EM QUE CONSISTE O MILAGRE — A natureza pode cicatrizar uma ferida. Mas não pode cicatrizá-la tão rapidamente como no milagre. Os racionalistas e modernistas com suas tergiversações estão exigindo um absurdo. Como se dissessem: o milagre de cicatrização tem de ser outra coisa que a cicatrização! Cicatrização = não-cicatrização!

Muito bem dizia o dr. Biot em Lourdes: No milagre de cicatrização, como em qualquer outro milagre, “é necessário logicamente que a cura extraordinária (supranormal) realize fenômenos da mesma ordem (o mesmo efeito, o mesmo resultado final) que os que se realizam pela via habitual (a natureza) quando cura, espontaneamente ou sob a ação de uma terapêutica. O que há de maravilhoso numa cura inexplicada (ou inexplicável naturalmente, supranormal) é o aporte de alguma coisa a mais de vida, que realiza o que as forças habituais (ou a natureza) não produzem”35.

Comenta a dr. Assailly, também em Lourdes: “É aí, e somente aí, onde radica o problema do milagre. É como se Deus fizesse que a pessoa no milagre se beneficiasse de um sopro criador suplementar e que se produza uma verdadeira recriação — na expresS. do professor Jean Lhermitte36 —, num desafio do tempo ao qual o Eterno não pode estar submetido”37.

A INSTANTANEIDADE — Deus não faz “milagrezinhos” (?), indiferenciáveis ou dificilmente diferenciáveis do que a natureza pode. Têm de ser e S. claríssimos, como “assinatura” infalsificável d’Ele.

Nos milagres de cicatrização instantânea não se trata de uma feridinha de quatro por três por dois centímetros, embora essa feridinha a natureza também não a possa cicatrizar instantaneamente. Trata-se de feridas profundas, chagas extensas em estado altamente degenerado, fístulas amplas, cavernas múltiplas e inveteradas, etc. Em todos esses milagres houve perda notável de substância. Nesses casos, a reconstrução das células e tecidos exigiria à natureza um trabalho (citológico e histológico, respectivamente) semelhante ao da primeira formação.

Para reparar essas perdas de matéria orgânica, há que engendrar bilhões de células novas. Vão surgindo das bordas da ferida botões carnosos formados por capilares envolvidos em células embrionárias. Cada célula nova forma-se no seio de uma outra célula mãe a partir dos nutrientes que, trazidos e saindo dos vasos sanguíneos, penetram no protoplasma da célula mãe. Este protoplasma e seu núcleo vão engordando pouco a pouco até se segmentarem: uma célula converte-se assim em duas. Assim, pouco a pouco, diríamos “com muita paciência”, bilhões destas células novas, microscópicas, de poucos milionésimos de milímetro, unem-se formando parte de um tecido.

O processo de ciS. de cada célula demora no mínimo meia hora. Não adianta invocar não sei que acelerações. A diviS. celular necessariamente é sucessiva.

Que aceleração poderia ocasionar uma cicatrização instantânea? Isso equivale a afirmar que as inumeráveis cisões fizeram-se simultaneamente! O que equivale a uma nova criação. Só Deus pode criar.

E assim os modernistas de hoje, que invocam uma misteriosa aceleração (Dufour, dom Terra etc. etc., como vimos, principalmente, nos capítulos 4 e 5), na realidade estão invocando, pura e simplesmente, o milagre que pretendem negar!

E mais tempo é necessário para as células se diferenciarem especificamente, segundo o seu lugar e finalidade: parte do osso, da cartilagem, da mucosa, do epitélio, do nervo, da artéria…

Assim, por exemplo,”o trabalho de cicatrização das artérias” — escreve o prof. Lecène no seu “Précis de pathologie chirurgicale” — “é sumamente longo, demanda de quarenta a cinqüenta dias. Quando um nervo é completamente secionado, pode, após um certo tempo, três ou quatro meses ou mais (segundo o tipo e tamanho do nervo), cicatrizar e recuperar suas funções perdidas após a seção”.

“Toda solução de continuidade no esqueleto cicatriza mediante a formação de um tecido intermediário que se vai ossificando, e recebe o nome de calo. A constituição do calo (ósseo) passa por quatro fases que se sobrepõem uma sobre a outra: formação do calo célulo-fibroso, formação do calo fibro--cartilaginoso, formação do calo ósseo provisório, formação do calo ósseo definitivo. No homem, esta fase se prolonga durante meses e anos.”38

Ainda é necessário que todas essas células diferenciadas segundo o tecido de que vão formando parte estejam harmonicamente subordinadas a todo o conjunto do organismo, o que se realiza pela influência diretriz de complicadíssimas terminações nervosas. Diríamos que estas terminações nervosas, em número de centenas de milhões, distribuídas por todo o corpo, S. uma espécie de rede intricadíssima de fios telegráficos. Uns, os nervos centrípetos ou terminações protoplasmáticas, para levar aos centros cerebrais as impressões ou despachos provindos de todo o organismo; outros, os nervos motores ou cilindrácidos, para levar as respostas ou despachos diretores provindos dos centros cerebrais.

Para todo esse complicadíssimo trabalho de cicatrização, mesmo de uma chaga de poucos centímetros, a natureza precisa de seu tempo. A extrema pequenez das células exige um número imenso delas e gerações sucessivas para poder cobrir toda a área lesada, antes é preciso que as células sadias levem os nutrientes às células-mães, em contínuas e numerosíssimas viagens com infinitésimas cargas, todos os nutrientes necessários, antes é preciso que o próprio sangue absorva dos pulmões os elementos gasosos, e do aparelho digestivo os princípios minerais e azotatos sólidos, antes é necessária a elaboração, secreção e ação dos sucos digestivos, a digestão tem de elaborar esses nutrientes, para o qual antes as bactérias precisam de tempo para extraí-los quimicamente dos alimentos, e antes é preciso tempo para o nascimento dessas bactérias que haverão de entrar em ação, e antes é necessário tempo para comer e respirar todos os elementos necessários…

O que será que os modernistas querem dizer com aceleração natural? Como o leitor vê, é admirável a força do preconceito! Os modernistas de hoje, vestindo-se com penas de pavão, fazem papel de gaiatos ao repetir em todos os seus livros e aulas sobre os milagres os disparates dos racionalistas (as conclusões dos racionalistas, sem nem sequer usar seus falsos argumentos).

Todos sabemos por experiência que um homem sadio precisa por volta de uma semana para repor completamente um pouco do epitélio arrancado por um raspão.

A natureza, para cicatrizações tais como as dos milagres, nos casos menores, precisaria semanas, meses ou anos.

Cicatrização como a dos milagres, nos casos mais amplos, simplesmente “não foi jamais, na espécie humana” (ou nos pássaros ou mamíferos, se quiserem) realizada pela natureza. Dito de outra maneira: nunca em outro ambiente diferente daquele em que claramente todas as circunstâncias apontam para Deus como Autor do milagre.

*** Mais de uma vez, alguns alunos de parapsicologia perguntaram-me em aula, um tanto irrefletidamente: uma aparente cicatrização instantânea não poderia ser só ectoplasma recobrindo a ferida?

— O ectoplasma não enganaria a ninguém sensato. Seria completamente diferente do que entendemos por recuperação de tecidos e cicatrização.

— Além do mais, o ectoplasma logo se reabsorveria, desmascarando a falsa recuperação de matéria orgânica e a falsa cicatrização.

Contra os sofismas,
a verdadeira filosofia.

Invulnerabilidade supranormal

DETERMINISMO ABSOLUTO — Vimos que os racionalistas pretendem opor o milagre ao determinismo das leis da natureza. Determinismo tão absoluto que nada nem ninguém poderia superá-lo. O obscuro filósofo francês Goblot assim resumia o determinismo absoluto invocado pelos racionalistas, e o defendia com tanta energia como falta de provas, até sua morte em 1935: “Não há, portanto, na natureza nem contingência, nem mudança, nem milagre (eis o alvo), nem livre-arbítrio (isto é, para ser racionalista há que se igualar às pedras). Cada uma destas hipóteses arruína em nós a faculdade de raciocinar sobre as coisas” (as pedras raciocinam? Coitados racionalistas! E se autodenominam filósofos!)1.

[continua]  
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    Fernando De Matos:
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  Centro Latino-Americano de Parapsicologia - Portugal®
              http://www.terravista.pt/Mussulo/1287/
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