The drunkard's walk - Leonard Mlodinow Resumindo grosseiramente, *The drunkard's walk* conta a história do nascimento e desenvolvimento da *estatística* e da *probabilidade*. Mas espere! Não mude de canal! Leonard Mlodinow<http://www.its.caltech.edu/%7Elen/>, é um cara talentosíssimo e conseguiu a proeza de escrever um livro muito agradável, com um estilo leve e bem-humorado (ele também é co-autor de "Uma nova história do tempo", com o Stephen Hawking). Suas ótimas tiradas e um grande senso prático de aplicação de complicadas teorias, tornam temas científicos facilmente palatáveis para leigos como eu - e talvez você.
Eu o recomendaria, inclusive, para *professores de estatística* que não estão conseguindo a atenção de seus queridos pupilos. Tendo a achar, lembrando meus tempos de aluno (coisa recente), que quando não há um senso prático para determinada disciplina, fica mais difícil vendê-la como algo útil e que valha a pena o esforço. Mas a beleza da obra de Mlodinow reside exatamente em mostrar-nos onde está o *senso prático* da estatística e da probabilidade na nossa vida. Em que momentos nós as subestimamos ou superestimamos - e de que forma ambas as situações podem ser igualmente perigosas. A grande contribuição do livro está no alerta à nossa tendência de buscar uma razão oculta para tudo o que nos acontece. Pequenos subterfúgios matemáticos para domar a estranha sensação de que as coisas ocorrem fora do nosso controle, de forma arbitrária, sem que tenhamos o mínimo controle sobre nossos destinos. [image: Random-numbers]<http://rodolfo.typepad.com/.a/6a00e554b11a2e8833010536f36e02970b-popup>Pois *se os acontecimentos são aleatórios, significa que não estamos no controle*. Do mesmo modo, *se estamos no controle então os eventos não são aleatórios*. E, como gostamos de pensar que estamos no controle das coisas, muitas vezes nos forçamos a ver relações de causa e efeito onde elas não existem. Há, portanto, um conflito fundamental entre nossa necessidade de sentirmos que estamos no controle e nossa habilidade em reconhecer a aleatoriedade das coisas. E é aí que reside a principal razão pela qual interpretamos o acaso erradamente. ** * * * * * * * * ** Um exemplo interessante disso foi dado no já citado *Inevitable Illusions: How Mistakes of Reason Rule Our Minds<http://www.amazon.com/gp/product/047115962X?ie=UTF8&tag=inevitable_text-20&linkCode=as2&camp=1789&creative=9325&creativeASIN=047115962X> * (Wiley, 1994) onde Massimo Piattelli-Palmarini propõe um curioso problema: se lançarmos uma moeda sete vezes seguidas, qual das três opções abaixo seria mais provável de acontecer, considerando Ca = Cara e Co = Coroa? a) Co; Co; Ca; Ca; Ca; Ca; Ca b) Ca; Ca; Co; Ca; Co; Co; Ca c) Co; Co; Co; Co; Co; Co; Co Mesmo que você não queira escolher entre (a) ou (b), você descarta (c) imediatamente, certo? O problema é que se trata de uma amostra muito pequena e não haveria, portanto, uma resposta mais correta do que as outras. Em 1957 o matemático George Spencer-Brown demonstrou, em *Probability and Scientific Inference* (Londres: Longmans, Green, 1957), que se gerarmos uma série aleatória de 101.000.007 zeros e uns, seriam esperadas, no mínimo, *dez seqüências de um milhão de zeros seguidos*! Ora, desse jeito, uma mera seqüência de sete Coroas soa até trivial*... Ouvir (ou ler) algo assim, depois de tantos anos aprendendo que as chances de termos uma Cara (ou Coroa) lançando uma moeda para cima são de 50%, parece até contraintuitivo. E é! Mas isso ocorre porque nós assumimos que alguns poucos exemplos ou pequenas séries retratam fielmente uma dada situação, quando na verdade são amostras muito pequenas para serem representativas. Tversky e Kahneman<http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/tversky-kahneman/>(sempre eles!) jocosamente batizaram esse fenômeno de *lei dos pequenos números *- que não é, de fato, uma lei, mas uma sarcástica descrição da tentativa de aplicar a Lei dos Grandes Números<http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_dos_grandes_n%C3%BAmeros>(esse sim, um conceito fundamental em probabilidade desenvolvido por Jakob Bernoulli, que diz que quanto mais observações a respeito de um fenômeno você fizer - mais perto estará da real descrição desse fenômeno) a séries não tão grandes assim†. [image: Dilbert randomness]<http://rodolfo.typepad.com/.a/6a00e554b11a2e8833010536fca2cb970c-popup> O pior dessa lei dos pequenos números é que ela parece nos dragar como areia movediça: quando estamos envolvidos numa ilusão de aparente causalidade - onde poucos eventos parecem descrever precisamente um dado resultado - em vez de procurarmos maneiras de provar que nossas idéias estão erradas, procuramos sempre formas de mostrar que estão certas. É o que os psicólogos chamam *viés da confirmação<http://en.wikipedia.org/wiki/Confirmation_bias> * (*confirmation bias*): a tendência de buscar ou interpretar dados de forma a confirmar uma idéia pré-concebida, ao mesmo tempo em que se refutam ou ignoram evidências em contrário. Ir contra a lei dos pequenos números, contudo, requer firmeza de caráter, pois você estará indo contra o (deturpado) senso comum, como um autêntico Iconoclasta<http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/01/iconoclasta.html>... Nesse momento do livro, comecei a encontrar muitos pontos em comum com *The halo effect*, de Phil Rosenzweig e *The black swan*, de Nicholas Nassim Taleb. Mas isso vai ficar para o próximo *post*<http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/02/the-drunkards-walk-o-que-aconteceu-por-acaso.html> ... __________ * Mlodinow diz, inclusive, que completa aleatoriedade - quer dizer, o caos absoluto - é, ironicamente, um caso de perfeição. † O curioso é que mesmo antes de conhecer esse conceito eu já havia escrito algo falando da lei dos pequenos números. Relembre o divertido estranho caso da aranha<http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2008/11/o-estranho-caso-da-aranha.html> .
