homem — Antes do livro "O que há depois da morte?" permita-me o leitor a referência aqui à ressurreição do ser humano. Ao menos em ordem à explicação do conceito de milagre. Durante o processo da ressurreição do ser humano após a morte, gradualmente se vão substituindo os componentes físicos do corpo mortal pelos componentes "espiritualizados" do corpo ressuscitado. Tal transformação de homem mortal em homem imortal é superior às forças da natureza. É um generosíssimo dom divino e efeito do Seu poder infinito. Se só a considerássemos por esse lado, diria-se que a ressurreição é milagre. Por outro lado é concedido infalivelmente a todos os seres humanos ao passarem pelo processo da morte e ressurreição. É uma exata aplicação da metafórica "semente" incutida por criação na natureza humana que, assim, se transformará nas "sementes" eternas, ou melhor diríamos, ampliando a metáfora, florirá e frutificará na ressurreição. Neste sentido não é milagre (menos as ressurreições de Jesus Cristo e de Sua mãe, por outros aspectos diferentes). A ressurreição é "natural": é inseparável da natureza humana. Ou "providencial": a ressurreição é a manifestação de uma "semente" plantada na natureza humana. Além disso, a ressurreição humana não é milagre porque não-perceptível, condição também essencial, em que logo mais insistiremos. Sim, S. milagres as ressurreições de Cristo e de Sua mãe, porque, junto às demais características essenciais do milagre, S. diretamente perceptíveis pelas testemunhas. Testemunhas de grande valor científico-histórico, mesmo que só fosse porque consagraram sua vida a garantir, até com a morte, o que viram e transmitiam. (As ressurreições de Cristo e de Sua mãe, além de diretamente, constam também indiretamente; a de Cristo, por exemplo nas verificações científicas no Lençol de Torino). Outro exemplo, a concepção do homem — Adiantando-me de novo ao mesmo livro "O que Há depois da Morte?". Não é verdade que cada alma humana seja criada naquele preciso momento e "insuflada" em cada concepção de cada corpo. Na geração humana, como em toda outra geração no mundo, vegetal e animal, geram-se seres da mesma natureza que a dos seus progenitores (o chamado traducionismo). Na geração humana é gerado o homem inteiro, os pais o S. do homem inteiro, não só do corpo, a alma não procede de outro lugar (a absurda reencarnação) ou sendo então criada (o chamado criacionismo). Mas a falsa hipótese do criacionismo, assim como a falsa interpretação literal da infuS. da alma racional no corpo de barro, em Adão, serviram ao admirável Bento XIV. Utiliza esses erros (evidentemente sem confirmá-los) para explicar melhor e detalhadamente a contraposição entre fatos supranormais ou milagre, por um lado e, por outro, estes fatos que agora estamos considerando como em si mesmos em certo sentido "naturais": "Embora não possa ser milagre o que não exceda às forças da natureza, não obstante não se pode dizer que é milagre tudo o que excede às forças naturais. Porque para o milagre se requer não só que exceda às forças da natureza, senão também que seja fora da ordem da natureza. Porque mesmo que tudo o que é fora da ordem da natureza seja superior às forças naturais dado que a natureza não pode agir fora da ordem prescrita para ela por Deus; não obstante não tudo o que é sobre as forças da natureza está fora da ordem prescrita por Deus. Um exemplo é a criação das almas racionais: porque a criação delas sem dúvida excede as forças da natureza pois exige um poder infinito; mas não é fora da ordem da natureza, sendo que é feita por Deus de acordo com a condição das coisas, isto é dos corpos munidos de órgãos suficientes para receber a alma racional; embora, pelo contrário, a criação e infuS. da alma no corpo de Adão deve ser considerada entre os milagres, pois infundida num corpo feito da terra e de nenhuma maneira apto a receber a alma"20. Em duas palavras: a de Adão, milagre (se houvesse lá alguém para observá-lo!); a dos demais humanos, "natural" ou providencial comum. Repito: na falsa hipótese do criacionismo e da criação imediata de Adão. Exatamente igual à explicação de S. Tomás: "Embora sejam efeitos fora das possibilidades das sementes atuantes para a realização; não S., porém, fora das suas aptidões; porque a aptidão do corpo para receber a alma (…) está unida ao poder da criatura. Sem embargo, se a alma se infundisse sem tal preparação prévia (…) poderia chamar-se milagre, como seria na animação do primeiro homem"21. Desorientação na maioria dos teólogos — A negação do verdadeiro milagre, precisamente por só aceitar e confundi-lo com o fato providencial, hoje virou epidemia entre os teólogos modernistas. O jesuíta pe. Bouillard, um dos pioneiros e mais prestigiados nessa errada tendência modernista, ao pretender concluir uma série de trabalhos de ampla colaboração22, na realidade tanto mais confuso fica quanto mais pretende esclarecer: *** "O milagre multiplica, transforma ou cura (podemos objetar que também os fabricantes, artistas, médicos…; sem mais, nada teria a ver com milagre). Ele não cria (isto seria milagre). Ele ultrapassa as forças da natureza (então seria verdadeiro milagre), mas não viola suas leis. Os determinismos subsistem, S. utilizados por uma liberdade superior (Qual? De Deus…, ou do médico?). É pela maestria com que os utiliza que se manifesta misteriosamente essa liberdade". Assim resume seu pensamento o professor de teologia na Faculdade de Lyon-Fourvière23. — Simplesmente utiliza as forças da natureza? Ou —bem diferente — utiliza-as de um modo que a natureza não pode? No primeiro caso ("simplesmente utiliza as forças da natureza") o fato não passaria, no máximo, de Divina Providência. No segundo caso ("utiliza-as de um modo que a natureza não pode") seria verdadeiro milagre. Nas típicas disquisições e sutilezas modernistas não fica nada claro… Ou fica claro que têm de fazer muitas sutilezas, disquisições, contradições… porque não querem admitir que o milagre seja superior à natureza. *** O bispo dom Terra, parece que concordando, transcreve o pensamento de tantíssimos teólogos modernistas de hoje: "Assim os milagres de cura em geral não superam a possibilidade de uma cura natural, mas apressam o processo (…) de tal modo que demonstram a atuação de forças totalmente superiores às das curas normais (…) O milagre é uma atuação de forças presentes no mundo segundo a própria regularidade, mas de modo tal que a combinação que se manifesta neste momento não seria normalmente possível. Por conseguinte, o milagre, como iniciativa divina, se insere perfeitamentre na atuação da ordem natural"24. *** O que querem dizer, o que realmente se oculta sob essas expressões "curas normais", "normalmente possível"? Trata-se simplesmente de um médico, remédio… extraordinário, não-normal no sentido de não-comum? — Então como é que demonstraria "a atuação de forças totalmente superiores"? De onde tiram então isso de "iniciativa divina"? *** Se "é uma atuação (…) de modo tal que (…) não seria normalmente possível", — como é que não foge às normas (ou leis) da natureza? Portanto, quando se trata de milagre de cura, não é "uma cura natural". Os milagres em geral "demonstram a atuação de forças totalmente superiores" às da natureza. S. forças supranormais ou sobrenaturais. Não S. "forças presentes no mundo", S. forças sobrenaturais intervindo no mundo. "O milagre, como iniciativa divina", de nenhuma maneira "se insere perfeitamente na atuação da ordem natural". Imanência — E, para terminar, uma brevíssima aluS. a um erro garrafal, freqüente lamentavelmente na desorientação dos teólogos modernistas. Escreve, por exemplo, o famoso teólogo Léon-Dufour, citando Santo Agostinho, cuja doutrina acabo de expor e que o "mestre" deturpa completamente com seus preconceitos e disquisições modernistas: *** "A relação Deus-mundo pode ser muito bem expressa sem imaginar Deus como um ser que ‘inter-vem’ no mundo, porque neste caso estaria sendo equiparado (rangerait) às causas naturais (?) que Ele suplanta (se suplanta, como é que pode ser considerado do mesmo nível?) e seria desconhecida a verdadeira transcendência de Deus (?). Há ‘sinergia’ do homem e de Deus. Dito de outra maneira, a perfeita transcendência é uma perfeita imanência (?). Inútil(?) representar--se Deus como ‘intervindo’ no mundo, como qualquer um que lhe seria ‘exterior’(…) A partir deste princípio conviria (?) reconsiderar, adaptando-a à nossa época, a teoria de Santo Agostinho (?…) Ela se abre, em efeito, à inteligência autêntica (?) da relação Deus-mundo e, por isso mesmo, a um modo de falar válido (?) hoje (…) Ora, com Santo Agostinho (?) se pode admitir e dizer inteligentemente (?) que o milagre é possível: no curso natural(?) do mundo se desenvolve a presença amorosa e ativa de Deus, uma ação que não substitui a atividade humana (então, aí não há milagre), mas lhe concede ser plenamente ela mesma (!?). Em tal ou qual atividade religiosa assombrosa do homem (por exemplo, uma oração meio histérica, ou muito emotiva?), que se chama milagre (só para os modernistas ou metaforicamente isso se chamaria milagre), o crente discerne Deus agindo de modo especial(?), a superabundância do amor divino"25. — Total confuS.. Em primeiro lugar deixar o discernimento do milagre, e mais concretamente de sua função sinal, a esse subjetivismo espantoso do discernimento do crente equivale a destruir plenamente a racionalidade da Revelação e da religião. Esse imenso dano que hoje se alastra pelo mundo devemos à irreflexão, imatura e doentia, dos teólogos modernistas. — Mal está que fechem os olhos até ao conceito ou possibilidade da "intervenção" divina no mundo ou de "qualquer um que lhe seja exterior". Pior é que confundam a transcendência divina, como se Deus não fosse "exterior ao mundo". O grande "mestre" — e a Teologia modernista — cai no absurdo panteísmo. Identifica criatura e Criador. Cai na poesia, na iluS., como fazem o budismo, o hinduísmo etc. — Mal está que negue a possibilidade da intervenção de Deus. Pior é que o faça em nome da imanência divina! Identifica o milagre (e até uma especial "ação conjunta" e em geral a Divina Providência) com imanência. Nada existe nem se faz, o homem nada faz nem subsiste sem Deus. Sem a "colaboração" divina. Certo. Isso é o que se entende por imanência. *** Portanto (!?) tudo é milagre? Ah, não!: Só quando em "tal ou tal atividade religiosa assombrosa", quando "o crente discerne"… — Ridículo modernismo. É evidente que o pe. Léon-Dufour, que tantas vezes em tantos outros temas há demonstrado ser bom teólogo (teólogo, puro, divorciado da realidade, dos fatos!), conhece perfeitamente esses conceitos elementares de transcendência e imanência divinas. É evidente que os teólogos modernistas também os conhecem perfeitamente. Como é que agora, e sempre que abordam o tema do milagre, fatos, caem tão estrepitosamente no ridículo? Radicalismo passional. Mais uma vez temos de admirar a força do preconceito na antiga polêmica sobre os milagres; a força do complexo herdado perante os antiquados cientistas racionalistas; a força da ingênua irreflexão dos seguidores da moda modernista. Certamente que tais e tantos disparates não S. oriundos da análise dos fatos, da realidade, como exige a metodologia científica. Lamentavelmente a reflexão — melhor seria dizer irreflexão — teológica modernista se habituou a disquisições no ar, a "reflexões" meramente teóricas, especulativas, subjetivas. [continua] - *******************************************************************
Fernando De Matos: [EMAIL PROTECTED] [EMAIL PROTECTED] [EMAIL PROTECTED] ICQ#26750912 [EMAIL PROTECTED] Centro Latino-Americano de
Parapsicologia - Portugal®
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