alguém conhece ou sabe onde tem...

Arthur Dapieve - Página 8
   Influência do jazz
Evans e Eça tocam num outro Rio

Saiu em CD no exterior um importante documento de outros tempos aqui na
cidade. “Piano four hands — Live in Rio 1979” registra os pianistas Bill
Evans e Luiz Eça tocando juntos em dois sets no velho Chiko’s Bar da Lagoa,
na noite de 29 de setembro daquele ano. Hoje, finados o Mistura Fina e o TIM
Festival, é rara a atração de jazz internacional que passa pelo Rio de
Janeiro, mais ainda a que encontra um cantinho para dar canja.
Pouco depois da época em que Evans e Eça se apresentaram no Chiko’s, quando
o festival ainda se chamava Free Jazz, era obrigatório sair do Hotel
Nacional terminados os shows da noite e perseguir os visitantes em bares com
música ao vivo pela madrugada. Jazzistas são mesmo assim: quando começam a
tocar só param por exaustão. Alguns nem isso: muitos se viciaram em drogas
pesadas para poder tocar mais sem sentir dor.
Era possível, então, assistir aos grandes do jazz ou na vastidão do teatro
do hotel ou num clubinho mais aconchegante, como o também finado Jazzmania.
Nomear as estrelas decerto deixaria de fora os favoritos de alguém, razão
pela qual citarei apenas o show que mais apreciei no Free Jazz, o da
orquestra de Gil Evans (nenhum parentesco com Bill), em 1987. Dizer que foi
uma aula magna de técnica, arranjo, energia e bom gosto seria pálido.
O jazz não é o único gênero que não encontra mais palcos no Rio, claro.
Olhar a programação de shows de São Paulo — e, às vezes, até as de cidades
menos populosas — tem matado os cariocas de inveja. Aqui, sobretudo na Lapa,
há um pouco mais de samba e choro. O resto... O jazz quase sumiu do mapa, a
não ser pela perna mais curta de um Bourbon Street Fest, que rolou esta
semana. Organizado por uma casa paulistana.
Atualmente, um dos poucos bastiões de boa música instrumental no Rio está na
Sala Baden Powell, em Copacabana, onde fixou residência a banda Tutti,
formada por Ana Azevedo (piano), Lipe Portinho (baixo), Daniel Garcia
(saxofone) e Kleberson Caetano (bateria).
Semana após semana, eles têm recebido convidados para homenagear Miles,
Chet, Coltrane... Às vezes, com a interpretação de um álbum-chave inteiro.
(Amanhã, por acaso, o tributo não é a um jazzista, mas à diva Barbra
Streisand, pelos seus 50 anos de carreira. E o convidado é o cantor Glauco
Lourenço, uma voz rara que em breve deve lançar novo CD para suceder ao
ótimo “Abalo sísmico”, de 2007.) De volta ao Chiko’s Bar em 1979... O disco
com o encontro Bill Evans-Luiz Eça saiu por um desses selos europeus que
ninguém sabe de onde veio ou para onde vai, o Jazz Lips Music.

Apesar da obscuridade, tamanha que até levanta suspeitas sobre a condição
legal dos seus lançamentos, tais selos têm prestado um baita favor aos
aficionados, tornando disponíveis shows que, de outra forma, estariam
perdidos nalgum arquivo.
Já havia edições piratonas desse show no Chiko’s Bar, e a qualidade do som
de “Piano four hands” não se eleva muito acima da delas.
No entanto, o lançamento da Jazz Lips se beneficia das informações contidas
no texto do encarte, assinado por um certo Arnold Mild, e na ficha técnica.
Esta inclui, além dos dois craques do piano, o seu colega Cidinho (em duas
faixas), a cantora Leny Andrade (cantando “Wave”, de Tom Jobim, com o
gabarito habitual) e o baixista do trio de Evans na ocasião, Marc Johnson
(em seis faixas).
Evans, Johnson e o baterista Joe La Barbera vinham da Argentina, onde duas
noites antes haviam registrado, no Teatro General San Martín, o disco “Live
in Buenos Aires 1979”, relançado em CD por outro selo europeu obscuro, o
West Wind. O repertório portenho tinha, entre outras, “I loves you Porgy”, a
comovente versão para o tema do seriado “M*A*S*H”, e “Minha”, a melodia de
Francis Hime que teve letra de Ruy Guerra.
Há, aliás, uma história curiosa envolvendo a torturada versão de “Minha”
tocada por Evans nos seus últimos anos de vida. Certa noite, o próprio
Francis estava assistindo a um show do pianista em Los Angeles quando este
sacou “Minha” das teclas. O compositor ouviu maravilhado e comovido, mas não
teve coragem de se apresentar a Evans. Acho que esse causo diz muito sobre a
discrição nata de Francis, um dos nossos gênios gentis.

Quando esteve no Rio em 1979, para uma apresentação na Sala Cecília
Meireles, Bill Evans vinha na fase final do longo processo de autodestruição
por álcool e drogas, acelerado pelo suicídio de seu irmão Harry. Evans seria
bem-sucedido menos de um ano depois, a 15 de setembro de 1980, aos 51 anos.
No atestado de óbito, úlcera hemorrágica e pneumonia.

Na cabeça dos amigos mais chegados, desinteresse pela vida.
Porém, o repertório do barulhento Chiko’s Bar não foi nada fúnebre, e olhe
que Evans sabia ser fúnebre, foi apenas docemente melancólico.
Abria com “Noelle’s theme”, de Legrand, passava por “Corcovado”, de Jobim, e
fechava com “Stella by starlight”, de Washington & Young. Os dois pianistas
eram amigos, já tinham tocado a quatro mãos, e Evans até gravara “The
dolphin”, de Eça, música ausente dos sets. O americano sabia a quem apreciar
aqui. Ao crítico e pesquisador Tárik de Souza, ele certa vez falou de outra
das suas admirações brasileiras, o grande Dick Farney, meio desprezado em
casa como cafona.
“Piano four hands” testemunha, portanto, que esta cidade já foi mais
cosmopolita.

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