Providência Divina — Outros muitos, sem confundir e reduzir todos os milagres no máximo à especial Providência Divina, admitem também… a "providência diabólica"!

*** Por exemplo o teólogo tomista padre Zacchi. "Causas espirituais sobre-humanas (…), sendo superiores ao homem, podem servir-se de energias naturais desconhecidas ou servir-se das conhecidas num mundo desconhecido para nós, e assim produzir fenômenos capazes de suscitar a admiração geral, fenômenos que escapam do curso ordinário, mas que se verificam dentro da esfera das causas visíveis. Por tal motivo tais fenômenos podem dizer-se maravilhosos, supranormais, extranaturais(…) Não é permitido, porém, chamá--los milagres, isto é, superiores a toda a natureza, fora de toda ordem criada"26.

— Que pena! O pe. Zacchi é um excelente parapsicólogo. Mas pretendendo ser ou acreditando que assim era fiel a S. Tomás, sucumbiu, em parte, sob o peso de séculos de mentalidade mágica e demonológica. E por esse erro de partida, junto aos verdadeiros milagres, atribui aos demônios e outras entidades fatos "supranormais, extranaturais", e ainda confundindo-os com fatos providenciais… dessas entidades!

A posição definitiva ou final de S. Tomás podemos dizer que foi… diplomática. Defende o conceito (e realidade) do verdadeiro milagre, só realizável por Deus. Explica perfeitamente e defende o conceito (e realidade) da Divina Providência especial e geral. E nega, brilhantemente, qualquer possibilidade de intervenção dos diabos: "Acaso os demônios podem agir de tal maneira que façam milagres?" E responde com a negativa redonda. E apresenta um argumento fortíssimo: "Sendo a ação milagrosa um testemunho (sinal) do poder divino indicador da verdade (eis a finalidade do milagre), se fosse concedido aos demônios, cuja vontade está toda voltada para o mal, qualquer possibilidade de fazer milagres, Deus ficaria como testemunha dessa falsidade, o que não é compatível com a bondade divina".

Mas… a diplomacia! Percebe-se o impasse da grande inteligência perante os fenômenos parapsicológicos. Perdido no marasmo da secular mentalidade mágica e demonológica, S. Tomás refugia-se como que disfarçadamente numa espécie de providência diabólica, que imediatamente antes, e depois, nega! Refere algumas ações atribuídas ao Diabo…, e acrescenta que entre todas elas, "não obstante, nenhuma ação é milagrosa, senão que é a modo de artifício, como dissemos": fenômenos naturais, servindo-se das forças da natureza. "E por isso simplesmente é afirmado que verdadeiros milagres não podem ser feitos pelos demônios"27.

O fortíssimo motivo apresentado por S. Tomás convenceu à maioria dos teólogos e filósofos escolásticos ao longo dos séculos.

Também outros pensadores de fora do cristianismo, não-crentes, ou livre-pensadores como se autoproclamam, pelo mesmo motivo chegaram, sem "diplomacia", à mesma concluS.. Por exemplo Larroque, antigo reitor da Academia de Lyon, se exasperava com a mera formulação teórica de que o Diabo (ou seja quem for) pudesse falsificar a assinatura de Deus, o milagre: "Admitindo mesmo a possibilidade dos milagres, teríamos ainda o direito de demandar se eles provam a verdade de uma doutrina, quando Deus concede ao demônio o poder de fazê-los em favor do erro"28.

E com menos "diplomacia" ainda, Rousseau: "Quê? Deus, mestre na escolha das suas provas, quando quer falar aos homens(…) usa para os instruir o mesmo caminho que Ele sabe que usará o demônio para enganá-los? É possível que Deus e o Diabo sigam a mesma rota? Eis aí o que eu não posso conceber"29.

O verdadeiro sentido da providência — A respeito de uma lenda — ou foi um fato histórico? —, muito acertadamente já o grande pensador Aristóteles (384-322 a.C.) mostrava que entre acontecimentos que podem parecer fortuitos alguns S. mais maravilhosos precisamente porque, embora naturais, parecem dirigidos por uma intenção não natural. Apresenta o exemplo da estátua de Mitio:

Um tal Mitio morrera assassinado. Quando o assassino contemplava a reprodução da sua vítima, a estátua caiu violentamente sobre ele, matando-o30.

 — Dificilmente alguém haveria de aceitar que fosse pura casualidade… Se o caso tivesse sido histórico, as circunstâncias pareceriam (claro que meramente pareceriam) advogar para uma interpretação providencial: justiça dos deuses, diziam os contemporâneos de Mitio.

— Certamente, como a parapsicologia prova31, não se deveria tal prodígio à ação do morto. Tal fenômeno certamente é natural: hoje a parapsicologia o explicaria por uma notável telecinesia, provocada pela estado fortemente emocional do próprio antigo assassino e agora vítima.

Muito bem — como não poderia deixar de ser, tratando--se de tal escritor! —, Bento XIV descreve o que se entende por providencial: "Algum fato que não excede os poderes da natureza nem no referente ao fato como tal, nem no referente a em quem se faz, nem com referência ao modo ou ordem com que se faz; mas pelas circunstâncias claramente se deduz que o fato procedeu de Deus, e a Ele deve ser atribuído como especial autor, que por Si mesmo dispôs o acontecimento e deliberadamente o quis"32.

E o sábio papa "parapsicólogo" põe como exemplo um caso bíblico:

"Moisés disse ao faraó: ‘Digna-te dizer-me quando deverei rogar por ti (…) para que as rãs sejam arrancadas de ti e das tuas casas, e fiquem somente no rio’. Ele respondeu: ‘Amanhã’. E Moisés disse: ‘Seja conforme a tua palavra, para que saibas que não há ninguém como Iahweh, o nosso Deus’ (…) E Iahweh fez conforme a palavra de Moisés: e morreram as rãs das casas, dos pátios e dos campos. E juntaram-nas em montes imensos" (Ex 8,4-l0).

Comenta Bento XIV: "Não supera de nenhuma maneira as forças da natureza (… Mas Moisés) confiava que se (o faraó) visse (as rãs) expulsas na hora prescrita, compreenderia que tinham sido lançadas por Deus como praga e castigo, e depois expulsas pela misericórdia de Deus"33.

E S. Tomás34 alude a outra passagem da Bíblia (entre tantas), também como exemplo de fatos providenciais, "precisamente porque acontecem na hora exata da invocação do nome de Deus, como é o caso da mão de Jeroboão":

Quando o rei Jeroboão estava para oferecer incenso ao ídolo e estendia a mão mandando prender o homem de Deus que o incriminava, clamou o profeta a Iahweh, e nessa hora determinada a mão de Jeroboão ficou seca e o altar pagão partiu-se ao meio (1Rs 13,1-6).

 — As circunstâncias mostram que pode ser perfeitamente natural o fato de que um dedo ou uma mão, por exemplo por uma somatização de origem psicológica, fique paralisada (basta esta interpretação). A ruptura do altar, evidentemente, é diferente…

Todos estes casos providenciais (repito: os únicos — e no exclusivismo está o erro — que os teólogos modernistas admitem) com razão S. equiparados aos milagres "porque embora possam realizar-se por força (da natureza) diferente da divina, neste ou naquele caso acontecem somente (melhor seria dizer também) por poder divino"35.

Para a finalidade da quase totalidade desta coleção sobre os milagres, bastam as considerações anteriores. Maior aprofundamento no estudo dos fatos providenciais, deixamo-lo para o livro "Revelação e Parapsicologia".

NOMENCLATURA BÍBLICA — Os teólogos modernistas na sua característica desorientação no campo da ciência de observação, na deturpação do conceito e na negação do milagre, freqüentemente pretendem se basear nos termos usados pela Bíblia.

Na realidade em todos os nomes usados pela Bíblia, nada, absolutamente nada vai contra o verdadeiro conceito de milagre ou a favor das pretensões dos teólogos modernistas. Ao contrário. Trata-se de diversos aspectos do verdadeiro milagre, destacados segundo os diversos escritores bíblicos ou segundo as circunstâncias. Embora esses termos nem sempre se apliquem aos milagres, podendo-se aplicar a outros fatos para destacar, mais ou menos metaforicamente, determinado aspecto próprio desse determinado vocábulo.

A essência e as características até agora abordadas no conceito de milagre; ou de outra maneira: uma palavra que signifique com alguma exatidão o conceito de milagre não existe nem em hebraico nem em grego, as línguas em que foi escrita a Bíblia. Em vez de um termo exato correspondente à tradução milagre, a Bíblia usa numerosos outros termos.

Que significam? A análise dos diversos vocábulos bíblicos com referência ao milagre ocupou amplamente os escritos da patrística e primeiros escritores cristãos, assim como dos filósofos, teólogos e outros cientistas ao longo dos séculos36.

Várias ciências de observação estudam os significados ou símbolos. Semântica, semiótica, semiologia e lingüística. As três primeiras têm a mesma raiz grega: semainein = significar. Semântica é a ciência da significação em geral. A semiologia estuda os sistemas de comunicação, como línguas, moda, arte… A semiótica estuda concretamente os símbolos não verbais, como os desenhos, imagens… E a lingüística, os sinais verbais, as palavras nas diversas línguas.

Aqui, na refutação das disquisições meramente mentais dos teólogos modernistas, interessa-nos principalmente a lingüística.

Seleciono à continuação os termos bíblicos mais comumente usados "em vez" do termo milagre. Em hebraico, nos originais da maior parte do Antigo Testamento. Em grego, numa pequena parte do Antigo e em todo o original do Novo Testamento, assim como na tradução do Antigo Testamento atribuída aos 70 (seriam 72) sábios judeus de Alexandria, realizada a partir do século III a.C. Nos estudos bíblicos usa--se também bastante a tradução latina, preferentemente a chamada "Vulgata", realizada por S. Jerônimo (347-420). Ponho-os nessa ordem: primeiro grego transliterado, depois hebraico se há original nesta língua (também transliterado), continuação latim, e entre parênteses a tradução:

Taumásia, niphla‘ot, mirabilia (coisas admiráveis).

Dínamis, geburah, potentia (força ou trabalho poderoso).

Megaléia, gedulot, magnalia (grandes realizações).

Teras, mopheht, portentum (prodígio).

Erga, ma‘ase, opera (trabalhos).

Seméion, oth, signum (sinal).

Etc.

Comecemos pelo Antigo Testamento37.

Freqüentemente os milagres S. chamados térata (teras no singular), prodígios, para destacar a grandeza da intervenção divina. Teras é termo tirado do paganismo grego que assim denominava os prodígios atribuídos aos deuses. Equivalente é o termo megaléia, grandes realizações. O termo taumásia destaca a admiração que despertam. Com parecido significado às vezes é usado também o termo paradoxa, isto é, fatos inesperados, surpreendentes, que pareceriam inadmissíveis…precisamente por serem térata, megaléia e taumásia. Devemos destacar que inclusive a palavra seméion, sinal, é empregada no paganismo grego (e romano…) para designar (se fossem reais!) os mais estupendos milagres.

*** A mentalidade dos exegetas modernistas hoje38 pareceria que está à altura ou "permanece fiel à do homem arcaico". Assim na época de Moisés, "o milagre, enquanto fato, pode todo ser atribuído às causas naturais tão perfeitamente como a Deus mesmo (…) É que para a Bíblia não há lugar para escolha entre Deus e as causas naturais". Viam Deus em tudo.

— E isso pode ser verdade no sentido de Providência Divina, especial (graça), ou comum (Deus sabe tirar bem de tudo).

Mas os exegetas modernistas ridiculamente estão hoje muito por baixo daquela que chamam humanidade arcaica, porque naquela época sabiam muito bem distinguir entre Providência e verdadeiro milagre. Perante os verdadeiros milagres os magos do faraó souberam exclamar: "O dedo de Deus está aqui". Não é verdade que no Antigo Testamento, "o homem arcaico" fosse unilateralista, parcial, tão atrasado como os mestres da teologia modernista de hoje.

Passemos ao Novo Testamento39. Freqüentemente os milagres S. chamados dínameis (dínamis no singular), para destacar o trabalho poderoso, o poder inigualável da manifestação divina.

Esse mesmo aspecto é muito expressivamente destacado pelo termo, também com alguma freqüência usado, adínata, isto é, obras impossíveis… ao homem, e por isso propriamente divinas, porque Deus tudo pode fazer.

S. João emprega simplesmente erga (ergon no singular) ao referir-se às obras ou trabalhos do Pai e de Jesus. Mas os leitores da época conheciam o sentido sobrenatural — ou supranormal — das obras de Deus, S. obras de poder. Eles sabiam, por exemplo, que no Gênesis se enumera entre as obras ou trabalhos de Deus a obra por excelência da criação (Gn 2,2); e que no Éxodo e nos Salmos chamam-se erga os grandes feitos de Deus em favor de seu povo (Ex 34,10; Sl 66, 5; 77,12). Erga era termo empregado no paganismo grego para designar os mitos que eles atribuíam à intervenção dos deuses.

É muito eloqüente que dínamis e taumásia apareçam freqüentemente associados. Como também há que notar que o termo dínamis apareça outras vezes em paralelo com o termo hebraico pel’e, procedente da raiz pl’ ou plh, sobrepassar, colocar à parte, estar além de tudo o que se possa fazer ou mesmo compreender: taumásia.

Muito usado no Antigo Testamento mas mormente no Novo é o termo seméia (seméion no singular)40. Frisa a ação do homem em correspondência à ação de Deus: o homem é convidado a refletir e reconhecer os sinais, a significação dos milagres, a revelação na qual os milagres S. a "assinatura" divina.

Semanticamente, a característica seméion ou sinal está em parte incluída no termo grego teras, em latim portentum, prodigium, ou mesmo monstrum. Prodigium vem etimologicamente de prodicere, dizer antes, e monstrum vem de monstrare, mostrar; assim o milagre é aquilo que fala antes, mostrando a resposta que o homem está sendo convidado a dar a esse sinal. Com certeza é por este parentesco semântico, que seméia e térata aparecem freqüentemente juntos tanto no Antigo como no Novo Testamento.

[continua]

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