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   - *A revelação*

  Dora Kramer - Dora Kramer

O Estado de S. Paulo - 20/08/2010




Depois de muito resistir - foi preciso o presidente Lula contaminar o senso
comum com a certeza do "já ganhou" - o candidato do PSDB a presidente, José
Serra, acabou percebendo uma evidência: oposição existe para se opor.


Não a uma entidade etérea que ninguém sabe direito o que é ou às mazelas de
um modo geral. Oposição existe para se opor à situação. Para ganhar ou
perder.

Luiz Inácio da Silva cansou de ensinar isso aos governos aos quais fez
oposição. Não que todo oposicionista deva ter como modelo o PT.

Aquele que em nome de um projeto partidário se opõe até ao bem-estar da
maioria - por exemplo, sendo o único ente a não se engajar no combate à
inflação nos anos 90 - para depois reivindicar a autoria da obra rejeitada.

Em versão suave o nome disso é oportunismo.

Oposição representa o contraditório que não precisa necessariamente ser
destrutivo nem agressivo. Mas não pode deixar de ser incisivo ao contraditar
o que diz e o que faz o governo. De preferência quando existirem motivos
para tal e mediante a apresentação de argumentos bem fundamentados.

Durante dois mandatos de Lula, o PT e a ampla coligação partidária que
sustenta o governo deram muitos motivos e várias oportunidades para que a
oposição cumprisse o seu papel. Raríssimas exceções, o PSDB nunca quis.

Não por falta de chamamento - o DEM bem que tentou, junto a algumas vozes
combativas em outros partidos -, mas por falta de vocação para a luta,
excesso de cálculo, medo de arriscar e uma confiança temerária no destino.

As duas principais lideranças eram governadores de Estado (José Serra e
Aécio Neves) e neste Brasil atrasado é preciso ter relações cordiais na
política para que as ações administrativas não sejam prejudicadas.

O porta-voz mais abalizado (pelo preparo e por ter ocupado a Presidência por
oito anos) era rejeitado por não ser "popular". Fernando Henrique Cardoso
era ouvido em privado e ignorado em público. Suas críticas caíram no vazio
por mais pertinentes que fossem.

As bancadas na Câmara e no Senado, outra vez ressalvadas as exceções
raríssimas, eram perfeitas traduções da frouxidão (no sentido preguiçoso da
palavra) e da ambiguidade.


Nunca houve um plano de ação entre os representantes parlamentares,
executivos e partidários, muito menos houve estratégia para enfrentar os
anos de oposição e depois para a campanha eleitoral.


Serra e Aécio se faziam de bonzinhos, alguns senadores de mauzinhos, os
melhores deputados depois de duas ou três ordens para "aliviar" para o lado
de Lula em CPIs. FH falava sozinho.


Depois de começar a campanha ainda no papel de bonzinho, Serra viu pelas
pesquisas que só lhe resta fazer o que seu partido deveria ter feito nos
últimos oito anos, até porque foi essa a escolha do eleitorado em 2002 e
2006: que o PSDB ficasse na oposição.


Há, entretanto, um problema. Talvez não dê certo porque o eleitorado poderá
não firmar laços de confiança com candidato e partido que mudam de
comportamento de uma hora para outra.


A tarefa não é simples, pois Serra se propõe a convencer o eleitorado em 40
dias de algo sobre o que o PSDB não pareceu convencido em oito anos.


Choque de gestão. Em dois mandatos o loteamento partidário da administração
pública destruiu a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que já foi
de símbolo da eficiência.


Obra iniciada pelo PTB e completada com brilhantismo pelo PMDB, cuja gestão
na Fundação Nacional de Saúde já teve suas credenciais apresentadas pelo
ministro da Saúde, José Gomes Temporão, para quem a Funasa é conhecida pelas
denúncias de corrupção e baixa qualidade de serviços prestados.


Não por isso. Em Brasília a campanha de Joaquim Roriz está indignada com o
PT, que chamou seu candidato de "ficha-suja" no horário eleitoral.


Roriz - notório ficha-limpa - quer direito de resposta.

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