A Transcendência.

Recuperação óssea

E M NOSSO MUNDO — Transcendente, de fora de
nosso mundo, mas, é claro, agindo em nosso mundo, aqui, onde o milagre deve ser perceptível, por nós.

Se algum dia se demonstrasse a intervenção de extraterrestres aqui na Terra, então discutiríamos o sentido da expresS. "nosso mundo", se haveria que incluir nessa expresS. não só os seres da Terra senão também esses extraterrestres que nos teriam visitado… Por enquanto ao menos, porém, quando dizemos "nosso mundo" referimo-nos ao homem, aos animais, plantas e demais forças do "nosso mundo" aqui, na Terra.

Com respeito aos fenômenos físicos, frisemos desde já um argumento filosófico fundamental. Qualquer ser finito, seja ele homem, anjo, demônio ou o que for…, só pode agir nas coisas materiais pondo em jogo alguma força material. Porque todo efeito material é ação, reação ou concurso material do objeto que o recebe. Somente Deus pode produzir fora de Si alguma coisa completamente diferente de Si mesmo. Criar. Do nada. E o poder criador é um atributo essencialmente incomunicável.

NÃO O MUNDO DA FANTASIA — A ordem e a ação da natureza S. maravilhosas. O sábio fica extasiado admirando a inteligentíssima programação que se encerra na atividade desde as partículas subatômicas, na fotossíntese de uma folha, na variada e complexa vida de uma abelha, num passarinho, na estrutura e dinamismo da pele humana, na cicatrização de uma ferida… É tal a inteligência que se manifesta em todo e cada detalhe da natureza, que os povos antigos atribuíram alma racional a todos os seres: animismo.

Pior ainda. Inclusive divinizaram todas as forças da natureza: potestades, tronos, dominações, querubins, serafins, exus, orixás… E ainda pior. Até hoje, pseudo-religiões superficiais, como o budismo, o hinduísmo etc. — puras invenções humanas sem nem sequer pretenS. de Revelação, poesia divorciada da realidade considerada iluS. —, identificam o mundo com Deus, as criaturas com o Criador, num absurdo panteísmo.

É claro que também não vamos perder tempo nesta coleção sobre os milagres refutando outras quimeras da primitiva imaginação popular como fadas, ondinas, salamandras, larvas astrais, valquírias, gnomos, gênios, lares, sin, wu, kami, asura, raksas, ifrit, djinn etc. Hoje autores fantasiosos, desequilibrados, quando não meramente espertalhões, se enriquecem aproveitando-se da superstição de pessoas simples e ingênuas. Segundo tais autores, tais quimeras vivem normalmente num mundo físico na quarta dimenS. (?), mas uma ou outra vez agiriam também no "nosso mundo" de três dimensões, enchendo de espanto os homens com seus milagres malignos, mas as próprias entidades só se deixariam ver por alguns privilegiados… espertalhões. Por exemplo Perty1, Kreyher2, Zöllner3 etc, etc. pretendem "explicar" absurdamente com essas quimeras inclusive os milagres de Cristo e seus discípulos.

Mas do ponto de vista teórico, meramente teórico, se essas entidades, ou alguma delas, existissem e agisssem no nosso mundo observável, suas intervenções com todo direito deveriam ser consideradas milagres.

Antes das confusões e apriorismos dos racionalistas e modernistas, e sem o desespero dos que supersticiosamente acreditavam na intervenção pouco menos que contínua de "Satã e seus diabos", geralmente assim se deduzia do próprio conceito de milagre. Poderíamos tomar ao acaso entre milhares de autores. Um manual clássico: "Milagre é um fenômeno cuja causa é um agente sobre-humano; um fenômeno insólito que parece efeito de seres inteligentes diversos do homem"4.

EXCESSIVA TRANSCENDÊNCIA — As seculares discussões sobre o poder de "Satanás e seus diabos" (?) levou a alguns líderes da teologia a reservar aprioristicamente, antes do estudo dos fatos, unicamente a Deus a possibilidade de fazer milagres.

Santo Anselmo, doutor da Igreja, arcebispo da Cantuária, um dos fundadores da escolástica, no século XI, entre todas as características do milagre, sem negá-las, destaca precisamente a transcendência… excessiva: o milagre é devido a outra força, de fora de toda a natureza criada ("criada"; portanto o milagre é aprioristicamente, antes da pesquisa dos fatos, reservado a Deus. Se suprimimos, ao menos até terminada a pesquisa dos fatos, o termo criada, a definição coincide com a definição operacional da parapsicologia para possibilitar a pesquisa).

Pouco depois, no século XIII, igualmente sem negar as outras características, destacará a transcendência, a outra força realizadora do milagre, S. Tomás de Aquino, também doutor da Igreja, chamado o Doutor Angélico, o mais destacado mestre da escolástica.

S. Tomás insiste em que no milagre "a causa é inteiramente oculta a todos" ("habet causam simpliciter et omnibus occultam")5.

Comenta um fervoroso tomista, François Rodé6, especialista no estudo dos milagres: "A ‘causa inteiramente oculta’, condição para que haja um verdadeiro milagre, não somente é de fato oculta a todos, mas também deve sê-lo, supostos os limites necessários do conhecimento humano. Para que um acontecimento seja milagroso é necessário que a força que o realiza seja incompreensível, e não somente de fato incompreendida, segundo S. Tomás, "Contra gentiles", lib. III, cap. 102.

E outro tomista destacado, o pe. Héris, vai mais longe: "Entendemos estas expressões: ‘causa inteiramente oculta a todos’ e ‘fora das causas por nós conhecidas’, no seu sentido mais absoluto. Nenhuma causa criada, conhecida ou desconhecida, poderá jamais dar conta de um verdadeiro milagre, e por ser assim será plenamente necessário recorrer à única Causa cuja atividade misteriosa escapa à pesquisa científica (diretamente), isto é, a Deus"7.

E em outra parte: "S. Tomás confirmará esta maneira de ver quando escreverá que o milagre é um acontecimento que se produz ‘fora da atividade de toda a natureza criada’. Isto quer dizer que, qualquer que seja a atividade criada a que se possa apelar, ela jamais será suficiente por si mesma para explicar o fenômeno miraculoso"8.

A RETA TRANSCENDÊNCIA — Essa exigência, antes da pesquisa dos fatos, evidentemente impossibilita a própria pesquisa. É apriorística. Só se poderia aceitar tal afirmação depois de comprovado que "fatos no nosso mundo por força não de nosso mundo" só acontecem em ambiente divino…

Como na realidade a discusS. sobre o milagre se centrou principalmente no milagre divino, daqui em diante deixaremos de alertar continuamente para o exagero teórico desta limitação apriorística. Exagerada ou não, o que agora estamos frisando é a nota transcendência.

CONTRADIÇÃO MODERNISTA — Esse é o parecer posterior de todos os teólogos e filósofos da escolástica, antes que os racionalistas e modernistas com seus preconceitos começassem a embaralhar os conceitos.

O curioso é que, em meio a suas tergiversações, facilmente os próprios modernistas caem em contradição aceitando deslumbrados outros textos a favor do destaque que deve ter na definição de milagre a transcendência da força que o realiza. É fácil encontrar essa contradição nos escritos dos modernistas.

Assim, na culta coletânea realizada pelo teólogo e bispo dom Terra, apesar de serem textos preferentemente dos modernistas e ele próprio muitas vezes sucumbir sob essa tendência, contraditoriamente reproduz e endossa exposições perfeitas da transcendência. Por exemplo (os parênteses S. meus):

*** "O milagre rebaixa Deus ao nível das causas segundas (tese racionalista, como estudaremos em outro capítulo, de) A. Sabatier, G. Tyrrel, M. Loysy".

— Refuta, acertadamente aqui, dom Terra: (Na realidade) "no milagre, não deixa Deus de ser a causa primeira, não se torna ‘um elemento do mundo físico’, nem ‘uma causa fenomenal e particular semelhante às causas segundas’, que para agir necessitam do concurso de outros seres (muito bem destacada a transcendência, a outra força de fora do nosso mundo). Sem dúvida, o milagre, termo da ação divina, é um fato entre outros fatos (perfeitamente perceptível, e pertencente às ciências de observação englobadas pela parapsicologia), mas sua Causa não entra por isso na trama dos fenômenos, na combinação dos elementos cósmicos (bom…, contentemo-nos com nosso mundo, nossa Terra, nosso âmbito próximo). Ela conserva sua transcendência inacessível (diretamente) à experiência, e misteriosa. Na produção do fenômeno milagroso Deus não segue o processo das causas segundas, mas age imediatamente como acontece na Criação. Quem admite, diante das atividades criadas deste mundo, um Deus criador e soberano tem de admitir duas espécies de ação divina: a ação imediata da Criação, que consiste no dom do ser, na qual nenhum intermediário colabora; e ação imediata, que consiste em obter um resultado acionando as causas segundas. O milagre é análogo da primeira: na produção do milagre, como na Criação, há uma ação imediata da Causa Primeira"9.

E é claro que também entre os modernos os melhores filósofos e teólogos, coincidindo com a parapsicologia ou precisamente por se terem assomado às ciências de observação, continuam exigindo como elemento indispensável na definição de milagre a transcendência da força que o realiza.

Assim, por exemplo, no seu artigo sobre "Fantasma e Milagre", concretamente na segunda parte sob o título muito significativo "Para uma discusS. teórico-científica da Teologia Fundamental hodierna", os jesuítas W. Büchel e N. Lohfinf centram suas reflexões com esta definição: "Por milagre se entende um acontecimento em nosso mundo, empírico, verificável, que se deixa conhecer com certeza, e que não pode haver-se produzido por causas puramente intramundanas e que portanto teve de ter sido produzido por uma causa supramundana"10.

Aqui no Brasil o belga pe. Comblin, grande teólogo e sociólogo, destaca a mesma característica: "Se os milagres S. desconcertantes, o S. precisamente porque eles não seguem as leis deste mundo, não pertencem a ele (…), obedecem a outras leis, as do Mundo Novo (…) Ora, o princípio e a base desta Ordem Nova é a vinda de Cristo. É Ele que explica todos os outros milagres. Sem Ele não teríamos senão fenômenos ininteligíveis"11.

E, é claro, este conceito é que passou — e eles o sublinharam — aos especialistas oriundos do campo daquelas ciências de observação abarcadas pela parapsicologia. Entre tantíssimos exemplos citemos o médico psiquiatra professor dr. Beecher, da Minneapolis Clinic of Psychiatry and Neurology: "O milagre oferece como uma explanação da vontade ou efeito de alguma outra força ou entidade e, por isso, em essência é a teoria da existência de forças outras daquelas comodamente chamadas naturais"12.

[continua]
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   Fernando De Matos:
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 Centro Latino-Americano de Parapsicologia - Portugal®
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