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MERVAL PEREIRA - Página 4
   Infantilismo e controle
Merval Pereira

A infantilização do eleitorado brasileiro denunciada pela candidata do
Partido Verde, Marina Silva, é um dos sustentáculos da alta popularidade do
presidente Lula. E a campanha eleitoral vai se desenrolando de acordo com os
planos desenhados por ele à imagem e semelhança do seu governo, praticando o
que talvez seja o maior mal que esteja fazendo ao país: a esterilização da
política.

O controle dos partidos através da distribuição de cargos e de métodos mais
radicais como o mensalão neutraliza a ação congressual, permitindo a
formação de uma aliança política tão heterogênea quanto amorfa, com partidos
que em comum têm apenas o apetite pelos benefícios que possam obter apoiando
o governo da ocasião.

A quase unanimidade a favor se deve também ao assistencialismo e à cooptação
dos “movimentos sociais”, de um lado, e de outro a uma política econômica
que aumenta os gastos com juros, Previdência e programas assistenciais.

Uma frente que tem, num extremo, o setor financeiro e, no outro, os mais
pobres, numa estranha aliança dos rentistas do Bolsa Família com os
rentistas financeiros.

O pragmatismo que rege essa maneira de fazer política fez com que o PT
engolisse a candidata oficial, tirada da cartola do ilusionista Lula e
literalmente maquiada pela equipe de marqueteiros, que vende ao eleitorado
uma persona política tão falsa quanto a favela cenográfica do programa de
estreia do candidato do PSDB.

A ex-guerrilheira, durona e de trato difícil, transformouse em tempo real
numa senhora simpática que quer se tornar “a mãe” do Brasil.

O governo Lula vem acelerando sua transformação, neste segundo mandato, na
direção de um Estado nacionalista, populista e patrimonialista, dependente
cada vez mais da vontade do líder carismático, que não aceita os limites da
lei, muito menos críticas. E se considera “o pai” do “seu” povo.

A autoestima exagerada provoca sentimento de onipotência que faz o seu
possuidor acreditar estar acima das regras que o constrangem.

Na política, pode produzir ditadores ou, no nosso caso, uma versão
pós-moderna do caudilhismo latino-americano, que o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso definiu como um “subperonismo lulista”.

Essa geleia geral que hoje apoia a candidatura oficial pode ter o mesmo
destino do peronismo argentino na era pós-Lula que se avizinha, com diversos
grupos disputando o espólio político do lulismo.

E Lula, fora do governo, querendo controlar os cordéis de seu fantoche.

Ao mesmo tempo em que aprofunda suas críticas aos órgãos fiscalizadores do
Estado, como o Ibama, o Tribunal de Contas da União (TCU) ou até mesmo o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tentando constrangê-los, o presidente
Lula insiste na tentativa de neutralizar os veículos da grande imprensa, no
pressuposto de que, com sua imensa popularidade, pode controlar a opinião
pública.

Não é suficiente uma nota oficial para garantir a liberdade de expressão,
quando há tentativas concretas, desde o início do governo, de “democratizar”
os meios de informação, uma ideia recorrente que vem sendo derrotada desde
que primeiramente foi oferecida a debate, com a proposta de criação de um
Conselho Nacional de Jornalismo, que fiscalizaria os jornalistas para evitar
“desvios éticos”.

Ela ressuscitou com a aprovação, na Conferência Nacional da Comunicação
(Confecon), de um Observatório Nacional de Mídia e Direitos Humanos para
monitorar a “mídia” e é similar à proposta contida no Programa Nacional de
Direitos Humanos de punir os órgãos de comunicação que transgredirem normas
a serem ditadas por um conselho governamental.

A questão é que, quando o governo fala em democracia, não está se referindo
aos regimes em vigor no mundo ocidental, mas aos regimes bolivarianos
gerados a partir do autoritarismo chavista na Venezuela, onde Lula acha que
há “democracia até demais”.

Não é simples coincidência que tanto lá quanto na Argentina dos Kirchner os
meios de comunicação são perseguidos ou coagidos com base em legislações
nascidas de poderes cada vez menos democráticos.

E também não é mera coincidência que esses regimes esquerdistas da América
do Sul tenham sua gênese no Foro de São Paulo, uma reunião da esquerda da
América Latina que Lula e Fidel Castro organizaram em 1990 para o
estabelecimento de uma estratégia comum, na definição do próprio Lula em
discurso.

O problema é que o Foro de São Paulo abrigava na sua fundação não apenas
partidos políticos de vários matizes da esquerda, mas também organizações
guerrilheiras como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) ou
a Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (UNRG), consideradas
terroristas, acusadas de tráfico de drogas e outras atividades criminosas.

Negar a relação do PT com as Farcs é imaginar que não existam registros
confirmando, como uma entrevista de Raul Reys, o número dois das Farcs que
morreu recentemente em confronto com o exército da Colômbia, contando como
conheceu Lula num desses encontros.

As Farcs classificaram certa vez em nota oficial o Foro de São Paulo como
“uma trincheira onde podemos encontrar os revolucionários de diferentes
tendências, e diferentes manifestações de luta e de partidos (...)”.

A continuidade dessa política de aparelhamento do Estado é o que está em
jogo nestas eleições, e é por isso que o presidente Lula está tão empenhado
em vencêlas, e não apenas elegendo sua candidata à Presidência da República.

A estratégia de tentar influenciar a eleição do Congresso, sobretudo a do
Senado, tem por trás o desejo de abrir caminho para aprovar legislação que
aumente o controle do governo sobre o Estado brasileiro e, eventualmente,
sobre a sociedade, através da “democracia direta”, à base de plebiscitos.

(Continua amanhã)

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