Jogo perigoso na área fiscal
 *Editorial - O Estado de S.Paulo - 14/07/2010.*

 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende mudar a regra do jogo
fiscal para a Copa de 2014. Segundo o plano, as 12 cidades onde haverá jogos
poderão aumentar seu endividamento sem cometer infração.

Precisarão disso, de acordo com o governo federal, para realizar as obras
necessárias até 2014. A ideia é alterar os limites da Lei de
Responsabilidade Fiscal por quatro anos, noticiou o Estado com base em
informação de fonte federal. A dívida municipal poderá chegar ao dobro da
receita. Hoje o teto corresponde a 60% da arrecadação.

A Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece duas condições para a suspensão
de prazos e condições para a correção de excessos de endividamento ou de
gastos com pessoal. As normas podem ser atenuadas em caso de calamidade
pública ou de baixo crescimento econômico - variação do PIB inferior a 1% em
quatro trimestres. O aumento de gastos com eventos como a Copa do Mundo ou a
Olimpíada não aparece na lista de justificativas para a violação dos
limites.

A decisão de tornar a lei mais flexível para os investimentos necessários à
Copa revela um dado importante sobre os critérios do governo federal. O
presidente Lula empenhou-se em trazer ao Brasil as duas maiores competições
esportivas internacionais sem levar em conta as limitações fiscais. Seus
assessores para assuntos econômicos parecem ter sido contaminados pelo
entusiasmo do chefe. Também deixaram de levar em conta as consequências da
aventura para as finanças públicas.

Só agora, aparentemente, o presidente e seus auxiliares perceberam o desafio
imposto aos municípios. O desafio é duplo. Em primeiro lugar, terão de
investir grandes somas na preparação das cidades para abrigar os jogos e
receber multidões de torcedores. Para isso, correrão o risco de estourar
seus limites de endividamento. A mudança planejada pelo presidente poderá
atenuar a restrição legal.

O segundo desafio consiste em compatibilizar as despesas da Copa com as
demais prioridades - como os investimentos em educação, saúde, urbanização
de favelas e assim por diante. Para este problema não há solução. Quanto
menor a participação do setor privado nos projetos da Copa, maior o
comprometimento de recursos públicos e menor a sobra de dinheiro para outras
finalidades.

O atraso nas obras força os governos, em todos os níveis, a apressar as
decisões e diminui seu poder de negociação com os investidores potenciais e
com os grupos interessados na realização dos projetos.

Os dirigentes da Fifa já mostraram a disposição de pressionar o governo
brasileiro para concluir as obras nos prazos previstos. "Precisamos
construir estádios, estradas, o sistema de telecomunicações e aeroportos e
ver se há mesmo capacidade suficiente em hotéis", disse o secretário-geral
da entidade, Jérôme Valcke. Não interessa aos diretores da Fifa ouvir
explicações nem conversa mole a respeito dos investimentos. Eles serão
pessoalmente prejudicados se aceitarem o risco de o Brasil chegar a 2014 sem
condições mínimas de realização dos jogos.

Mas esses dirigentes não são os únicos a apontar os atrasos. O presidente da
CBF, Ricardo Teixeira, chamou a atenção para o problema dos aeroportos e
provocou uma reação irada do presidente Lula. Segundo um relatório do TCU,
as providências estão "impressionantemente atrasadas" e há o risco de se
repetir o desastre financeiro dos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de
Janeiro. *Gastos inicialmente orçados em R$ 520 milhões converteram-se numa
despesa de R$ 4 bilhões*, realizada, finalmente, graças ao socorro de
emergência prestado pelo governo federal.

O governo central, o mais interessado na realização da Copa, falhou mais uma
vez, portanto, no planejamento e na gestão das ações necessárias. Ninguém
deveria surpreender-se. Planejar nunca foi o forte do governo petista,
embora a palavra planejamento seja frequente em sua retórica. A derrota na
África foi um tropeço esportivo, desagradável, mas sem maiores
consequências. Já a realização da Copa de 2014, com ou sem vitória da
seleção brasileira, pode ser um péssimo negócio para o País. Todos os fatos,
até agora, indicam esse resultado.


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FG

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