MIRIAM LEITÃO - Página 32
   *O donatário*
Miriam Leitão

O presidente Lula se despedindo da Presidência, no programa eleitoral de
Dilma Rousseff, com a música “entrego em suas mãos o meu povo” me lembrou o
pior Brasil. O Brasil dos donatários, das capitanias hereditárias. Como se
não fosse suficiente, ainda há o discurso que infantiliza o povo brasileiro
com essa história de pai e mãe do povo.

Desde “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor Nunes Leal, o Brasil conhece
bem esse seu pior lado. O do patrimonialismo brasileiro, do qual nasceram
outros defeitos: o populismo, o paternalismo, o clientelismo. Com a
manipulação das massas, os donatários do Brasil mantêm o poder e o entregam
aos seus herdeiros.

Além do “deixo em suas mãos”, há ainda a ameaça continuísta implícita: “Mas
só deixo porque sei que vais continuar o que eu fiz.” Como se Lula pudesse
decidir não passar a Presidência à pessoa que for eleita este ano.

Ninguém duvida que apelos emocionais funcionam em campanha eleitoral. Mas
não garantem eleição. Difícil esquecer até hoje o contagiante “Lula lá,
nasce uma estrela, Lula lá”. E ele perdeu aquela eleição. São muitas as
razões do voto e a história eleitoral brasileira é curta demais para que
sejam traçadas leis gerais.

Mas espera-se que ela não se explique pelo retrocesso, por essa visita ao
passado.

A economia é decisiva na maioria das eleições, mas nem sempre. A economia
americana estava num dos seus melhores momentos ao final do governo Bill
Clinton e mesmo assim Al Gore perdeu. É bem verdade que Al Gore quis
distância de Clinton por causa do escândalo Monica Levinsky.

Se por acaso o então presidente democrata fizesse uma campanha paternalista,
cantando que entregava o povo americano nas mãos de Gore — como se fosse sua
propriedade — certamente causaria rejeição ainda maior. Lá, eles não acham
que eleitores passam de mão em mão como uma massa sem vontade própria. Nem
mesmo ocorreria a um presidente decidir pelo partido quem deve concorrer à
sua sucessão, porque existe o saudável ritual das primárias em que os
candidatos a candidatos enfrentam o desafio de convencer seus próprios
militantes. Aqui, nem governo nem oposição escolhem postulantes de forma
transparente.

O Brasil está crescendo forte, a inflação está em queda — foi zero em julho
— o crédito se expandindo, o consumo aumentando, o desemprego caindo.

Alguns números são mais elevados por causa da base de comparação, mas há
crescimento de fato. A crise de 2008/2009 derrubou a economia e, da
perspectiva da campanha governista no Brasil, a recuperação está ocorrendo
na hora exata para ajudar o governo na campanha. Todos esses fatores são
mais poderosos na definição do voto do que apelos populistas.

É a sensação de conforto econômico que fortalece a campanha da continuidade.

Na onda mistificadora na qual todos no governo estão empenhados, o
Ministério da Fazenda divulgou ontem um pretenso estudo para provar que a
atuação do BNDES garantiu que o país evitasse uma recessão de 3,2% no ano
passado e sustentou 4 pontos percentuais do crescimento deste ano.

A História econômica recente do Brasil mostra que o crescimento do PIB tem
duas características: não sustenta taxas altas por muito tempo; não tem
grandes quedas. No ano passado, vários países do mundo tiveram quedas
grandes do PIB como os 7% da Rússia e do México. O Brasil ficou no -0,2%.
Pela visão do ministro Guido Mantega, foi a ação do BNDES.

Mas na crise da Ásia todos os países que tiveram colapsos cambiais
enfrentaram recessões enormes: Coréia, -7%; Indonésia, -17%. O Brasil não
teve resultado negativo. E não teve esse jorrar de dinheiro do Tesouro para
as empresas brasileiras através do BNDES. Segundo Mantega, esses empréstimos
subsidiados com dinheiro do Tesouro garantiram 7% de crescimento. Esse
número é tão científico quanto o ocultismo.

Ninguém discute a importância do BNDES na economia brasileira, é claro que
ele é importante. O problema são os desvios que reforçam o patrimonialismo:
a ideia de que o Tesouro pode ser apropriado por alguns. Reduzir o custo de
capital, incentivar empresas, estimular a economia o banco sempre fez. Só
nos seus piores momentos, como na época dos militares no poder nos anos
1970, escolheu donatários do dinheiro público, concentrou recursos nessa
proporção, transferiu impostos para alguns poucos como está fazendo agora.

É por isso que os grandes empresários brasileiros estão tão contentes e
querem mais do mesmo. O presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, na série
de ideias obsoletas que exibiu na entrevista que concedeu esta semana ao
“Valor Econômico”, disse que quer não um, mas três BNDESs.

Pode-se imaginar que está sendo sincero. Pediu que o governo “feche o país
por um tempo.” Pode-se imaginar por quê. Com a economia fechada, funciona
melhor o sistema das capitanias hereditárias, do mercado interno entregue
como donataria para alguns proprietários. Há 20 anos o Brasil começou a
abrir a economia, por isso já se pensava, a esta altura, que ninguém teria
mais a coragem de fazer um pedido como esse. A crise de 2008/2009 e as
eleições de 2010 viraram uma espécie de licença para propor qualquer
velharia: dos subsídios ao fechamento do país. A campanha governista nas
eleições está fortalecendo a ideia de que o país não tem um líder, nem um
presidente; tem um dono.

Um donatário.

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