Informações que auxiliam usuários também colaboram com criminosos
[por Altieres Rohr]

Informar ou não informar, eis a questão que muitos pesquisadores de segurança 
precisam responder sempre que alguma nova ameaça
aparece – seja digital ou não. Criminosos podem usar as informações veiculadas 
para que cidadãos possam se proteger para aplicar
novos golpes, obter mais informações sobre uma fraude e, no caso de segurança 
da informação, desenvolver novos códigos maliciosos. 

Na semana passada, por exemplo, um pesquisador de segurança da McAfee divulgou 
dados técnicos sobre um vírus que usava uma nova
brecha no Internet Explorer 7. Administradores de sistema puderam usar esses 
dados para proteger suas redes. Mas, também, outro
especialista foi capaz de obter e dissecar o código, permitindo que a 
vulnerabilidade no navegador – antes restrita ao grupo
criminoso que a estava utilizando – se transformasse numa falha que qualquer 
pessoa pode usar, mesmo que não tenha conhecimento
técnico. E isso tudo com uma brecha que ainda não tem correção. 


O “uso duplo” da informação

Na semana passada, a Microsoft confirmou a existência de um ataque na web que 
usava uma brecha ainda sem correção capaz de infectar
usuários das versões 6 e 7 do Internet Explorer. Em seguida, a fabricante de 
antivírus McAfee publicou o que ela sabia sobre o
assunto, o que incluía alguns dados técnicos do vírus – bem mais do que a 
Microsoft revelou. O intuito da McAfee era dar mais
informações a interessados e permitir que administradores pudessem bloquear o 
site malicioso e proteger suas redes. 

Mas, em posse da mesma informação, um programador israelita foi capaz de obter 
cópias do vírus. Para a indústria de antivírus, a
distribuição direta de códigos maliciosos é considerada antiética. A McAfee não 
fez isso diretamente, mas deu informações
suficientes para que o especialista pudesse deduzir a localização da praga. Ao 
analisar o vírus, o programador conseguiu desenvolver
o código para explorar a brecha. 

O código logo foi adicionado ao Metasploit, um kit destinado a especialistas em 
segurança que realizam os chamados “testes de
penetração” – um ataque feito com autorização para verificar a segurança de um 
sistema. A partir do código no Metasploit, que é
aberto, criminosos com um mínimo de sofisticação já conseguem lançar ataques 
via web, como o original. 

Quem trabalha em ferramentas como o Metasploit e desenvolve esse tipo de 
código, que pode ser usado tanto por criminosos como
profissionais, adota uma postura distinta daquela encontrada na maioria dos 
pesquisadores antivírus. 

A indústria antivírus é uma das mais secretas no ramo de segurança. Muita 
informação não sai do círculo de pesquisadores
“credenciados” e, como é um campo onde operam apenas empresas privadas, muita 
coisa nem sequer é compartilhada entre elas mesmas. A
revista “oficial” da indústria, a Virus Bulletin, localiza-se no mesmo prédio 
da fabricante britânica de antivírus Sophos, o que
demonstra a ligação dessas empresas com a circulação da informação relevante 
para elas mesmas. 

Muitas soluções, ferramentas, descrições técnicas e cópias de pragas digitais 
encontram-se restritas em portais acessíveis apenas a
pesquisadores e técnicos credenciados – essencialmente um “clube”. Os motivos 
para esse fechamento são os mais diversos: medo de que
a informação seja má utilizada ou que usuários acabem se infectando sem querer. 

Especialistas que lidam com brechas de segurança, por sua vez, costumam 
divulgar detalhes em locais como a Full-Disclosure, a
Bugtraq e revistas eletrônicas (e-zines) – boa parte delas abertas ao público 
geral. 

É por isso que o caso da McAfee é interessante – foi “informação demais” até 
para um segmento da indústria que costuma revelar tão
pouco. No site Viruslist, mantido pela fabricante de antivírus russa Kaspersky 
Lab, um especialista da empresa pediu mais cuidado
com informações sobre ameaças ainda em curso. Para a o especialista, as 
informações como as reveladas pela McAfee não devem ser
divulgadas em público, mas apenas entre outros especialistas. 

Esse pensamento, de limitar ao máximo qual informação está disponível, é 
chamado de “segurança por obscuridade” (security by
obscurity). Com isso, o público geral fica às escuras a respeito do que 
acontece – e à mercê de empresas privadas, o que faz com que
alguns discordem deste ponto de vista. A ideologia oposta é conhecida como 
“full disclosure”, ou “revelação completa”. 

“Ao remover barreiras para a informação, nós acreditamos que a internet será um 
lugar mais seguro”. Assim é descrita a ideia por
trás do site Offensive Computing, criado pelo especialista em segurança Danny 
Quist. O site segue sua ideologia à risca. Além de
publicar análise técnicas detalhadas de diversos códigos maliciosos, ele também 
hospeda a maior coleção pública de pragas digitais.
São mais de 1,1 milhão de pragas digitais armazenadas e livremente disponíveis 
para download, permitindo que qualquer um analise –
seja para defender sua rede ou para desenvolver um novo código malicioso. 

Tudo isso é muito diferente do que a indústria antivírus está acostumada – e o 
site tem “cara” de legítimo – diferente do “submundo”
dos códigos maliciosos, onde se localizavam os únicos locais onde se podia 
obter informações desse tipo. A percepção dos
especialistas envolvidos nesse tipo de projeto é a de que, se a informação está 
acessível para todos, os bons usos irão, mais cedo
ou mais tarde, superar os maus. 

Esse submundo era antes representado por site como o VX Heavens, um ponto de 
encontro de pessoas interessadas em vírus. Além de
disponibilizar uma coleção de pragas digitais, o site também possui artigos e 
informação sobre análise de vírus, além de colecionar
trabalhos científicos sobre o tema. 


Proteção de informação levada ao extremo: o caso de Robert Maley 

Às vezes, a falta de transparência chega a tal ponto que uma brecha sequer pode 
ser mencionada. Com o que aconteceu com Robert
Maley, que era chefe de segurança da informação do estado da Pensilvânia, nos 
Estados Unidos. Em uma palestra na conferência de
segurança RSA, há duas semanas, Maley mencionou um problema no departamento de 
trânsito, que permitiu que uma escola de motoristas
conseguisse adiantar as provas de seus alunos, favorecendo-os. 

Simplesmente por mencionar um problema, já resolvido, e sem dar maiores 
detalhes, Maley foi demitido. O caso demonstra como alguns
gestores – que no caso são do governo, mas poderiam ser também empresas 
privadas – ainda não lidam bem com qualquer informação que
seja revelada. Embora seja um caso diferente, a situação não era muito 
diferente na década de 90, quando várias falhas de segurança
não eram corrigidas para que as empresas não precisassem admitir sua 
existência. 

Ainda hoje, a Microsoft elimina brechas “não reveladas” em suas atualizações, 
embora isso seja mais raro. São falhas, descobertas
por pesquisadores da própria Microsoft, cuja existência a empresa prefere não 
divulgar. Especialistas argumentam que, por não
saberem dessas vulnerabilidades, administradores e usuários podem não perceber 
a real importância de se instalar uma atualização,
apesar de ela corrigir outros problemas. 

Segurança da informação é, como o nome sugere, sobre informação. Não por menos, 
é o campo no qual a questão de publicar ou não uma
determinada informação é mais complexa. É claro que na segurança física isso 
também é um problema; criminosos podem “copiar” crimes,
se souberem de sua existência. Por outro lado, é necessário informar o público. 

Quanto o assunto fica mais técnico, como no caso da informática, é mais difícil 
para o público geral (e leigo) analisar se uma
determinada informação precisava mesmo ter sido publicada, porque é difícil 
perceber a utilidade de dados técnicos que não se
compreende. Isso complica o debate e torna quase impossível sugerir qualquer 
tipo de regulamentação. Por enquanto, cada um faz o que
acha certo, e, assim, fica difícil encontrar fontes seguras para se informar, 
enquanto criminosos encontram facilmente o que
precisam. 


* Altieres Rohr é especialista em segurança de computadores. Ele criou 
e edita o Linha Defensiva, site e fórum de segurança que oferece um 
serviço gratuito de remoção de pragas digitais, entre outras atividades.



[G1]
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1530100-6174,00-INFORMACOES+QUE+AUXILIAM+USUARIOS+TAMBEM+COLABORAM+COM+CRIMINOSOS.html


















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